O diretor de estratégia sindical da Federação Nacional dos Policiais Federais, Flávio Werneck, afirma que grande parte da categoria defende a retirada total do sigilo das investigações do Banco Master e do INSS que tramitam no Supremo Tribunal Federal. Licenciado da função, ele concorre a deputado federal pelo Distrito Federal, pelo PDT. As informações são da Folha de S.Paulo, na coluna Mônica Bergamo.
Segundo Werneck, que diz acompanhar ao menos sete grupos com profissionais de diferentes segmentos e posições ideológicas, a intervenção do ministro André Mendonça, que afastou na terça-feira, 8 de setembro, Andrei Rodrigues do comando da Polícia Federal, é vista como ingerência indevida no órgão por membros da instituição. O presidente do Supremo, Edson Fachin, decidiu na quarta-feira, 9, suspender a decisão de Mendonça e manteve Rodrigues no cargo de diretor-geral. Para Werneck, há um sentimento geral de que Mendonça faz uso político do órgão e divulga trechos específicos para atacar alvos, o que prejudica o andamento da investigação e pode, inclusive, gerar nulidade no processo. Ele afirma ser "esdrúxula" a comparação feita pelo magistrado entre o relatório interno da Polícia Federal divulgado na quinta-feira, 3, e o monitoramento de ativistas e críticos do governo por órgãos de inteligência realizado durante a gestão de Jair Bolsonaro. O documento apontava que Mendonça teria interferido na condução das investigações das operações Sem Desconto e Compliance Zero.
Por que a categoria quer o fim do sigilo
O argumento central de quem defende a retirada do sigilo é que a divulgação seletiva de trechos produz o pior dos dois mundos: mantém o público sem acesso ao conjunto das provas e permite que fragmentos sejam usados para sustentar narrativas convenientes a um lado ou a outro. Num caso em que o próprio Supremo é parte interessada — porque um de seus integrantes aparece mencionado em relatório da corporação —, a assimetria de informação alimenta a desconfiança de que a apuração está sendo conduzida por critérios que não são exclusivamente técnicos. A abertura integral, nessa leitura, protegeria simultaneamente os investigados, ao permitir defesa sobre o todo, e os investigadores, ao expor o método de trabalho. O contra-argumento clássico é que a publicidade prematura compromete diligências ainda em curso e expõe terceiros mencionados que jamais serão indiciados.
A comparação que Werneck classificou como "esdrúxula"
Mendonça equiparou o relatório interno da Polícia Federal divulgado em 3 de setembro ao monitoramento de ativistas e de críticos do governo feito por órgãos de inteligência durante a gestão Bolsonaro. Werneck rejeita a analogia e lembra que os dossiês contra policiais e servidores públicos foram elaborados justamente no período em que o hoje ministro comandava o Ministério da Justiça, o que, na sua avaliação, torna a comparação insustentável.
As operações Sem Desconto e Compliance Zero
O relatório interno da corporação apontava que Mendonça teria interferido na condução das investigações dessas duas operações. A Sem Desconto apura as fraudes nos descontos aplicados sobre benefícios de aposentados e pensionistas do INSS, esquema que atingiu milhões de segurados. A Compliance Zero investiga as fraudes atribuídas ao Banco Master, incluindo a estrutura de fundos usada para reciclar carteiras de crédito. Juntas, são as duas maiores apurações financeiras em curso no país.
Quatro trocas no comando durante o governo Bolsonaro
Werneck contrasta a indisposição atual do magistrado com a atual direção da corporação com a ausência de questionamentos no período em que houve quatro trocas no comando da Polícia Federal, durante o governo Bolsonaro. O paralelo é usado para sustentar que a preocupação com a autonomia do órgão estaria sendo aplicada de forma seletiva, conforme o alinhamento político de quem ocupa o cargo.
O risco de nulidade que preocupa os investigadores
A avaliação de que a divulgação de trechos pode gerar nulidade não é retórica. Vazamentos seletivos e interferências na condução de inquéritos são argumentos frequentemente usados por defesas para pedir a anulação de provas e, em casos extremos, de toda a investigação. Numa apuração do porte da que envolve o Master, com dezenas de investigados e bilhões em ativos, a perda de material probatório por vício processual teria consequências difíceis de reverter.
Quem é Flávio Werneck e de onde ele fala
Diretor de estratégia sindical da Federação Nacional dos Policiais Federais, ele está licenciado da função e concorre a deputado federal pelo Distrito Federal, pelo PDT. A condição de candidato em ano eleitoral é um dado relevante para o leitor avaliar o peso da declaração: trata-se de uma voz que representa parte da categoria e que, simultaneamente, disputa um cargo eletivo.
A resposta do Supremo
Procurado por meio de sua assessoria, o Supremo Tribunal Federal não respondeu à coluna até a publicação da reportagem. O silêncio institucional é a regra em situações que envolvem manifestações sobre a conduta de ministros, mas mantém sem contraponto oficial as críticas apresentadas pelo representante da categoria.
O que a corporação está defendendo, no fundo
Por trás da discussão sobre sigilo está uma disputa mais ampla sobre autonomia investigativa. A Polícia Federal é órgão do Executivo, mas conduz apurações sob supervisão judicial. Quando um ministro do Supremo determina o afastamento do diretor-geral com base em conduta apurada em procedimento que ele próprio relata, a fronteira entre supervisão e ingerência se torna o ponto sensível — e é exatamente aí que a categoria se posiciona.
A decisão de Fachin e o efeito imediato
Ao suspender as liminares de Mendonça e de Flávio Dino, o presidente do Supremo manteve Andrei Rodrigues no cargo e proibiu qualquer novo procedimento sobre integrantes da corte sem prévia submissão à presidência. Para a corporação, o efeito prático foi o de estancar, ao menos até o julgamento marcado para 15 de setembro, a instabilidade no comando.
A autonomia da Polícia Federal em debate no Congresso
A discussão sobre mandato fixo para o diretor-geral da Polícia Federal volta ao Congresso a cada crise envolvendo a corporação, e a atual não é exceção. Defensores da medida sustentam que um período determinado de exercício, com hipóteses taxativas de destituição, blindaria o cargo de pressões momentâneas, do Executivo e do Judiciário. Críticos argumentam que a solução criaria uma autoridade sem controle político efetivo, num órgão que integra a estrutura do governo. O episódio desta semana, em que dois ministros do Supremo decidiram em sentidos opostos sobre quem deve ocupar a direção-geral, tende a reacender a proposta com força inédita — e a federação que Werneck representa é uma das entidades que historicamente a defendem.
Sigilo, transparência e o interesse do cidadão
Os dois casos citados por Werneck têm em comum o fato de atingirem diretamente o bolso da população: as fraudes do INSS descontaram valores de aposentadorias, e a quebra do Master mobilizou o Fundo Garantidor de Créditos, sustentado pelo sistema bancário. Esse é o argumento mais forte a favor da publicidade — e o que explica por que a demanda pela retirada do sigilo não parte apenas de quem investiga.
A fraude dos descontos no INSS e o tamanho do prejuízo
A operação Sem Desconto revelou um esquema em que entidades associativas aplicavam descontos mensais em benefícios de aposentados e pensionistas sem autorização válida, prática que se estendeu por anos e alcançou milhões de segurados em todo o país. O caso levou à queda de dirigentes do instituto, provocou a devolução de valores a beneficiários e transformou-se em uma das principais investigações financeiras em curso. Para os policiais que trabalham na apuração, a exposição fragmentada de trechos do inquérito é especialmente danosa nesse contexto, porque parte das vítimas ainda tenta reaver os descontos e depende da conclusão do procedimento para comprovar o prejuízo. É por isso que a demanda por transparência integral, no caso do INSS, vem também de associações de aposentados, e não apenas de dentro da corporação.
O que vem pela frente
A decisão sobre manter ou retirar o sigilo cabe ao relator de cada procedimento e, em última instância, ao plenário. Com a redistribuição de relatorias determinada por Fachin e a sessão extraordinária de 15 de setembro, o tema pode voltar à mesa em conjunto com a discussão sobre a validade do relatório que menciona Alexandre de Moraes.
As declarações de Flávio Werneck, diretor de estratégia sindical da Federação Nacional dos Policiais Federais, foram publicadas em 9 de setembro de 2026 pela coluna Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo. Procurado, o Supremo Tribunal Federal não se manifestou até a publicação.
Foto: Marinha do Brasil (CC BY-SA 2.0) via Wikimedia Commons.