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Medina tira nota 10 a cinco minutos do fim, mas Cole Houshmand responde e brasileiro fica

Tricampeão venceu Kauli Vaast e Griffin Colapinto com tubos perfeitos em Cloudbreak, subiu para 4º no ranking e perdeu a final por 16.87 a 15.17; Yago Dora e Ítalo caíram antes.

Medina tira nota 10 a cinco minutos do fim, mas Cole Houshmand responde e brasileiro fica

Gabriel Medina fez tudo o que se espera de um tricampeão mundial em uma final de circuito: precisando de 9.66 para virar a bateria, desceu uma onda perfeita a cinco minutos do fim e recebeu nota 10 dos juízes. Não foi suficiente. O norte-americano Cole Houshmand respondeu com um 8.37 na sequência e fechou a final da etapa de Fiji com somatório de 16.87 contra 15.17 do brasileiro. Medina ficou com o vice-campeonato da oitava etapa da World Surf League, disputada nas ondas de Cloudbreak, segundo a Agência Brasil.

O resultado, ainda assim, tem peso na temporada. O paulista de São Sebastião subiu da quinta para a quarta posição no ranking, em uma tabela liderada pelo compatriota Ítalo Ferreira, com o italiano Leonardo Fioravanti em segundo. Completam o top 5 o catarinense Yago Dora, atual campeão mundial, em quarto — trocando de posição com Medina —, e o paulista Miguel Pupo, em quinto. Houshmand, campeão em Fiji, saltou da 22ª para a 17ª colocação.

A final: o 10 que não bastou

A decisão contra Houshmand foi um duelo de nervos. Medina saiu atrás no placar e, com o tempo se esgotando, precisava de uma onda de 9.66 — nota que exige execução quase perfeita — para assumir a liderança. Ele conseguiu mais do que isso: a onda que desceu rendeu 10, a pontuação máxima do surfe, e virou a bateria a cinco minutos do fim.

O que decidiu o título foi a resposta do americano. Houshmand encontrou outra boa onda nos minutos finais, cravou 8.37 e recuperou a vantagem. No somatório das duas melhores notas de cada surfista, 16.87 a 15.17 — uma diferença de 1.70 que resume o quanto uma final de WSL pode virar em uma única onda de cada lado.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a final teve o roteiro cruel do surfe competitivo. "Medina fez a onda da etapa, a onda que todo mundo vai lembrar, e perdeu. Isso acontece no surfe porque a bateria não acaba quando você tira 10: o adversário ainda tem tempo e mar. Houshmand teve frieza para achar a onda certa depois de ser virado por uma nota máxima. Foi uma final de altíssimo nível, e o brasileiro saiu dela com o ranking melhor do que entrou", avalia.

Cloudbreak: tubos de esquerda e precisão técnica

Antes da decisão, Medina construiu um dia quase perfeito nas ondas tubulares de esquerda de Cloudbreak, um dos picos mais famosos das Ilhas Fiji. Nas oitavas de final, eliminou o francês Kauli Vaast — que havia despachado Miguel Pupo na fase anterior — com somatório de 15.66 (9.33 + 6.33) contra 7.55 (5.33 + 2.00) do europeu, uma diferença que mostra o domínio do brasileiro na leitura das ondas.

Nas semifinais, voltou a brilhar contra o norte-americano Griffin Colapinto. Medina cravou 9.77 — a segunda melhor nota do dia — ao pegar um tubo perfeito, e avançou com somatório de 19.04 (9.77 e 9.27), enquanto Colapinto totalizou 14.57 (7.50 e 7.07). Um somatório acima de 19 pontos em uma bateria de semifinal é raro e indica que Medina chegou à final no auge de sua leitura do mar.

A classificação para as quartas havia sido mais apertada: 13.77 contra 13.33 do havaiano Barron Mamiya, uma vantagem de apenas 44 centésimos.

O dia dos brasileiros: de cinco a um

A etapa de Fiji foi retomada na tarde de terça-feira (1º), após alguns dias de paralisação por conta das condições do mar, com as baterias das oitavas de final. Naquele momento, cinco brasileiros ainda estavam na disputa. Ao fim do dia, restava um.

Yago Dora, atual campeão mundial, passou com folga pelo japonês Kanoa Igarashi nas oitavas — 14.40 contra 6.83 —, mas caiu na primeira bateria das quartas, disputada na madrugada de quarta-feira, justamente para Cole Houshmand, o futuro campeão. Ítalo Ferreira, líder da temporada, foi eliminado nas oitavas, assim como os irmãos Samuel e Miguel Pupo. Filipe Toledo, Alejo Muniz, Matheus Herdy e João Chianca já haviam se despedido nas fases iniciais da etapa, que começou em 25 de agosto.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o saldo brasileiro é ambíguo. "Dez brasileiros na etapa, cinco nas oitavas, um na final. É força de elenco, mas também é um alerta: Ítalo e Yago, os dois melhores do ranking, caíram cedo. Medina segurou a bandeira sozinho. Com a temporada entrando na reta decisiva, o Brasil precisa que os três cheguem juntos nas finais, e não que se revezem", observa.

Como funciona a pontuação no surfe

Em uma bateria da WSL, cada surfista pode pegar quantas ondas quiser dentro do tempo regulamentar, mas apenas as duas melhores contam. Cada onda recebe nota de 0 a 10 de um painel de juízes, que avaliam comprometimento e grau de dificuldade, inovação e progressão das manobras, combinação de manobras, variedade e velocidade, potência e fluidez. A soma das duas melhores notas define o vencedor — daí os somatórios de 16.87 e 15.17 da final de Fiji.

A dinâmica explica a dramaticidade do desfecho. Quando Medina tirou 10, sua melhor onda passou a ser a máxima possível; o que o limitou foi a segunda onda contabilizada, que somada ao 10 produziu 15.17. Houshmand, com duas ondas mais equilibradas — a última delas de 8.37 —, chegou a 16.87. No surfe, uma onda perfeita não vence sozinha: é preciso duas boas.

Cloudbreak: o pico que testa os melhores

Cloudbreak, na ilha de Tavarua, é uma das ondas mais respeitadas do circuito. Quebra sobre recife de coral, forma tubos de esquerda longos e potentes e exige do surfista leitura precisa do momento de entrada — errar significa, com frequência, o recife. É um pico que favorece atletas com repertório de tubo, e não por acaso Medina, um dos melhores tubulistas de sua geração, construiu ali seu melhor dia da etapa, com notas 9.33, 9.77 e 9.27 antes da final.

A geração brasileira e os títulos

O domínio brasileiro no ranking de 2026 é a continuidade de um ciclo que começou em 2014, quando Medina conquistou o primeiro título mundial masculino do país. Desde então, o Brasil acumulou títulos com Adriano de Souza em 2015, Medina novamente em 2018 e 2021, Ítalo Ferreira em 2019, Filipe Toledo em 2022 e 2023, e Yago Dora, atual campeão. É a sequência que consagrou a expressão "Brazilian Storm" e que transformou o surfe em um dos esportes de maior sucesso internacional do país na última década.

Ranking: Brasil com três no top 5

Mesmo com as quedas precoces, a temporada segue dominada pelo país. Ítalo Ferreira lidera, Yago Dora é o quarto, Medina o quarto-agora-terceiro — a posição exata entre os dois brasileiros depende da pontuação acumulada divulgada pela WSL —, e Miguel Pupo fecha o top 5. Apenas o italiano Leonardo Fioravanti, em segundo, quebra a hegemonia brasileira no topo da tabela.

A subida de Houshmand, de 22º para 17º, mostra o valor de uma vitória de etapa para surfistas do meio da tabela: cinco posições em um único evento, com pontuação que pode definir a permanência no circuito na temporada seguinte.

No feminino, título por desistência

Na disputa feminina, o título ficou com a canadense Erin Brooks, em razão da desistência da adversária, a australiana Isabela Nichols, que se lesionou antes da final. O desfecho, sem bateria decisiva, contrasta com a intensidade da final masculina.

O que vem a seguir

Com a etapa de Fiji encerrada, o circuito segue para os eventos finais da temporada, e a disputa pelo título mundial entra em sua fase decisiva. Para Medina, o vice em Cloudbreak reforça a candidatura a um quarto título — o que o colocaria em um patamar histórico para o surfe brasileiro — e mostra que, aos 32 anos, o paulista continua surfando no nível que o fez tricampeão em 2014, 2018 e 2021.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a nota 10 vale mais do que o troféu. "Houshmand levou a etapa, mas quem tirou 10 numa final precisando de 9.66 foi o Medina. Isso é o tipo de onda que define a confiança de um atleta para o resto da temporada. Se ele chegar nas etapas finais surfando assim, o quarto título é possível. E o Brasil, com Ítalo na liderança e Yago no top 5, tem três candidatos reais. Poucos países no esporte têm esse luxo", analisa.

A próxima etapa do circuito mundial e a classificação atualizada estão disponíveis no site oficial da World Surf League.

Foto: Brocken Inaglory (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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