Injeções, dor, remédios e ansiedade: o lateral-direito do Grêmio Diego Caito encarou essa rotina por uma semana. Depois da luxação sofrida no ombro esquerdo no Gre-Nal de ida das quartas de final da Copa do Brasil, o jogador venceu uma batalha improvável para estar em condições na quinta-feira — e não só esteve em campo nos 90 minutos da vitória por 3 a 1 na Arena, como contrariou os prognósticos médicos: em vez de seis a oito semanas fora, como projetado, estava pronto para o clássico decisivo. Em entrevista ao jornal Zero Hora nesta sexta, contou a semana de preparação. As informações são do ge.
Sem a tipoia pela primeira vez desde a lesão, Caito acordou bem após a classificação — um dos piores momentos dos últimos dias, já que, por dormir sobre o ombro, a dor era terrível pelas manhãs. Foi superado com apoio e orientação de médicos e fisioterapeutas do clube.
O rádio do médico
A realidade parecia improvável quando sentiu a dor após disputa com um jogador do Inter no jogo de ida. Mesmo com o choque e a preocupação, pediu para seguir em campo — e chegou a interceptar a comunicação da comissão técnica com o médico para não ser substituído. "Fiquei desesperado naquela situação. Falei, 'pô, tem 15, 20 minutos do primeiro tempo ainda, não tem como sair dessa partida, um clássico, meu primeiro Gre-Nal e eu vou sair'. O doutor acionou o banco de reserva, disse pelo rádio que precisava sair. Aí eu aperto o rádio dele, nem sei se o pessoal no banco chegou a ouvir, mas falei pra não me tirar. Que estava bem", contou.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a cena do rádio resume o jogador. "Lateral novo, primeiro Gre-Nal, ombro fora do lugar, e ele aperta o rádio do médico para dizer que fica. Isso é o que o Grêmio comprou — não o lateral, o brio. Depois, uma semana de agulha três vezes por dia para jogar 90 minutos com o ombro inflamado, num clássico que valia semifinal. O departamento médico disse seis a oito semanas; ele fez em sete dias. Não é receita — é exceção, e o clube sabe. Mas é a exceção que ganha Gre-Nal. Luís Castro tem um lateral que a torcida vai adotar", avalia.
Três turnos de tratamento
O tratamento em três períodos deu boa resposta. Antes do treino da manhã e após a atividade da tarde, o jogador estava sob cuidados dos fisioterapeutas; à noite, em casa, seguia com aparelhos fornecidos pelo departamento médico e medicações receitadas para combater a dor e a inflamação. "Era para eu ficar parado por um pouco mais de tempo. Porque o ombro é chato. Ainda mais eu que sou lateral, que estou toda hora trombando, dando carrinho, é uma lesão mais chata e ruim. O doutor falou que era para ficar fora durante um bom período, mas como eu queria jogar, era para fazer o tratamento e ver."
Sábado, segunda, terça, quarta
"Tratei o final de semana. Segunda eu fui para o campo, para fazer um trabalho sem contato. O ombro estava bem lesionado, inflamado ainda. Na terça também. E na quarta eu fui para ver se eu iria conseguir estar disponível ou não. Consegui ir bem", relatou. O teste de contato na véspera foi o que definiu a escalação — e Caito passou. Na quinta, jogou o clássico inteiro.
Luxação de ombro: o que é e por que preocupa
A luxação ocorre quando a cabeça do úmero sai da cavidade da escápula — em geral por queda sobre o braço ou trombada —, com lesão dos ligamentos e da cápsula articular. O risco após a primeira luxação é a recidiva: o ombro fica instável, e novos episódios são comuns em atletas de contato, o que muitas vezes leva a cirurgia. O prazo de seis a oito semanas projetado pelos médicos é o padrão para retorno seguro; jogar em sete dias, com injeções e proteção, é decisão de risco compartilhada entre jogador e clube.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o episódio exige uma ressalva. "Admirar a coragem do Caito não impede de dizer: jogar com ombro luxado uma semana depois é risco real de recidiva, e recidiva vira cirurgia e seis meses fora. O Grêmio ganhou o Gre-Nal; se o ombro sair de novo contra o Vitória, a conta chega. O clube fez o certo em testar na quarta e deixar o jogador decidir, e o médico fez o certo em avisar. Mas o futebol brasileiro romantiza demais o 'jogar no sacrifício'. Caito foi herói na quinta; o departamento médico precisa garantir que não seja paciente em outubro", observa.
"Vencemos e convencemos"
Sobre o jogo, o lateral foi direto: "Vencemos e convencemos nesse Gre-Nal. Fizemos uma boa partida, de imposição. Os três gols saíram em jogadas combinadas. Ficamos muito felizes por conseguir colocar em prática o que Luís Castro nos pede. Ele é um excelente ser humano e um baita treinador. Tenho certeza que as coisas vão caminhar ainda para melhor com ele." E projetou: "Queremos muito subir na tabela do Brasileirão, melhorar a nossa pontuação. Temos totais condições de chegar ali entre os oito primeiros. Temos que sonhar alto, nós temos time para isso. Precisávamos de um momento para encaixar algumas coisas."
A contratação e o perfil
Caito foi contratado pelo Grêmio para dar exatamente esse tipo de impacto — intensidade, entrega e presença nos clássicos —, num setor em que o clube alternou titulares sem convencer. O Gre-Nal de volta foi a apresentação: 90 minutos, ombro protegido, participação nas jogadas combinadas que geraram os três gols. Para a torcida, que cobra brio, é o lateral que faltava; para Luís Castro, é a peça que fecha o lado direito.
Jogar no sacrifício: a tradição gaúcha
O futebol do Rio Grande do Sul cultiva a figura do jogador que entra machucado em clássico — de Everaldo a Dinho, de Ronaldinho jogando a final do Gauchão de 1999 com dores a Renato Portaluppi como técnico exigindo "raça" em Gre-Nal. A torcida gremista valoriza o brio acima da técnica em jogos decisivos, e a história de Caito entra nesse repertório. Ao mesmo tempo, a medicina esportiva moderna, com protocolos de retorno e avaliação de risco, tenta equilibrar essa cultura com a preservação do atleta — o teste de contato na quarta é o ponto de encontro entre as duas.
Luís Castro e o lado direito
Luís Castro, técnico português contratado pelo Grêmio para a temporada, montou o time em 4-3-3 com laterais que apoiam em profundidade — sistema em que o lateral-direito precisa de fôlego para subir e voltar 90 minutos. Caito, com característica ofensiva e disposição para o carrinho, é o perfil que o treinador pediu e que o clube buscou no mercado. As "jogadas combinadas" que ele cita — triangulações entre lateral, meia e ponta — são a marca do trabalho de Castro, e o Gre-Nal foi o primeiro jogo em que funcionaram do início ao fim.
Semifinal e Brasileirão
Classificado às semifinais da Copa do Brasil — a meta atingida —, o Grêmio volta a atenção ao Brasileirão, em que ocupa a parte intermediária da tabela e mira o G-8, que dá vaga à Sul-Americana. A comissão técnica reavalia as alternativas para o próximo compromisso, contra o Vitória, e o desejo do clube é manter o brio dos clássicos. Caito, sem tanta dor, quer seguir disponível.
O clássico como divisor
O Gre-Nal de 3 a 1 foi a melhor atuação do Grêmio na temporada e o jogo em que o trabalho de Luís Castro, questionado nas semanas anteriores, encontrou forma. Vitória em clássico, com jogadas ensaiadas e um lateral jogando machucado, é o tipo de resultado que muda o humor de uma temporada — e que o clube quer transformar em sequência no campeonato.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a história de Caito vai ficar. "Todo Gre-Nal tem um personagem. O de 2026 na Copa do Brasil é um lateral que tirou o ombro do lugar, apertou o rádio do médico e jogou a volta inteira com injeção. O Grêmio vai lembrar disso por anos — é assim que se constrói ídolo no Sul. O que o clube precisa agora é o que ele mesmo disse: encaixar. Com o ombro no lugar e o time no lugar, o G-8 é possível. E a semifinal da Copa do Brasil é o prêmio de quem não saiu do jogo", analisa.
O Grêmio venceu o Internacional por 3 a 1 na Arena, na quinta-feira (3), e se classificou às semifinais da Copa do Brasil. Diego Caito jogou os 90 minutos uma semana após luxar o ombro esquerdo no jogo de ida.
Foto: Fasach Nua at English Wikipedia (Public domain) via Wikimedia Commons.