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PL dos Games Vivos quer impedir que jogos comprados se tornem inutilizáveis no Brasil

Texto obriga a informar dependência de servidores, modo offline e limites da licença, legaliza servidores comunitários e prevê jogos brasileiros como patrimônio cultural digital; ainda tramita.

PL dos Games Vivos quer impedir que jogos comprados se tornem inutilizáveis no Brasil

O Projeto de Lei 3612/2026, inspirado no movimento internacional Stop Killing Games, quer criar novas regras para impedir que jogos comprados pelos consumidores simplesmente deixem de funcionar após o encerramento de servidores. A proposta altera o Marco Legal dos Games e normas de proteção ao consumidor, e uma de suas principais exigências é que as empresas informem claramente quando um jogo depende de servidores, se possui modo single-player totalmente offline, qual o período mínimo de suporte e quais as limitações da licença adquirida. As informações são do Olhar Digital.

Para games comercializados com funções online, o texto estabelece pelo menos dois anos de funcionamento dos serviços essenciais após o lançamento no Brasil; caso a empresa decida desligar os servidores depois desse período, deverá avisar os jogadores com ao menos 180 dias de antecedência, informando os motivos e a solução oferecida. No encerramento, a companhia deverá disponibilizar ao menos uma alternativa: lançar atualização que permita ao jogo continuar funcionando sem os servidores oficiais, realizar reembolso proporcional ou fornecer ferramentas para que a própria comunidade mantenha o jogo funcionando. O projeto pretende dar segurança jurídica aos servidores comunitários, com regras de funcionamento, transparência e limites de receita, permitindo que comunidades preservem jogos após o fim do suporte oficial; prevê que jogos brasileiros e títulos relevantes para o público nacional possam ser reconhecidos como parte do patrimônio cultural digital brasileiro; e cria mecanismos para armazenar cópias e materiais técnicos para preservação, pesquisa e uso não comercial, sem retirar das empresas os direitos sobre as propriedades intelectuais. Empresas que encerrarem serviços antes do período mínimo poderão receber multas — o maior valor entre 1% do faturamento bruto obtido pelo jogo no Brasil ou R$ 500 mil, calculado proporcionalmente ao período restante. O PL 3612/2026 ainda não é lei: precisa avançar pelas comissões, ser aprovado pela Câmara e pelo Senado e receber sanção presidencial, podendo sofrer alterações.

Quando o jogo que você comprou deixa de existir: The Crew, a petição europeia e a chegada do debate ao Brasil

O movimento Stop Killing Games nasceu em 2024, quando a Ubisoft desligou os servidores de The Crew, jogo de corrida de 2014 vendido a milhões de pessoas, e o título — que exigia conexão mesmo para o modo solo — tornou-se injogável, com a empresa removendo-o das bibliotecas dos compradores; a reação, liderada pelo youtuber Ross Scott, transformou-se numa iniciativa cidadã europeia que ultrapassou 1,4 milhão de assinaturas em 2025, obrigando a Comissão Europeia a examinar o tema, e em petições no Reino Unido, na Austrália e no Canadá, com um argumento simples que a indústria contesta: quem compra um jogo compra um produto, não uma licença revogável, e destruí-lo remotamente é prática abusiva; a indústria, pela associação europeia Video Games Europe, responde que jogos online têm custo permanente de servidor, que manter tudo para sempre inviabiliza modelos de negócio e que a alternativa — liberar servidores privados — expõe código e propriedade intelectual. O PL 3612/2026 traz o debate ao Brasil com solução intermediária, próxima da proposta europeia: não exige servidores eternos, mas dois anos mínimos, aviso de 180 dias e uma saída — patch offline, reembolso ou ferramenta comunitária —, além de transparência na venda, que o Código de Defesa do Consumidor já exigiria em tese e que ninguém aplica a games; a inovação brasileira é o reconhecimento de jogos como patrimônio cultural digital e o arquivamento para preservação, tema que museus e universidades — a USP tem acervo de games — defendem e que a legislação de direitos autorais dificulta. O contexto é o de um país com mais de 100 milhões de jogadores, o maior mercado da América Latina, em que consoles vendem quase só digital — o portal registrou nesta semana o "fim das mídias físicas" que o Canaltech apontou — e em que jogos como serviço, de Fortnite a Free Fire, dominam; a multa de 1% do faturamento ou R$ 500 mil, proporcional, é modesta para Sony, Microsoft ou Tencent, mas o precedente — o Brasil como primeiro país a legislar — é o que a indústria teme e o movimento celebra. O projeto tem caminho longo — comissões, dois plenários, sanção — e lobby forte contra; se avançar, o comprador de GTA 6 em novembro saberá, pela primeira vez, o que exatamente está comprando.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o PL dos Games Vivos coloca em lei o que qualquer consumidor entende. "Você paga R$ 300 num jogo, joga dois anos, e um dia a empresa desliga o servidor e o jogo some — do console, da biblioteca, da sua vida. Não é aluguel, porque ninguém disse que era; não é compra, porque sumiu. É a fraude educada da indústria digital, e o The Crew foi a gota que gerou 1,4 milhão de assinaturas na Europa. O PL brasileiro é razoável: dois anos, aviso, uma saída. A indústria vai dizer que é impossível; é a mesma indústria que diz que remaster de jogo de 2013 é novidade. O portal registra e apoia a parte que ninguém discute: jogo brasileiro como patrimônio cultural, com cópia guardada. Em Araras, metade dos jovens joga; que saibam o que compram", avalia.

O que o PL exige na venda

Informação clara sobre dependência de servidores, existência de modo offline completo, período mínimo de suporte e limitações da licença — dados que hoje ficam em termos de uso que ninguém lê; a transparência é o primeiro pilar do projeto e o mais fácil de aplicar, por já derivar do Código de Defesa do Consumidor.

Dois anos, 180 dias, uma alternativa

Serviços essenciais por ao menos dois anos após o lançamento no Brasil; aviso de 180 dias com motivos e solução; e, no desligamento, patch para funcionar offline, reembolso proporcional ou ferramentas para a comunidade — o núcleo que espelha a proposta europeia do Stop Killing Games.

Servidores comunitários: a segurança jurídica

Comunidades que mantêm jogos abandonados vivem em zona cinzenta legal; o PL define regras de funcionamento, transparência e limite de receita para legalizá-las, sem transferir a propriedade intelectual — resposta ao argumento da indústria de que liberar servidores expõe código.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a parte cultural do projeto é a mais ambiciosa. "Reconhecer jogo como patrimônio cultural digital e guardar cópia para pesquisa é o que a Cinemateca faz com filme e a Biblioteca Nacional com livro — e que ninguém faz com game, a maior indústria de entretenimento do mundo. Jogos brasileiros dos anos 1990 e 2000 já desapareceram; os de serviço vão desaparecer quando o servidor cair. O PL cria o arquivo. É lento, vai enfrentar Sony e Tencent, e pode virar outra coisa nas comissões. O portal registra a proposta e a compara com o que o Brasil fez em 2024 com o Marco Legal dos Games: aprovou, e a indústria sobreviveu. Preservar não mata game; desligar servidor mata", observa.

Stop Killing Games: a origem europeia

Iniciativa cidadã lançada em 2024 após o desligamento de The Crew pela Ubisoft, ultrapassou 1,4 milhão de assinaturas em 2025 e obrigou a Comissão Europeia a analisar o tema; a indústria contesta por custo e propriedade intelectual; o PL brasileiro é a primeira tradução legislativa nacional da proposta.

Multas: 1% ou R$ 500 mil, proporcionais

Empresas que desligarem serviços antes dos dois anos pagam o maior valor entre 1% do faturamento bruto do jogo no Brasil e R$ 500 mil, proporcional ao tempo restante — sanção modesta para gigantes, relevante para estúdios médios, e sobretudo simbólica como precedente regulatório.

Patrimônio cultural digital: jogos como acervo

Jogos brasileiros e títulos relevantes poderiam ser reconhecidos como patrimônio, com cópias e materiais técnicos arquivados para preservação, pesquisa e uso não comercial; universidades e museus defendem o modelo, adotado em parte por França e Japão; a lei de direitos autorais brasileira hoje o dificulta.

O caminho no Congresso

O PL 3612/2026 passa por comissões — Cultura, Defesa do Consumidor, Constituição e Justiça —, plenário da Câmara, Senado e sanção; o lobby da indústria, que atuou no Marco Legal dos Games de 2024, deve pedir mudanças; a chance de aprovação depende de mobilização de jogadores — a que o Stop Killing Games provou existir.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o projeto tem a virtude de ser modesto. "Não pede servidor eterno nem código aberto; pede dois anos, aviso e uma saída — o mínimo que um consumidor esperaria de qualquer produto. Que isso precise de lei mostra quanto a indústria digital normalizou o abuso. O portal registra o PL 3612 e recomenda a quem joga: leia, apoie, cobre do deputado. O GTA 6 chega em novembro, o servidor de algum jogo vai cair em dezembro, e a diferença entre ter e não ter esta lei é a diferença entre o jogo continuar e sumir", analisa.

O Projeto de Lei 3612/2026, apelidado de PL dos Games Vivos e inspirado no movimento Stop Killing Games, que propõe regras para impedir que jogos comprados se tornem inutilizáveis após o desligamento de servidores, foi detalhado pelo Olhar Digital em 5 de setembro de 2026; o texto ainda precisa tramitar nas comissões, na Câmara e no Senado antes de eventual sanção.

Foto: Earth Science and Remote Sensing Unit, Lyndon B. Johnson Space Center (Public domain) via Wikimedia Commons.

TM
Escrito por

Thiago Baptista Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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