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Houthis atacam cidades do sul da Arábia Saudita pelo segundo dia consecutivo

Abha, Khamis Mushait e Jazan foram alvo de mísseis e drones; na véspera, ataques deixaram 73 feridos e incendiaram instalações petrolíferas, e a coalizão liderada por Riad promete resposta.

Jaime Fernando Reis Martins - Mundo - Houthis atacam cidades do sul da Arábia Saudita pelo segundo dia consecutivo

Os houthis, grupo rebelde do Iêmen apoiado pelo Irã, atacaram nesta quarta-feira, 9 de setembro, as cidades do sul da Arábia Saudita de Abha, Khamis Mushait e Jazan, segundo uma coalizão liderada por Riad no Iêmen. Foi o segundo dia consecutivo de ataques na região, o que aumenta a tensão e a expectativa de que o conflito se amplie. As informações são da Folha de S.Paulo.

Em comunicado, o porta-voz da coalizão, Turki al-Malki, afirmou que os rebeldes continuaram atacando ativos nacionais e a infraestrutura do país com mísseis balísticos e drones. A Defesa Civil saudita suspendeu nesta quarta-feira os alertas em Khamis Mushait e Abha, um dia depois de ataques nessas cidades e em outras duas localidades próximas deixarem 73 feridos e incendiarem instalações petrolíferas. Al-Malki disse que a coalizão responderá "de forma responsável" para proteger a soberania, os ativos nacionais e os civis da Arábia Saudita. Na terça-feira, 8, os houthis atingiram uma base aérea em Khamis Mushait e instalações petrolíferas em cidades próximas, num dos maiores ataques registrados em território saudita desde o início da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em fevereiro. A emissora Al Masirah TV, controlada pelos rebeldes, informou que pelo menos 32 pessoas morreram nos últimos dois dias em razão de ataques sauditas contra Al Jawf, no Iêmen. Riad não confirmou ter realizado ofensivas na região.

Uma trégua de quatro anos que se desfez

Os confrontos entre Riad e os rebeldes se intensificaram nos últimos meses, ampliando o temor de retomada de um conflito de larga escala, depois que uma trégua mediada pela Organização das Nações Unidas, em 2022, interrompeu em grande parte anos de guerra. A Arábia Saudita lidera uma coalizão árabe que apoia um governo sediado no sul do Iêmen, expulso pelos houthis da capital, Sanaa, há doze anos. O conflito tornou-se um dos palcos da guerra regional mais ampla, com os houthis como aliados próximos de Teerã e Riad como aliada de Washington. A guerra que os Estados Unidos e Israel travam contra o Irã desde fevereiro reorganizou os alinhamentos e removeu os incentivos que sustentavam o cessar-fogo: para os rebeldes, atacar a Arábia Saudita passou a ser uma forma de pressionar indiretamente a coalizão ocidental; para Riad, a contenção deixou de ser suficiente.

O bloqueio naval declarado em julho

Em julho, os houthis declararam um bloqueio naval contra a Arábia Saudita no mar Vermelho, o que levou a coalizão liderada pelos sauditas a atacar o que descreveu como instalações militares do grupo no Iêmen. A medida ampliou o alcance do conflito para uma das rotas marítimas mais movimentadas do mundo, por onde passa parte relevante do comércio entre Ásia e Europa e um volume expressivo de petróleo.

A ofensiva terrestre em curso

Nos últimos dias, forças do governo iemenita apoiadas pela Arábia Saudita lançaram uma ofensiva em várias frentes contra áreas controladas pelos houthis, depois que o grupo tentou avançar sobre posições governamentais. O governo afirma que pretende retomar todo o território sob controle rebelde, objetivo que nenhuma das ofensivas anteriores conseguiu alcançar em mais de uma década de guerra.

As cidades atingidas

Abha e Khamis Mushait ficam na província de Asir, no sudoeste saudita, próximas à fronteira com o Iêmen, e abrigam infraestrutura civil e militar, incluindo uma base aérea. Jazan, na costa do mar Vermelho, sedia um dos maiores complexos industriais e petroquímicos do reino. A escolha dos alvos combina valor simbólico, densidade populacional e importância econômica.

O petróleo como alvo recorrente

O incêndio em instalações petrolíferas na terça-feira repete um padrão adotado pelos houthis desde 2019, quando ataques a plantas da Saudi Aramco chegaram a interromper temporariamente parte da produção do reino. Atingir a infraestrutura de energia produz efeito imediato sobre os preços internacionais e amplia o custo político do conflito para Riad.

Os números divergentes dos dois lados

A coalizão saudita informou 73 feridos nos ataques de terça-feira; a emissora dos rebeldes contabilizou ao menos 32 mortos em bombardeios contra Al Jawf, sem confirmação de Riad. A divergência de dados é característica de um conflito em que ambos os lados controlam os canais de informação sobre os próprios territórios, o que dificulta a verificação independente.

"Resposta responsável": o que significa

A expressão usada pelo porta-voz da coalizão sinaliza a intenção de retaliar sem provocar escalada irreversível — fórmula que Riad emprega desde o início do conflito para conciliar a pressão interna por reação com o interesse estratégico de não inviabilizar futuras negociações. Na prática, costuma significar ataques a alvos militares identificados, e não a centros urbanos.

Doze anos desde a queda de Sanaa

Os houthis tomaram a capital iemenita em 2014, provocando a intervenção da coalizão liderada pela Arábia Saudita no ano seguinte. Desde então, o país enfrenta uma das piores crises humanitárias do mundo, com colapso de serviços básicos, surtos de cólera e insegurança alimentar generalizada, situação que se agrava a cada retomada dos combates.

Como os houthis passaram de milícia local a ator regional

Surgido nos anos 1990 como um movimento de revivalismo religioso no norte do Iêmen, o grupo travou seis guerras contra o governo central antes de tomar Sanaa em 2014. A intervenção da coalizão liderada pela Arábia Saudita, em 2015, teve efeito contrário ao pretendido: em vez de restaurar rapidamente o governo deposto, consolidou os rebeldes como administradores de fato do território mais populoso do país e acelerou seu desenvolvimento militar. Hoje o grupo opera mísseis balísticos de alcance intermediário, drones de longa autonomia e capacidade de ataque naval, arsenal que nenhuma milícia local reuniria sozinha e cuja origem é atribuída pelos serviços ocidentais a transferências de tecnologia iraniana.

O Irã por trás do tabuleiro

Apoiados por Teerã com armamento e treinamento, os houthis funcionam como um dos braços regionais da estratégia iraniana de dissuasão. Com o Irã sob ataque direto de Estados Unidos e Israel desde fevereiro, o grupo ganhou relevância como instrumento de pressão sobre aliados de Washington no Golfo, o que ajuda a explicar a intensificação recente.

O impacto sobre o mercado de energia

Ataques bem-sucedidos contra instalações sauditas costumam pressionar imediatamente as cotações internacionais do petróleo, já elevadas desde o início da guerra contra o Irã e do fechamento intermitente do Estreito de Ormuz. Para países importadores, e para o Brasil, que exporta e importa derivados, a instabilidade se traduz em volatilidade de preços e em pressão sobre a inflação de combustíveis.

A crise humanitária que se agrava a cada retomada

Mais de uma década de guerra deixou o Iêmen com a maior parte da população dependente de alguma forma de assistência internacional. Hospitais operam sem insumos, o sistema de água potável colapsou em várias províncias e a desnutrição infantil atinge níveis que organizações humanitárias descrevem como catastróficos. Cada retomada dos combates interrompe corredores de ajuda, encarece o transporte de alimentos e desloca novas levas de civis. A ofensiva terrestre em curso, somada aos bombardeios em Al Jawf, ameaça reverter os poucos ganhos obtidos desde a trégua de 2022, quando a redução dos confrontos permitiu a reabertura parcial do aeroporto de Sanaa e do porto de Hodeidah, duas vias essenciais para a entrada de suprimentos.

O que observar nos próximos dias

Três indicadores definirão se a escalada continua: a extensão da retaliação anunciada pela coalizão, a manutenção ou não do bloqueio naval no mar Vermelho e o avanço da ofensiva terrestre iemenita. Se os três se somarem, o cessar-fogo de 2022 estará formalmente encerrado, com consequências humanitárias e econômicas que ultrapassam a península arábica.

Os ataques houthis contra Abha, Khamis Mushait e Jazan, no sul da Arábia Saudita, ocorreram em 9 de setembro de 2026 e foram noticiados pela Folha de S.Paulo. Na véspera, ataques na mesma região deixaram 73 feridos e incendiaram instalações petrolíferas, segundo a coalizão liderada por Riad.

Foto: Dreamyshade (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.

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Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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