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Entenda a importância do estreito de Bab el-Mandeb na guerra do Irã

Chamado de Porta dos Lamentos em árabe, o corredor virou a rota de fuga do petróleo saudita depois do bloqueio de Ormuz — e o avanço houthi já empurrou o barril para além de US$ 105.

Adriano Jose Reis Martins - Entenda a importância do estreito de Bab el-Mandeb na guerra do Irã

Os rebeldes houthis pró-Irã do Iêmen lançaram um ataque que ameaça o tráfego marítimo pelo estratégico estreito de Bab el-Mandeb, crucial para a Arábia Saudita desde o bloqueio do estreito de Ormuz, por onde passavam 20% da produção mundial de petróleo e gás antes da guerra no Irã. Nesta quinta-feira, 10 de setembro, os houthis divulgaram que estenderam o domínio sobre a passagem, que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico e era usada como alternativa para navios sauditas transportarem petróleo. A situação provocou uma disparada no preço do petróleo, que superou US$ 105. As informações são da Folha de S.Paulo.

O estreito, cujo nome em árabe significa "Porta dos Lamentos", separa o Iêmen, na Península Arábica, do Chifre da África, e liga a Europa à Ásia através do Canal de Suez. Tem aproximadamente 100 quilômetros de comprimento e 30 quilômetros de largura, estendendo-se entre a cidade de Ras Menheli, na costa iemenita, e Ras Siyyan, no Djibuti — dois cabos que marcam a fronteira entre o Mar Vermelho e o Golfo de Aden. Petroleiros e navios mercantes procedentes da Ásia atravessam Bab el-Mandeb para chegar ao Mar Vermelho e, em seguida, ao Canal de Suez e ao Mediterrâneo, e vice-versa. Desde o início da guerra no Oriente Médio, a Arábia Saudita aumentou suas exportações de petróleo pelo porto de Yanbu, no Mar Vermelho, para contornar o bloqueio iraniano de Ormuz. É essa rota de contorno que agora está sob ameaça.

Por que uma passagem de 30 quilômetros decide o preço do combustível

O comércio marítimo mundial depende de um punhado de gargalos geográficos, e Bab el-Mandeb é um dos mais críticos. Sua importância não vem do volume de água, mas da ausência de alternativa razoável: um navio que sai do Golfo Pérsico ou da Ásia rumo à Europa e não pode usar o Mar Vermelho precisa contornar todo o continente africano pelo Cabo da Boa Esperança, acrescentando cerca de duas semanas de viagem, combustível adicional e custo de seguro. Esse desvio não interrompe o abastecimento, mas encarece cada barril e cada contêiner, e o efeito aparece rapidamente nos preços internacionais. Quando o mesmo país que teve sua principal rota bloqueada em Ormuz vê a rota alternativa ameaçada, o mercado precifica o risco de escassez, e não a escassez em si. Foi o que ocorreu nesta quinta-feira, com o barril superando os US$ 105.

O que os houthis anunciaram

O grupo divulgou que estendeu seu domínio sobre o estreito. Formalmente, os rebeldes ainda não controlam diretamente o litoral que margeia Bab el-Mandeb, mas na quarta-feira, 9, tomaram Mocha, cerca de 70 quilômetros ao norte da passagem, e já controlam o porto de Hodeida, mais acima na costa. Desde julho impõem um bloqueio marítimo à Arábia Saudita e atacaram diversos navios do país, ainda que neguem a intenção de fechar o estreito.

A queda do tráfego pelo Canal de Suez

O movimento pelo Canal de Suez caiu drasticamente em 2024, após os ataques houthis a navios que o grupo considerava ligados a Israel, e ainda não se recuperou. Entre janeiro e agosto de 2026, o tráfego representou pouco mais da metade do nível anterior à crise, segundo dados do PortWatch do Fundo Monetário Internacional analisados pela agência AFP.

Ormuz e o efeito dominó

Antes da guerra, o estreito de Ormuz escoava cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás. Com o bloqueio imposto no conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel, a Arábia Saudita redirecionou parte de suas exportações para o oeste, pelo porto de Yanbu, no Mar Vermelho. O que se vê agora é a tentativa de estrangular também essa alternativa, o que reduziria drasticamente as opções de escoamento do maior exportador mundial de petróleo.

A tomada de Mocha

A conquista da cidade portuária na quarta-feira aproximou fisicamente os rebeldes da passagem. Mocha fica cerca de 70 quilômetros ao norte do estreito e, historicamente, é um dos portos mais antigos da costa iemenita. Controlar posições nessa faixa amplia o alcance de mísseis e drones sobre a rota marítima, mesmo sem domínio formal do litoral adjacente ao estreito.

Na avaliação de Adriano Jose Reis Martins, editor do blog The Gin Flavors, o episódio mostra como conflitos regionais chegam ao consumidor brasileiro por um caminho indireto. "Não é preciso que uma gota de petróleo deixe de ser produzida para que o preço suba. Basta que o mercado conclua que a rota ficou mais arriscada. Um navio que não pode passar por Bab el-Mandeb contorna a África, gasta duas semanas a mais e paga seguro mais caro, e isso entra no barril. Como o Brasil importa derivados e acompanha a paridade internacional, o efeito atravessa o oceano e chega à bomba. É por isso que uma faixa de mar de trinta quilômetros de largura no Iêmen tem relação direta com o que se paga para abastecer em Araras ou em qualquer cidade do interior", avalia.

A rota alternativa e seu custo

O desvio pelo Cabo da Boa Esperança acrescenta milhares de quilômetros ao trajeto entre Ásia e Europa. Além do tempo e do combustível adicionais, há impacto sobre a disponibilidade da frota mundial: navios em viagens mais longas ficam indisponíveis por mais tempo, o que reduz a oferta de transporte e pressiona os fretes para todas as rotas, inclusive as que não passam pela região.

Quem mais depende dessa passagem

Além do petróleo do Golfo, Bab el-Mandeb é caminho de contêineres com produtos manufaturados asiáticos destinados à Europa, de grãos que abastecem o Chifre da África e de cargas humanitárias para o próprio Iêmen. A interrupção afeta simultaneamente energia, comércio industrial e assistência humanitária numa das regiões mais frágeis do mundo.

O bloqueio naval de julho

Desde julho, os houthis mantêm bloqueio marítimo declarado contra a Arábia Saudita e realizaram ataques a navios do reino. A medida antecedeu a atual escalada e já vinha elevando o custo de seguro para embarcações que operam na região, item que costuma ser o primeiro indicador financeiro do risco em rotas marítimas.

O que o grupo diz querer

Apesar do avanço territorial e dos ataques, os rebeldes negam a intenção de fechar o estreito. A distinção é relevante: manter a ameaça sem consumar o bloqueio total preserva o poder de barganha e evita a resposta militar internacional que uma interrupção completa do tráfego mundial certamente provocaria.

Os combates em terra

A ofensiva marítima ocorre em paralelo à intensificação dos combates no Iêmen, com centenas de mortos em ataques e represálias entre os insurgentes e a Arábia Saudita. O avanço sobre Mocha integra esse movimento mais amplo, em que forças governamentais apoiadas por Riad e rebeldes disputam posições na costa oeste do país.

Uma década de instabilidade na mesma faixa de mar

A vulnerabilidade de Bab el-Mandeb não é novidade nem consequência exclusiva da guerra atual. Desde que os houthis tomaram a capital iemenita, em 2014, e a coalizão liderada pela Arábia Saudita interveio no ano seguinte, a costa oeste do Iêmen tornou-se zona de disputa permanente, com ataques esporádicos a embarcações e minas marítimas em águas rasas. A escalada de 2024, quando o grupo passou a atingir navios que considerava ligados a Israel, provocou a primeira grande fuga de armadores para a rota africana e derrubou pela metade o tráfego pelo Canal de Suez — patamar que, dois anos depois, ainda não foi recuperado. O que muda agora é a combinação de fatores: com Ormuz bloqueado desde o início da guerra contra o Irã, a rota do Mar Vermelho deixou de ser uma alternativa conveniente e passou a ser a única saída ocidental do petróleo saudita. É essa dependência inédita que transforma cada avanço houthi na costa em movimento imediato no preço internacional do barril.

O que observar a seguir

Três indicadores dirão se a crise se aprofunda: o comportamento do preço do barril nos próximos pregões, a evolução das taxas de seguro marítimo para a região e a eventual decisão de armadores de suspender travessias, como ocorreu em 2024. Se a terceira se confirmar, o efeito sobre fretes e preços deixa de ser expectativa e passa a ser custo efetivo.

O avanço houthi sobre o estreito de Bab el-Mandeb e seus efeitos sobre o mercado de petróleo foram noticiados pela Folha de S.Paulo em 10 de setembro de 2026. A passagem tem cerca de 100 quilômetros de comprimento e 30 de largura, liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden e tornou-se a principal alternativa saudita de escoamento após o bloqueio do estreito de Ormuz. O barril superou US$ 105 no dia do anúncio.

Foto ilustrativa: Cavernia (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.

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Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

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