O técnico do Osasco, Luizomar de Moura, criticou a decisão da Confederação Brasileira de Voleibol de aderir à política do Comitê Olímpico Internacional sobre elegibilidade na categoria feminina — medida que afeta a oposta Tifanny Abreu, primeira atleta transgênero na elite da modalidade no Brasil, no clube desde 2021. Em meio aos compromissos com a seleção de Cuba, Moura acompanhou a vitória do Osasco por 3 sets a 0 sobre o Paulistano Barueri na sexta-feira (4), no Ginásio José Liberatti, pelo Campeonato Paulista, e falou sobre o caso: "Foi uma surpresa para todos. Principalmente, por não poder dar o ombro, dar um abraço na Tifanny, principalmente pela pessoa que ela é. Conviver cinco anos com a Tifanny me tornou um ser humano melhor. Entender a história, tudo o que ela passa. Eu sou muito grato por fazer parte deste momento esportivo da Tifanny." As informações são do ge.
A decisão da CBV foi divulgada um dia antes da estreia do Osasco no estadual — o que o técnico também criticou. A federação paulista liberou Tifanny para o Campeonato Paulista; a dúvida é a Superliga, que começa em outubro, e o clube consulta órgãos nacionais e internacionais sobre a possibilidade de reverter a posição até lá.
"Não é justo com a equipe, não é justo com a Tifanny"
"Este momento é um momento complicado pela pessoa que é a Tifanny, e por receber esta notícia no meio da temporada. Pedi para que o Osasco, o departamento jurídico, realmente nos ajude a resolver essa situação porque não é justo com a equipe, não é justo com a Tifanny. Vamos ver se a gente consegue reverter tudo isso aí", completou Moura. O treinador, que assumiu a seleção cubana em julho de 2025 como primeiro estrangeiro no cargo, é substituído no clube por Leandro Pereira durante os compromissos internacionais.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a forma da decisão é tão grave quanto o conteúdo. "A CBV aderiu ao COI um dia antes da estreia do Osasco, no meio da temporada, com uma atleta que joga a Superliga há cinco anos sob as regras da própria CBV. Não houve transição, não houve prazo, não houve conversa com o clube. Tifanny tem contrato, tem hormônio dentro do limite que a Federação Internacional exigia, tem histórico. Mudar a regra e aplicar na hora é o que se faz quando não se quer discutir. Luizomar disse 'não é justo' — e é a palavra exata. Pode-se discutir a política; não se pode aplicá-la de surpresa a uma pessoa", avalia.
Tifanny: cinco anos na elite
Tifanny Abreu estreou na Superliga em 2017, pelo Bauru, após atuar na Europa, e tornou-se a primeira atleta trans na elite do vôlei brasileiro, com autorização da Federação Internacional de Voleibol baseada nos critérios de testosterona então vigentes. Desde 2021 está no Osasco, um dos clubes mais tradicionais do país, onde é titular na posição de oposta. A trajetória foi acompanhada de debate público intenso — apoio de parte do esporte e contestação de outra — e de decisões judiciais e regulatórias que, até agora, mantiveram sua elegibilidade.
A política do COI e a adesão da CBV
O Comitê Olímpico Internacional, sob a presidência de Kirsty Coventry, adotou política que restringe a categoria feminina a atletas do sexo biológico feminino, com testes de elegibilidade, substituindo o modelo anterior que delegava a cada federação internacional a definição de critérios. A CBV decidiu aderir integralmente, o que atinge Tifanny — a única atleta trans na elite do vôlei nacional. Federações de outros esportes no Brasil ainda não se posicionaram, e a decisão da CBV é a primeira aplicação prática da política olímpica em competição nacional.
Paulista liberado, Superliga em dúvida
A Federação Paulista de Volleyball, que organiza o estadual, liberou Tifanny para a competição — o que cria situação de regra dupla: elegível no Paulista, banida na Superliga, organizada pela CBV. O Osasco tem até outubro para obter revisão, seja por consulta à Federação Internacional, seja por via judicial. O clube já acionou o departamento jurídico, conforme pedido do técnico.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o caso vai parar na Justiça. "Tifanny tem contrato com o Osasco, foi elegível por regra da própria CBV durante cinco anos, e agora é banida por adesão a uma política do COI que não é lei brasileira. A Constituição proíbe discriminação e o Supremo já reconheceu direitos de pessoas trans. Um juiz vai ser chamado a decidir se uma confederação pode mudar a regra do jogo no meio do contrato. A CBV escolheu o caminho mais curto e mais litigioso. Se tivesse anunciado a transição para 2027, com prazo, teria evitado o processo. Preferiu o decreto", observa.
O debate: inclusão e equidade
A participação de atletas trans no esporte feminino opõe dois princípios legítimos — a inclusão de pessoas trans e a equidade competitiva para mulheres cis —, e a ciência sobre vantagem residual após terapia hormonal é contestada. Federações internacionais de natação, atletismo e ciclismo adotaram restrições desde 2022; o vôlei manteve critérios de testosterona até a política do COI. O caso Tifanny é o teste brasileiro desse debate global, e o Osasco — com técnico, elenco e diretoria ao lado da atleta — é o lado da inclusão.
Precedentes: natação, atletismo, ciclismo
A World Aquatics baniu em 2022 atletas trans que passaram pela puberdade masculina das provas femininas de elite e criou categoria aberta; a World Athletics seguiu em 2023, e a União Ciclística Internacional no mesmo ano. O vôlei, o futebol e o basquete mantiveram critérios de testosterona — que Tifanny cumpria — até a política do COI de 2025-2026 uniformizar a restrição. Nos esportes que restringiram, os casos foram poucos e as atletas afetadas, em geral, migraram para categorias abertas ou encerraram carreiras; nenhum tinha uma atleta com nove anos de elite e contrato vigente, como no vôlei brasileiro.
O Osasco como instituição
O Osasco Voleibol Clube, herdeiro do Finasa/Osasco que dominou o vôlei feminino brasileiro nos anos 2000, é um dos clubes mais tradicionais do país, com títulos de Superliga e Sul-Americano e revelação de jogadoras de seleção. A decisão de manter Tifanny desde 2021, renovar seu contrato e agora bancar o departamento jurídico em sua defesa é posicionamento institucional — o clube escolheu o lado da atleta e assume o custo político. Luizomar, que a treina há cinco anos, é a voz dessa escolha.
Luizomar e Cuba
Luizomar de Moura acumula o Osasco com a seleção de Cuba, que no fim de agosto voltou ao pódio do Campeonato Continental da Norceca após 15 anos, com o bronze — competição que garantiu ao Canadá a primeira vaga no vôlei feminino de Los Angeles 2028. Foi anunciado em julho de 2025 como primeiro estrangeiro a comandar o elenco cubano. A dupla função explica por que acompanhou o jogo de sexta da arquibancada, com Leandro Pereira no banco.
Osasco em quadra: três vitórias seguidas
Dentro de quadra, o Osasco conquistou a terceira vitória consecutiva no Paulista, com parciais de 25/23, 25/20 e 25/19 sobre o Paulistano Barueri, e só perdeu uma vez na competição. A equipe, uma das favoritas ao título estadual e candidata na Superliga, joga sob a incerteza sobre sua oposta titular — e o técnico pede que o jurídico resolva antes de outubro.
O que pode acontecer
Três cenários: a CBV revê a adesão ou cria regra de transição, o que manteria Tifanny na Superliga 2026-2027; o clube obtém liminar judicial garantindo a participação, como ocorreu em casos análogos em outros esportes; ou a atleta fica restrita ao Paulista e a competições não organizadas pela CBV. A decisão final deve sair nas próximas semanas.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o caso é maior que o vôlei. "Tifanny Abreu é a atleta trans mais conhecida do Brasil, joga há nove anos na elite e virou referência para quem discute inclusão no esporte. A CBV a bane por adesão automática ao COI, sem regra brasileira e sem prazo. Seja qual for a posição de cada um sobre o mérito, o método é ruim — e o técnico dela disse isso melhor que ninguém. O Osasco vai à Justiça, a Federação Internacional vai ser consultada e o STF pode acabar decidindo o que a CBV não quis discutir. Um dia antes da estreia. Esse detalhe vai pesar", analisa.
A CBV aderiu à política do COI sobre elegibilidade na categoria feminina em 3 de setembro de 2026. Tifanny Abreu está liberada para o Campeonato Paulista; a participação na Superliga, a partir de outubro, depende de revisão da decisão.
Foto: Airman 1st Class Tiffany DeNault (Public domain) via Wikimedia Commons.