O parataekwondo brasileiro conquistou quatro medalhas nesta sexta-feira (4) no Grand Prix de Muju, na Coreia do Sul — um ouro, uma prata e dois bronzes — em um torneio que reuniu 120 atletas de 27 nacionalidades. A paraibana Silvana Fernandes foi campeã na categoria até 57 quilos ao derrotar na final a chinesa Yuji Lie por 2 a 0. O paranaense Gustavo Antonio Ruppel levou a prata nos 58 kg, e a gaúcha Maria Eduarda Stumpf e a mineira Ana Carolina Moura ficaram com o bronze. Os pódios distribuem até 60 pontos no ranking mundial, que define a classificação para a Paralimpíada de Los Angeles 2028. As informações são da Agência Brasil.
Todas as disputas ocorreram na classe K44 — atletas com comprometimento físico-motor que afeta os membros superiores —, a única do parataekwondo presente no programa oficial dos Jogos Paralímpicos. Isso torna os resultados de Muju diretamente relevantes para a ambição brasileira em 2028.
Silvana Fernandes: o ouro que confirma a liderança
Silvana Fernandes chegou à final dos 57 kg depois de eliminar, na semifinal, a compatriota Maria Eduarda Stumpf — que, pela regra do parataekwondo, ficou automaticamente com o bronze, já que a modalidade não disputa o terceiro lugar. Na decisão, a paraibana controlou a chinesa Yuji Lie e venceu por 2 a 0 em rounds, resultado que a coloca entre as principais candidatas da categoria para Los Angeles.
Silvana é a referência do parataekwondo nacional. Medalhista paralímpica em Tóquio 2020, quando a modalidade estreou nos Jogos, ela acumula pódios em Grand Prix e Mundiais e é a atleta brasileira mais bem posicionada no ranking da classe. O ouro em Muju — um dos eventos de maior pontuação do calendário — reforça sua posição na disputa por vaga direta em 2028.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o resultado tem peso de ciclo. "Grand Prix na Coreia, berço do taekwondo, contra 27 países, é o teste mais duro fora da Paralimpíada. Silvana foi lá e ganhou de uma chinesa na final, depois de eliminar a própria companheira de equipe na semi. Isso mostra profundidade: o Brasil tem duas atletas no pódio da mesma categoria. Para 2028, é o melhor sinal possível", avalia.
Ruppel prata, Moura bronze
Nos 58 kg masculino, Gustavo Antonio Ruppel chegou à final e foi superado pelo azerbaijano Sabir Zeynalov por 2 a 0, ficando com a prata. O Azerbaijão é uma das potências do taekwondo paralímpico, e chegar à decisão contra um de seus principais nomes indica que Ruppel está no grupo de elite da categoria. Nos 65 kg feminino, Ana Carolina Moura foi derrotada pela tailandesa Awipa Phiaphan, também por 2 a 0, e ficou com o bronze.
Quatro medalhas em três categorias diferentes, com atletas de quatro estados — Paraíba, Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais —, mostram que a modalidade tem base distribuída pelo país, e não depende de um único centro de treinamento.
O que é a classe K44
O parataekwondo é disputado por atletas com deficiência nos membros superiores — amputações, malformações ou limitações de movimento nos braços. A classe K44 reúne os competidores com comprometimento em um dos braços ou limitação parcial em ambos; a K43, com comprometimento mais severo, compete junto com a K44 nos Jogos Paralímpicos, formando a única classe do programa. As lutas seguem as regras do taekwondo olímpico com adaptações: os golpes são exclusivamente com as pernas, e chutes à cabeça não são permitidos, o que concentra a disputa em velocidade, precisão no tronco e estratégia de rounds.
A modalidade estreou no programa paralímpico em Tóquio 2020, foi mantida em Paris 2024 e está confirmada para Los Angeles 2028. É, portanto, um esporte jovem nos Jogos — e um em que o Brasil entrou cedo e com resultado.
A corrida para Los Angeles
A classificação para 2028 é definida pelo ranking mundial, alimentado por pontos de Grand Prix, Mundiais e campeonatos continentais. Os Grand Prix, como o de Muju, distribuem até 60 pontos ao campeão — pontuação alta, que pode decidir vagas. Os atletas mais bem ranqueados em cada categoria garantem classificação direta; os demais dependem de torneios qualificatórios continentais, mais incertos.
Para o Brasil, o objetivo é levar o máximo de atletas pela via do ranking, evitando o torneio de repescagem. Os quatro pódios de Muju — especialmente o ouro de Silvana e a prata de Ruppel — são passos concretos nessa direção.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o paradesporto brasileiro construiu um modelo que o esporte olímpico deveria estudar. "O Brasil é potência paralímpica — top 5 do mundo em medalhas — e o parataekwondo é parte dessa construção: modalidade nova, investimento desde o início, atleta descoberta cedo, resultado em três ciclos. Quatro medalhas num Grand Prix na Coreia não saem no jornal, mas são exatamente o tipo de resultado que, somado, coloca o país no topo do quadro em 2028", observa.
Muju: a capital mundial do taekwondo
O local do Grand Prix não é casual. Muju, cidade montanhosa no sudoeste da Coreia do Sul, abriga o Taekwondowon — o parque-sede mundial da modalidade, inaugurado em 2014, com arena, centro de treinamento, museu e alojamentos dedicados exclusivamente ao taekwondo. É ali que a World Taekwondo realiza seus eventos de maior prestígio e que seleções de todo o mundo fazem períodos de treinamento. Competir e vencer em Muju tem, para um atleta da modalidade, o peso simbólico de vencer em casa do adversário mais forte: a Coreia do Sul é o berço do esporte e potência histórica tanto no olímpico quanto no paralímpico.
Como se vence uma luta: o placar por rounds
Os placares de "2 a 0" nas finais e semifinais refletem o formato adotado pela World Taekwondo desde 2022, em que a luta é decidida por rounds, no sistema de melhor de três. Cada round tem vencedor próprio, definido pela pontuação de chutes válidos ao tronco — no parataekwondo, chutes à cabeça não são permitidos —, e quem vence dois rounds leva a luta. O formato torna as disputas mais imprevisíveis do que a soma de pontos antiga: um atleta pode perder o primeiro round por larga margem e virar nos dois seguintes. Silvana Fernandes venceu a final sem ceder round; Ruppel e Moura perderam pelo mesmo placar, o que indica domínio claro dos adversários nas duas decisões.
Brasil, potência paralímpica
Os resultados de Muju se somam a uma trajetória que colocou o Brasil entre as cinco maiores potências do esporte paralímpico mundial. Em Paris 2024, o país terminou em quinto lugar no quadro de medalhas, com 89 pódios, o melhor desempenho de sua história — atrás apenas de China, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Holanda. A base desse resultado está em modalidades como natação, atletismo e judô, mas a estratégia do Comitê Paralímpico Brasileiro inclui desenvolver esportes novos no programa, em que a concorrência ainda é menor e a chance de pódio, maior. O parataekwondo é um desses.
O Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, e o financiamento via Lei Agnelo/Piva — que destina parte da arrecadação das loterias ao esporte paralímpico — são os pilares dessa estrutura. É o que permite a atletas como Silvana, Ruppel, Stumpf e Moura viajar à Coreia para um Grand Prix e voltar com quatro medalhas.
Pouca visibilidade, muito resultado
O parataekwondo raramente aparece na cobertura esportiva fora dos Jogos Paralímpicos. Seus atletas treinam em centros como o de São Paulo e em academias espalhadas pelo país, com apoio do Comitê Paralímpico Brasileiro e da confederação da modalidade, e competem em um circuito internacional que passa por Ásia, Europa e Américas ao longo do ano. Cada Grand Prix é uma viagem longa, com custo alto e retorno de mídia baixo — o que torna as medalhas ainda mais meritórias.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a falta de atenção é uma perda para o público. "Silvana Fernandes é campeã paralímpica em construção, e a maioria dos brasileiros nunca ouviu o nome dela. Isso vai mudar em 2028, quando ela subir no pódio em Los Angeles — se subir. Mas o trabalho está sendo feito agora, em Muju, numa sexta-feira, com quatro medalhas que cabem num parágrafo de agência. O esporte paralímpico brasileiro merece ser acompanhado no meio do ciclo, não só na festa", analisa.
O próximo compromisso da seleção brasileira de parataekwondo no circuito internacional será divulgado pela confederação da modalidade. O ranking mundial atualizado com os pontos de Muju deve ser publicado pela World Taekwondo nas próximas semanas.
Foto: Voltmetro (CC0) via Wikimedia Commons.