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Troca de comando na Apple: John Ternus assume como CEO com salário

Cook, CEO desde 2011, levou a Apple a US$ 4 trilhões e seguirá cuidando de governos; Ternus, engenheiro de hardware, liderou iPhone 17 e iPhone Air.

Troca de comando na Apple: John Ternus assume como CEO com salário

Com o fim da era de Tim Cook à frente da Apple no início da semana, a empresa informou quanto o executivo ganhará em sua nova função e qual será a remuneração do novo CEO, John Ternus. Cook, na Apple desde 1998 e CEO desde 2011, assumiu como presidente-executivo do conselho de administração e continuará responsável por certos assuntos — entre eles, o relacionamento da empresa com governos. Terá salário de US$ 2 milhões por ano (R$ 10 milhões) e bonificação com valor-alvo de US$ 45 milhões (R$ 230 milhões) ao longo de quatro anos. Ternus, na empresa desde 2001 e vice-presidente sênior de Engenharia de Hardware há cinco anos, assume a gestão do dia a dia com salário de US$ 3 milhões (R$ 15 milhões) e bônus-alvo de US$ 55 milhões (R$ 280 milhões) em quatro anos, além de US$ 2,5 milhões em ações pelo tempo como CEO no ano fiscal de 2026. As informações são do g1.

Os valores constam de documentos enviados pela Apple à Securities and Exchange Commission, o regulador do mercado americano, por se tratar de empresa com ações em bolsa. A estrutura da bonificação — concessão de ações ao longo de quatro anos, com parte atrelada ao desempenho relativo ao S&P 500 — é o que define quanto os dois receberão de fato.

O bônus: 55% do S&P 500 como régua

Para Ternus, 75% do valor total da bonificação está vinculado ao retorno das ações da Apple em comparação com as demais empresas do S&P 500; para Cook, o critério vale para 50%. Os dois receberão o valor-alvo se as ações da Apple tiverem desempenho melhor que 55% das companhias do índice — em um período anterior de três anos, a empresa ficou acima de 70%. Se a Apple superar 85% das outras empresas, o prêmio por desempenho dobra. O restante — 25% para Ternus, 50% para Cook — é vinculado à permanência e adquirido em parcelas semestrais ao longo de quatro anos.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a estrutura diz o que a Apple espera de cada um. "Três quartos do bônus do Ternus dependem de a ação bater o mercado; metade do bônus do Cook depende só de ele ficar. É a divisão de trabalho: o novo CEO é cobrado por resultado, o ex-CEO é pago para não sair — para garantir a transição e cuidar de Washington e Pequim. Cinquenta e cinco milhões de dólares para quem faz a Apple valer mais que 55% do S&P é, para os padrões da empresa, pouco: Cook ganhou muito mais em anos bons. A Apple está dizendo que espera crescimento, não milagre", avalia.

Cook: 15 anos e 1.000% de valorização

Tim Cook assumiu a Apple em agosto de 2011, semanas antes da morte de Steve Jobs, sob a desconfiança de quem achava que a empresa não sobreviveria ao fundador. Sob seu comando, foram lançados o Apple Watch, os AirPods, o Apple Vision Pro e serviços como iCloud, Apple Music e Apple TV+; a receita de serviços se tornou o segundo negócio da empresa; a cadeia de produção, que Cook já comandava como diretor de operações, foi diversificada para a Índia e o Vietnã; e o valor de mercado cresceu mais de 1.000%, chegando a US$ 4 trilhões (R$ 20 trilhões). "É um momento que sempre soube que chegaria um dia, e ainda assim é difícil acreditar que chegou", escreveu Cook aos funcionários, em mensagem obtida pela Bloomberg.

Ternus: o engenheiro do hardware

John Ternus é engenheiro de formação e fez carreira no hardware da Apple: participou do desenvolvimento de iPads e AirPods, liderou a transição dos Macs para os chips próprios da empresa e, mais recentemente, comandou a reformulação do iPhone 17 e o lançamento do iPhone Air, a versão mais fina da linha. É o perfil oposto ao de Cook — operações e logística — e mais próximo do de Jobs no que diz respeito ao produto. A escolha sinaliza que a Apple quer, para a década da inteligência artificial e dos novos formatos de dispositivo, um CEO que entenda o que sai da fábrica.

O papel de Cook no conselho: governos

A definição de que Cook seguirá responsável pelo relacionamento com governos não é detalhe. A Apple opera sob pressão regulatória e comercial em várias frentes — tarifas americanas sobre produtos fabricados na China e na Índia, a lei de mercados digitais da União Europeia, investigações antitruste nos EUA, a relação com Pequim, de onde vem boa parte da produção e das vendas. Cook construiu, em 15 anos, acesso direto a presidentes, primeiros-ministros e ao governo chinês; transferir isso a um engenheiro de hardware levaria anos. Mantê-lo no conselho com essa atribuição preserva o ativo mais difícil de replicar.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a sucessão foi desenhada para não parecer sucessão. "Cook não sai; sobe. Continua com o salário, com bônus de US$ 45 milhões e com a pasta mais delicada da empresa — Trump, Xi, Bruxelas. Ternus vira CEO com a régua do S&P e a missão de fazer produto. É a transição mais suave possível numa empresa de US$ 4 trilhões: o velho chefe cuida do mundo, o novo cuida do iPhone. O risco é o de sempre em sucessão de fundador-sombra: o CEO que não é totalmente CEO. A Apple aposta que a divisão é clara. O mercado vai testar na primeira decisão difícil", observa.

Remuneração de CEO: o padrão das big techs

Salários-base de US$ 2 milhões a US$ 3 milhões são modestos para o topo das big techs; o grosso da remuneração vem das ações condicionadas a desempenho — modelo que alinha o executivo ao acionista e que, em anos de alta, produz pacotes de centenas de milhões. Cook recebeu, em seus melhores anos, mais de US$ 90 milhões em ações. O bônus-alvo de US$ 55 milhões de Ternus, dobrável se a Apple superar 85% do S&P, pode chegar a US$ 110 milhões — ou ficar bem abaixo, se a ação decepcionar. É risco assumido pelo executivo e transparência exigida pela SEC.

A ação dos funcionários: o que vale para todos

O modelo de remuneração em ações não é exclusivo do topo: a Apple concede unidades de ações restritas a dezenas de milhares de funcionários, de engenheiros a gerentes de loja, com vesting ao longo de anos. É o que alinha a empresa inteira ao preço da ação — e o que fez de muitos funcionários de longa data milionários ao longo da gestão Cook. A transição de comando é acompanhada de perto por eles por razão prática: a régua de 55% do S&P que define o bônus de Ternus é a mesma que define o valor das ações de quem trabalha na empresa.

Wall Street: reação contida

A ação da Apple oscilou pouco com o anúncio — sinal de que a sucessão era esperada e de que o mercado aprova Ternus. Analistas destacaram a permanência de Cook no conselho como fator de estabilidade e o perfil de produto do novo CEO como resposta à crítica de que a Apple, sob um executivo de operações, teria perdido ritmo de inovação. A pergunta aberta é a IA: a Apple Intelligence chegou depois dos concorrentes e com recursos limitados, e a Siri renovada segue em desenvolvimento. É nessa frente que Ternus será julgado primeiro.

O que muda para o consumidor

No curto prazo, nada: os produtos de 2026 e 2027 já estão em desenvolvimento, e o ciclo de lançamentos de setembro segue. No médio prazo, a gestão de um engenheiro de hardware pode significar aposta maior em novos dispositivos — óculos, wearables, o sucessor do Vision Pro — e em integração de IA no aparelho, área em que a Apple é acusada de atraso frente a Google e Samsung. A pergunta que o mercado faz — "sob nova direção, a Apple manterá prestígio na era da IA?" — é a que Ternus terá quatro anos para responder.

Sucessões na Apple: Jobs, Cook, Ternus

A Apple teve três CEOs de fato em 30 anos de sua era moderna: Jobs, que a refundou em 1997; Cook, que a transformou na empresa mais valiosa do mundo; e agora Ternus. Cada transição foi preparada anos antes — Cook foi diretor de operações e CEO interino em licenças médicas de Jobs; Ternus foi promovido a vice-presidente sênior em 2021 e apresentado publicamente em lançamentos desde então. A previsibilidade é marca da governança da empresa, e a manutenção de Cook no conselho segue o modelo: o antecessor não desaparece, supervisiona.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o dado mais interessante é o que a Apple não anunciou. "Ternus vai ganhar bônus se a ação bater 55% do S&P. A Apple ficou acima de 70% nos últimos três anos. A meta é mais baixa que o histórico — o que significa que o conselho espera anos mais difíceis: tarifa, China, IA, saturação do iPhone. É a leitura fria por trás dos números da SEC. Ternus foi contratado para uma década em que crescer 5% ao ano já será vitória. Cook entregou o impossível; Ternus precisa entregar o difícil. E é justo que ganhe US$ 55 milhões se conseguir", analisa.

Os documentos com a remuneração de Tim Cook e John Ternus foram protocolados pela Apple na Securities and Exchange Commission. A transição de comando entrou em vigor no início de setembro de 2026.

Foto: Office of U.S. Treasury Secretary (Public domain) via Wikimedia Commons.

AM
Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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