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Família de crianças desaparecidas no Maranhão pede inclusão na lista de alerta da Interpol

Mãe de Ágatha, 6, e Allan, 4, sumidos há oito meses em Bacabal, protocolou na PF o pedido de difusão amarela; hipótese de que estivessem entre menores achados na Flórida foi descartada.

Adriano Jose Reis Martins - Mundo - Família de crianças desaparecidas no Maranhão pede inclusão na lista de alerta da Interpol

A investigação sobre o desaparecimento dos irmãos Ágatha Isabelly Reis Lago, de 6 anos, e Allan Michael Reis Lago, de 4, em Bacabal, no Maranhão, entrou no oitavo mês sem avanços e pode ganhar reforço da Interpol. A mãe das crianças, Clarice Cardoso, reuniu-se nesta quarta-feira, 9 de setembro, com uma equipe da Polícia Federal em São Luís e encaminhou oficialmente o pedido de inclusão dos nomes na lista de difusão amarela da organização, alerta internacional utilizado para auxiliar na localização de pessoas desaparecidas. As informações são da Folha de S.Paulo.

A Polícia Federal informou, por meio de sua assessoria, que a solicitação de inclusão na lista será analisada antes da adoção de eventuais procedimentos para encaminhar o pedido à Interpol. Caberá ao órgão internacional avaliar a solicitação e compartilhar o alerta com os demais países-membros. Também nesta quarta-feira foi descartada a possibilidade de que as crianças estivessem entre os 163 menores encontrados entre 17 e 21 de agosto durante uma operação da polícia americana na Flórida para localizar crianças e adolescentes desaparecidos em situação de vulnerabilidade. Segundo informações repassadas pelo departamento da Interpol no Brasil, nenhum brasileiro estava entre os menores resgatados. A advogada Nathaly Moraes, que faz a defesa de Clarice, disse que seria feita a coleta de material genético da mãe para análise e comparação com coletas realizadas nos Estados Unidos. Não há informações concretas que apontem que as crianças tenham sido levadas para fora do país. "Os filhos de Clarice nunca tiraram identidade, então não havia, na base de dados digitais, nenhum dado relativo às crianças", afirmou a advogada.

Oito meses sem resposta e uma investigação sob segredo

O desaparecimento dos irmãos completou oito meses em 4 de setembro. Os dois sumiram na tarde de 4 de janeiro de 2026, quando saíram para brincar numa área de mata na comunidade quilombola São Sebastião dos Pretos, zona rural de Bacabal, a cerca de 240 quilômetros de São Luís. Eles estavam acompanhados do primo Anderson Kauã, então com 8 anos, que foi encontrado três dias depois por carroceiros, perto de uma estrada, a cerca de quatro quilômetros de casa. O menino, que ficou treze dias internado, relatou às autoridades que entrou numa mata com os primos para procurar frutas. A Secretaria de Segurança Pública do Maranhão informou, em comunicado, que as investigações seguem em andamento e estão sob segredo de Justiça, razão pela qual não pode divulgar detalhes. A Folha entrou em contato com o Ministério da Justiça, responsável por colaborações internacionais, na tarde de quarta-feira, e não obteve resposta até a publicação do texto.

O que é a difusão amarela da Interpol

A difusão amarela é o alerta internacional emitido pela Interpol para auxiliar na localização de pessoas desaparecidas, especialmente menores de idade, ou para identificar indivíduos incapazes de se identificar. Diferentemente da difusão vermelha, voltada à captura de foragidos, ela não tem caráter de mandado: funciona como um aviso que circula entre as polícias dos 196 países-membros, permitindo que uma criança localizada em qualquer um deles seja imediatamente associada ao registro de desaparecimento.

Por que a ausência de documentos dificulta o alerta

A observação da advogada sobre a inexistência de registro de identidade das crianças é tecnicamente decisiva. Sistemas internacionais de identificação cruzam impressões digitais, fotografias oficiais e dados biométricos. Sem documento emitido, não há material biométrico prévio em base alguma, o que reduz o alerta a fotografias de família e a descrições físicas — e explica por que a coleta de material genético da mãe se tornou o principal recurso disponível.

A pista da Flórida e por que foi descartada

Entre 17 e 21 de agosto, uma operação da polícia americana na Flórida localizou 163 crianças e adolescentes desaparecidos em situação de vulnerabilidade. A repercussão do caso levou a família a solicitar verificação. O departamento da Interpol no Brasil informou que nenhum brasileiro estava entre os menores resgatados, o que encerrou essa linha específica sem, contudo, afastar a hipótese mais ampla de deslocamento internacional.

O papel do exame de DNA

A coleta de material genético da mãe permite comparação com perfis armazenados em bancos de dados, no Brasil e no exterior, incluindo os de crianças não identificadas. É um procedimento que não depende de documentação prévia e que, por isso, se tornou central em casos de desaparecimento de menores sem registro civil, ainda que os resultados possam levar meses.

O relato do primo sobrevivente

Anderson Kauã, então com 8 anos, foi encontrado três dias após o desaparecimento por carroceiros, a cerca de quatro quilômetros de casa, e passou treze dias internado. Seu relato de que o grupo entrou na mata para procurar frutas é o único testemunho direto disponível sobre as primeiras horas do caso, e é a partir dele que se estruturaram as buscas iniciais na região.

Uma comunidade quilombola no centro do caso

São Sebastião dos Pretos é uma comunidade quilombola na zona rural de Bacabal, marcada por acesso limitado a serviços públicos. Comunidades nessas condições costumam apresentar índices elevados de subregistro civil — crianças que nascem e crescem sem documentação —, o que ajuda a explicar por que os irmãos não tinham identidade emitida e como isso agora limita as ferramentas de busca.

O que o segredo de Justiça impede e o que preserva

A Secretaria de Segurança Pública do Maranhão afirma que a investigação corre sob sigilo. A medida protege diligências em andamento e evita que eventuais suspeitos ajustem condutas, mas também impede que a família e o público acompanhem o que efetivamente foi feito em oito meses, o que alimenta a percepção de paralisia mesmo quando há trabalho em curso.

A competência federal e o pedido internacional

Casos de desaparecimento são apurados, em regra, pelas polícias civis estaduais. A Polícia Federal entra quando há indício de deslocamento entre países ou necessidade de cooperação internacional, que é exatamente o ponto do pedido de difusão amarela. A avaliação da PF antecede o encaminhamento à Interpol, que então decide sobre a emissão do alerta.

O subregistro civil como obstáculo invisível

A informação de que as crianças nunca tiveram documento emitido não é um detalhe processual: é o núcleo da dificuldade técnica que a investigação enfrenta. O Brasil reduziu de forma expressiva o subregistro nas últimas duas décadas, mas ele persiste concentrado em áreas rurais, comunidades quilombolas e regiões ribeirinhas, onde a distância até o cartório e a informalidade dos partos domiciliares mantêm crianças fora das bases oficiais. Sem certidão, não há registro biométrico, não há foto oficial e não há vínculo verificável em sistemas de saúde ou educação — de modo que a criança, para efeito de qualquer cruzamento automatizado de dados, simplesmente não existe. É por isso que a coleta de material genético da mãe se tornou o recurso central do caso.

Números que dimensionam o problema

O desaparecimento de crianças e adolescentes é um dos crimes com menor taxa de elucidação no Brasil, e a ausência de um cadastro nacional plenamente integrado é apontada há anos por especialistas como um dos principais entraves. Cada estado alimenta sistemas próprios, e a comunicação entre eles depende de iniciativa individual dos investigadores.

O Alerta Amber e a janela crítica das primeiras horas

Protocolos internacionais de busca por crianças desaparecidas partem de uma premissa consolidada pela estatística criminal: as primeiras horas concentram a maior probabilidade de localização com vida. Sistemas como o Alerta Amber, nos Estados Unidos, e mecanismos equivalentes adotados por países europeus disparam avisos em massa por rádio, televisão, telefonia celular e painéis de rodovia minutos após o registro, mobilizando a população como rede de observação. O Brasil discute há anos a implantação de um sistema unificado com esse alcance, sem que tenha saído do papel em escala nacional. No caso de Bacabal, a mobilização inicial dependeu de buscas locais em área de mata, e o pedido de alerta internacional chega oito meses depois — quando o rastro físico já se dissipou e a identificação passa a depender quase inteiramente de comparação genética.

O que a família espera agora

Com o pedido protocolado, a expectativa é que a Polícia Federal conclua a análise e encaminhe a solicitação à Interpol, que decidirá sobre a emissão do alerta aos países-membros. Paralelamente, a coleta de material genético segue em andamento. São dois procedimentos independentes que, somados, ampliam a chance de identificação caso as crianças sejam localizadas fora do estado ou do país.

O pedido de inclusão de Ágatha Isabelly Reis Lago e Allan Michael Reis Lago na lista de difusão amarela da Interpol foi protocolado em 9 de setembro de 2026, em São Luís, e noticiado pela Folha de S.Paulo. As crianças desapareceram em 4 de janeiro de 2026 na zona rural de Bacabal, no Maranhão, e a investigação corre sob segredo de Justiça.

Foto: Massimiliano Mariani (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia Commons.

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Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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