A seleção brasileira terá sua primeira convocação após a Copa do Mundo na próxima quarta-feira (9), às 15h (horário de Brasília), na sede da CBF, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. O técnico italiano Carlo Ancelotti anunciará os 26 jogadores que enfrentarão Austrália e Índia em três amistosos fora do país na Data Fifa de 21 de setembro a 6 de outubro — os primeiros jogos do ciclo de preparação para o Mundial de 2030. A CBF também confirmou mais dois amistosos em novembro, contra Japão e Singapura, ambos no Estádio Nacional de Singapura. As informações são da Agência Brasil.
É a primeira lista de Ancelotti desde a eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas de final do Mundial deste ano — resultado que encerrou de forma precoce a campanha da seleção e abriu o período de reconstrução que agora começa. Além de acompanhar os jogos no país, o treinador passou a última semana na Europa, observando partidas de atletas brasileiros que defendem clubes franceses e ingleses.
A agenda: cinco jogos, três países, todos fora de casa
A chamada "Super Data Fifa" de setembro e outubro leva a seleção à Oceania e à Ásia. O Brasil enfrenta a Austrália duas vezes, na casa dos adversários: em 25 de setembro, sexta-feira, às 7h de Brasília, no estádio Queensland Country Bank, em Townsville; e quatro dias depois, no mesmo horário, no Suncorp Stadium, em Brisbane. A partida contra a Índia está marcada para 3 de outubro, sábado, às 11h, no estádio Salt Lake, em Calcutá — um dos maiores do continente asiático.
Em novembro, a seleção volta à Ásia. No dia 14, o adversário será o Japão; três dias depois, o Brasil encara os anfitriões, Singapura. Os dois jogos acontecem no Estádio Nacional de Singapura, inaugurado em 2014 e com capacidade para 55 mil pessoas. A partida contra os donos da casa será inédita. Já o confronto com o Japão reedita o duelo dos 16 avos de final da última Copa do Mundo, em Houston, nos Estados Unidos, vencido pelo Brasil por 2 a 1.
"Enfrentar Japão e Singapura nos permitirá observar o comportamento da equipe em contextos diferentes, algo fundamental neste início de ciclo", argumentou Ancelotti à CBF. "É mais uma oportunidade de nos reunirmos, de estarmos juntos, ter esse convívio, que é de fundamental importância para o nosso ciclo", complementou Rodrigo Caetano, coordenador-geral de seleções masculinas.
Por que Austrália, Índia e Singapura
A escolha dos adversários e das sedes tem lógica comercial e esportiva. Comercial porque a seleção brasileira é um dos maiores ativos de marketing do futebol mundial, e jogos em mercados como Austrália, Índia e Sudeste Asiático — onde o Brasil raramente joga — atraem público, patrocinadores e direitos de transmissão. A CBF costuma organizar amistosos fora do país em datas sem competição oficial justamente por isso.
Esportiva porque o início de ciclo é o momento de testar jogadores sem a pressão de resultado. Contra a Austrália, seleção física e organizada que costuma disputar Copas, o Brasil encontra um adversário de nível intermediário; contra Índia e Singapura, seleções de menor expressão, o treinador pode rodar o elenco e observar peças novas em campo. O Japão, por sua vez, é o teste mais consistente: uma das melhores seleções da Ásia e o rival que o Brasil precisou vencer de virada na Copa.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o calendário é coerente com o momento. "Depois de cair nas oitavas, a seleção não precisa de jogo grande agora — precisa de jogo. Ancelotti quer ver quem serve para 2030, e isso se faz com cinco partidas em dois meses contra adversários de níveis diferentes. Austrália para medir consistência, Índia e Singapura para experimentar, Japão para saber se o time evoluiu desde Houston. Não é turnê de exibição; é laboratório com bilheteria", avalia.
Madrugada e manhã: os horários para o torcedor brasileiro
Jogar do outro lado do mundo tem um custo para quem assiste do Brasil. As duas partidas contra a Austrália começam às 7h de Brasília — noite em Townsville e Brisbane —, e a contra a Índia, às 11h de sábado. Os amistosos de novembro em Singapura, cujos horários ainda não foram divulgados, tendem a seguir o mesmo padrão de manhã brasileira. Para a CBF, o horário é irrelevante do ponto de vista financeiro: a receita vem da bilheteria local e dos direitos de transmissão nos mercados asiáticos e oceânicos, onde o jogo cai em horário nobre.
Os estádios escolhidos são de porte variado. O Queensland Country Bank Stadium, em Townsville, é uma arena moderna de médio porte no norte da Austrália; o Suncorp Stadium, em Brisbane, é um dos principais do país e recebeu jogos da Copa do Mundo Feminina de 2023. O Salt Lake Stadium, em Calcutá, é historicamente um dos maiores da Ásia e tem tradição de público massivo em jogos de futebol — o Brasil deve encontrar ali uma das maiores plateias de sua temporada.
O que a lista de 9 de setembro pode revelar
A expectativa em torno da convocação é grande. Após uma Copa que terminou antes do esperado, a primeira lista do ciclo costuma indicar a direção que o treinador pretende seguir: renovação ampla ou manutenção da base, aposta em jogadores do futebol brasileiro ou concentração nos que atuam na Europa, permanência ou não de nomes que estiveram no Mundial.
A semana que Ancelotti passou na Europa, observando brasileiros em clubes da França e da Inglaterra, sugere que o treinador está avaliando pessoalmente opções que não estiveram na Copa ou que tiveram pouco espaço nela. A convocação será divulgada com transmissão ao vivo na CBF TV, no YouTube.
2030: uma Copa em três continentes
O ciclo que começa agora mira um Mundial sem precedentes. A Copa de 2030 terá sedes em Espanha, Portugal e Marrocos — os três países-sede principais — e partidas de abertura em Uruguai, Argentina e Paraguai, em homenagem ao centenário da primeira edição, realizada em Montevidéu em 1930. É a primeira Copa disputada em três continentes, com deslocamentos e fusos horários que tornam a logística das seleções um fator competitivo.
Para o Brasil, a edição tem peso simbólico adicional: o país foi o primeiro campeão sul-americano fora do continente e busca, desde 2002, o sexto título. Quatro anos de preparação começam nas partidas de setembro.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a primeira lista vale mais como sinal do que como time. "Ninguém que for convocado agora tem vaga garantida em 2030, e muitos que ficarem de fora vão jogar a Copa. O que a lista de quarta-feira mostra é o método de Ancelotti: se ele vai insistir na base que caiu para a Noruega ou se vai abrir o jogo. A Europa em que ele passou a semana diz que ele está olhando gente nova. Se a lista confirmar isso, o ciclo começa com a mensagem certa", observa.
Ancelotti e o desafio da reconstrução
Carlo Ancelotti assumiu a seleção brasileira em 2025 como o primeiro técnico estrangeiro a comandar o time em um Mundial em décadas — e com a missão de reorganizar um grupo que vinha de resultados irregulares. A eliminação para a Noruega nas oitavas não era o desfecho esperado, e o treinador chega à primeira convocação do novo ciclo com a credibilidade de sua carreira, mas também com a cobrança de um país que trata a seleção como patrimônio.
O que joga a seu favor é o tempo: quatro anos, sem eliminatórias diretas pressionando os primeiros meses, e uma sequência de amistosos desenhada para observar. O que joga contra é a memória curta do torcedor e a impaciência natural após uma Copa frustrante.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o cenário é favorável a quem souber usá-lo. "Ancelotti tem o que poucos técnicos de seleção têm: tempo e autonomia. A CBF montou cinco amistosos em mercados que pagam bem, sem rival direto que exija resultado. É o momento de errar barato. Se ele usar setembro e novembro para testar dez, quinze jogadores novos e definir um sistema, chega às eliminatórias com time. Se usar para repetir o que deu errado na Copa, perdeu o melhor ano do ciclo", analisa.
A CBF divulgará os horários e os canais de transmissão dos amistosos nas próximas semanas. A convocação de quarta-feira, às 15h, será transmitida ao vivo pela CBF TV.
Foto: Tadpolefarm (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.