Caio Henrique vive um novo capítulo na Europa, mas carrega as marcas de um dos momentos mais difíceis da carreira. Depois de ficar fora da Copa do Mundo por uma lesão sofrida na reta final antes da pré-convocação, o lateral-esquerdo de 29 anos trocou o Monaco pelo Ajax e tenta usar o recomeço na Holanda como caminho de volta à seleção brasileira. Em entrevista exclusiva ao ge, ele falou da frustração de perder o Mundial, revelou uma sondagem do Fluminense para repatriá-lo e deixou a porta aberta para retornar ao clube carioca no futuro. As informações são do ge.
"Aquele momento na reta final, antes da pré-convocação, foi muito difícil para mim. Porque, com certeza, eu tinha na minha cabeça que podia estar pelo menos brigando por uma das vagas. Só que logo depois eu me machuco e ali vi que realmente seria muito difícil, porque não tinha um tempo de recuperação grande para poder voltar a jogar", contou. "Mas, enfim, ainda tinha um pouquinho de esperança e acabou não acontecendo."
A lesão: 6 de março, contra o PSG
O problema aconteceu no dia 6 de março, durante a vitória do Monaco por 3 a 1 sobre o Paris Saint-Germain, pelo Campeonato Francês: lesão de grau dois na coxa direita — um estiramento muscular moderado, com rompimento parcial de fibras, que exige de quatro a oito semanas de recuperação e cuidado redobrado no retorno, sob risco de recaída. Caio fazia parte do ciclo de convocados de Carlo Ancelotti e estava cotado para a lista final. Sem tempo para recuperar ritmo e apresentar sequência antes da convocação, precisou administrar a expectativa de tentar voltar e o risco de agravar o problema.
Segundo o lateral, os médicos da seleção mantiveram contato com os do Monaco para acompanhar a situação, embora ele não tenha conversado diretamente com a comissão técnica. "Do staff ninguém chegou a falar comigo. Sei que os doutores, o doutor da Seleção junto com o doutor do Monaco, tiveram algumas reuniões, trocaram bastante conversa para entender a situação em que eu estava."
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a história de Caio Henrique é a do jogador que a Copa deixou para trás no detalhe. "Ele era titular do Monaco, tinha cinco temporadas e 200 jogos na França, estava no ciclo do Ancelotti. Um estiramento em março — três meses antes da lista — tirou tudo. Não é caso de falta de qualidade; é caso de calendário. E é o tipo de história que o torcedor não vê: enquanto o Brasil jogava a Copa, um lateral que poderia estar lá assistia da fisioterapia, torcendo pelos amigos. A entrevista é honesta porque ele não finge que superou fácil", avalia.
As semanas mais difíceis
"As duas primeiras semanas logo depois da lesão foram as semanas mais difíceis, porque você tenta assimilar tudo aquilo. Você começa a perceber que não vai ter tanto tempo para recuperar, que ali só se acontecesse algo especial para você voltar e recuperar rápido", disse. "Mas logo depois botei na minha cabeça que o mais importante era voltar, me recuperar. Ao mesmo tempo, também não podia acelerar as coisas, porque às vezes você pode correr muito risco e acabar se lesionando outra vez, e pior."
Mesmo fora, acompanhou a campanha brasileira e torceu por amigos de base. "Torci para caramba para a Seleção, porque tem alguns amigos que participaram da Copa, alguns jogadores que conheço desde novo, desde as categorias de base. Estive assistindo a todos os jogos do Brasil. Uma pena que a gente não conseguiu dessa vez. Mas, se Deus quiser, na próxima Copa, quem sabe a gente possa vencer."
Fluminense: a sondagem e a porta aberta
Caio revelou que o Fluminense, clube em que se firmou antes de voltar à Europa, tentou repatriá-lo. "Se não me engano, um ano, um ano e meio atrás, teve alguma sondagem também do Fluminense com os meus agentes. Mas, naquele momento, era inviável, até por questões financeiras, eu voltar. Mas fico extremamente feliz, extremamente honrado por saber do interesse do Fluminense. E quem sabe um dia voltar a vestir o manto tricolor. Sempre que dá, estou assistindo aos jogos e nunca deixo as portas fechadas, porque a gente sabe como o futebol é. E por que não um dia poder voltar a jogar pelo Fluminense?"
Diniz: o técnico que mudou a posição
Formado no Santos, Caio Henrique saiu jovem para o Atlético de Madrid, teve passagens por Paraná e Fluminense e voltou à Europa para se firmar no Monaco. No Tricolor, sob Fernando Diniz, deixou o meio-campo e virou lateral — a mudança que considera responsável por relançar a carreira. "Foi um cara que mudou a minha carreira. Porque, a partir do momento em que ele me muda de posição, a minha carreira volta a ser relançada. Eu volto a ter protagonismo. Foi um cara que me ajudou bastante no Fluminense. Pegou muito no meu pé também, mas me ajudou. Me ajudou a crescer como jogador, como pessoa. Aprendi bastante com ele e, até hoje, tenho um carinho especial por ele."
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o caso de Caio é o argumento definitivo a favor de treinadores que enxergam jogador fora da posição de origem. "Diniz pegou um meia sem espaço e fez dele um lateral de seleção — porque viu que o jogador tinha passe, chegada e leitura, e que a lateral-esquerda no futebol dele era posição de construção, não de marcação. Caio foi para o Monaco como lateral e jogou 200 partidas. Sem a mudança, talvez tivesse virado mais um meia rodando por empréstimo. O técnico que muda posição arrisca; o que acerta, muda carreira", observa.
Messi, Neymar e Mbappé do outro lado
No Monaco, Caio enfrentou o PSG dos três craques juntos. "Com certeza você fica um pouco mais nervoso. Pelo menos nas vezes em que a gente enfrentou os três, eles não estavam tão inspirados, então foram jogos parelhos. Outros times não tiveram a mesma sorte", lembrou. "Mas, ao mesmo tempo, quando começa o jogo, você meio que tira essa pressão, porque a pressão está toda do outro lado. A gente fala que a responsabilidade é deles, a obrigação é deles. Então, muitas vezes, você acaba fazendo o jogo até mais solto, mais tranquilo, por estar jogando contra todos esses craques."
Sobre Neymar, hoje de volta ao Santos, o lateral guarda camisas e admiração: "É um cara supertranquilo, sempre me tratou muito bem. Tenho algumas camisas dele na minha coleção. Hoje ele voltou para o Santos, para a casa dele. Sempre que posso, procuro assistir aos jogos do Santos. A gente deseja tudo de bom para o Neymar, que ele possa continuar por muitos anos jogando, porque é a nossa maior referência."
Ajax: o novo projeto
A mudança para Amsterdã foi decisão de família e de momento. "Desde o ano passado, já estava conversando com a minha família, com a minha esposa, e tinha a sensação de que era o momento de buscar algo novo. Eu também já estava em final de contrato, então queria explorar algumas opções. Acabei tendo essa oferta do Ajax, que é um time que também está em reconstrução." Caio foi, segundo ele, o primeiro reforço do novo projeto do técnico Jordi Cruyff: "Desde o começo, ele deixou muito claras para mim as ambições do clube, as ambições dele. Em nenhum momento tive dúvida. Acho que ele conseguiu me convencer de que aquilo também seria bom para mim."
O Ajax é um dos clubes mais tradicionais da Europa — quatro vezes campeão da Liga dos Campeões, berço do futebol total de Cruyff pai —, mas atravessa reconstrução após temporadas irregulares. O primeiro grande teste de Caio é neste sábado: o time de Amsterdã recebe o PSV, rival direto e atual força dominante do Campeonato Holandês, às 15h de Brasília.
A seleção como objetivo
Aos 29 anos, Caio entende que permanecer no futebol europeu e disputar competições continentais é o caminho para voltar ao radar de Ancelotti. "Agora é tentar trabalhar o máximo possível aqui no Ajax, voltar a jogar bem em alto nível, voltar a jogar competições europeias. Porque, com certeza, o staff vai estar observando esses jogos aqui na Europa. E por que não uma vaguinha nesse ciclo? Acho que seria bem legal para mim poder voltar a vestir a camisa da Seleção Brasileira. E para a minha família também seria bastante importante. Acho que esse é um sonho que eu tenho."
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a lateral esquerda segue em aberto na seleção — e Caio sabe disso. "O Brasil não tem lateral-esquerdo consolidado desde Marcelo. Cada ciclo testa três ou quatro nomes. Caio estava na disputa em março e saiu por lesão, não por escolha. Se jogar bem no Ajax — clube que a Europa inteira assiste — e disputar a Liga Europa ou a Champions, volta à lista em seis meses. A entrevista é, no fundo, uma candidatura: ele está dizendo ao Ancelotti que está inteiro e disponível", analisa.
Caio Henrique estreia em clássico pelo Ajax neste sábado, contra o PSV, pelo Campeonato Holandês. A próxima convocação da seleção brasileira, para os amistosos de outubro, será anunciada por Carlo Ancelotti nas próximas semanas.
Foto: W.carter (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.