Mudaram as estações, mas nada mudou na Fórmula 1 — ao menos quando se trata da animosidade entre Lewis Hamilton e Max Verstappen. A rivalidade ganhou mais um capítulo no terceiro treino livre do GP da Itália, neste sábado (5 de setembro), quando os dois chegaram perto de bater no fim da sessão, cinco anos após uma forte colisão entre eles no mesmo trecho do Circuito de Monza. As informações são do ge.
O lance aconteceu já no fim do treino, com os dois em alta velocidade: o heptacampeão seguia à frente, e o holandês vinha por dentro na primeira curva; Hamilton não cedeu, o tetracampeão da Red Bull também não reduziu, e o veterano da Ferrari desviou pela área de escape para evitar contato maior. Logo após o encontrão, Verstappen gesticulou na direção do rival. O incidente foi favorecido pelo tráfego em Monza — em pista cheia, comum no circuito italiano, os carros cercam uns aos outros numa espécie de congestionamento. Os comissários minimizaram o episódio e decidiram não investigar, mas o ocorrido chamou atenção pelo histórico: os dois já se envolveram em acidentes e disputas controversas desde o início da rivalidade, especialmente no Mundial de 2021, quando bateram nos GPs da Grã-Bretanha e da Itália — este último justamente na primeira chicane de Monza. A reação foi imediata: Verstappen acusou Hamilton, repetindo a própria fala da batida de 2021, e Hamilton se defendeu após sair da pista. Em 2021, a colisão veio depois das paradas nos boxes, quando Hamilton deixou o pit lane e chegou lado a lado com Verstappen na primeira chicane; a Red Bull foi catapultada pela zebra sobre a Mercedes, os dois abandonaram e Daniel Ricciardo conduziu a McLaren à vitória à frente de Lando Norris, na primeira dobradinha do time desde 2010. A rivalidade já rendeu contatos marcantes: Bahrein, em 2018; Silverstone, Monza e Arábia Saudita, em 2021; São Paulo, em 2022; Hungria, em 2024; e a disputa no México, em 2025, quando quase bateram rodas pela terceira posição.
2021: a temporada que criou a rivalidade
O Mundial de 2021 foi o mais disputado da era híbrida: Hamilton, na Mercedes, buscava o oitavo título, e Verstappen, na Red Bull, o primeiro; os dois se tocaram em Silverstone — Verstappen bateu no muro a 51G e Hamilton venceu com punição de dez segundos —, em Monza — o acidente da chicane, com a Red Bull sobre o cockpit da Mercedes e o halo salvando Hamilton — e na Arábia Saudita, em corrida caótica de freadas e punições. A decisão em Abu Dhabi, com o safety car na última volta e a ultrapassagem de Verstappen sob regra controversa, deu ao holandês o título e à Fórmula 1 sua polêmica mais duradoura. Desde então, Verstappen venceu quatro Mundiais seguidos, Hamilton deixou a Mercedes pela Ferrari em 2025, e cada encontro dos dois em pista — mesmo num treino livre — é tratado como capítulo da mesma história.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o quase-toque de sábado é um lembrete do que a Fórmula 1 perdeu. "Cinco anos depois, mesma curva, mesmos dois, mesma reação: um gesticula, o outro se defende, os comissários deixam passar. A diferença é que em 2021 eles disputavam o título e agora disputam posição de meio de grid em treino livre — Hamilton numa Ferrari que ainda procura ritmo, Verstappen numa Red Bull que perdeu a hegemonia com o regulamento novo de 2026. A rivalidade sobreviveu ao contexto. É o que faz o esporte: dois campeões que não cedem centímetro nem quando não há nada em jogo. Quem assistiu a Monza 2021 sabe por que ninguém em Monza 2026 desviou o olhar", avalia.
A primeira chicane de Monza: a curva do acidente
A Variante del Rettifilo — a chicane logo após a reta dos boxes, a mais longa e rápida do calendário — obriga os carros a frear de mais de 340 km/h para menos de 100 km/h em poucos metros; é o ponto de ultrapassagem por excelência e o de mais acidentes, sobretudo na largada e em situações de tráfego. As zebras altas, instaladas para impedir cortes, foram o que lançou a Red Bull de Verstappen sobre a Mercedes em 2021.
Tráfego em treino livre: por que acontece
Em Monza, a busca por vácuo nas retas faz os pilotos reduzirem o ritmo antes de iniciar a volta rápida, criando filas de carros lentos que se misturam a carros em volta lançada; a direção de prova pune quem atrapalha deliberadamente, mas incidentes de aproximação são frequentes — foi o cenário de sábado, segundo o ge.
Abu Dhabi 2021: a decisão que nunca terminou
A última corrida de 2021 é o pano de fundo de cada encontro dos dois desde então: empatados em pontos, Hamilton liderava com folga quando um acidente de Nicholas Latifi trouxe o safety car a cinco voltas do fim; o diretor de prova, Michael Masi, permitiu que apenas os carros entre Hamilton e Verstappen se desdobrassem e relançou a corrida na última volta, com o holandês de pneus novos — que ultrapassou o inglês e conquistou o primeiro título. A Mercedes protestou, desistiu do recurso, Masi foi afastado e a FIA reescreveu o procedimento do safety car; Hamilton passou semanas em silêncio e cogitou deixar a categoria. É por isso que, cinco anos depois, um quase-toque em treino livre em Monza rende manchete: os dois nunca fecharam a conta de 2021.
Hamilton na Ferrari: a segunda temporada
Contratado em 2025 para a maior mudança de sua carreira, Hamilton teve um primeiro ano irregular na Ferrari — sem vitórias em corridas principais — e disputa 2026 sob o novo regulamento de motores, em que a Ferrari busca voltar a brigar por títulos; Monza é a corrida de casa da equipe, e o tifosi espera o inglês no pódio.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a ausência de investigação é a decisão certa. "Treino livre, tráfego, ninguém bateu, ninguém foi punido — os comissários entenderam que era lance de corrida entre dois pilotos que se conhecem. Investigar seria dar ao episódio importância que não tem e alimentar a narrativa de que a Fórmula 1 precisa de vilão. A rivalidade Hamilton-Verstappen já tem material suficiente: Silverstone, Monza, Abu Dhabi. O que o sábado mostra é que nenhum dos dois esqueceu, e que a categoria, com regulamento novo e grid embaralhado, ainda depende deles para produzir a cena que todo mundo comenta", observa.
Verstappen e a Red Bull em 2026
Tetracampeão entre 2021 e 2024, Verstappen viu a Red Bull perder terreno em 2025 para McLaren e Mercedes e enfrenta 2026 com motor próprio, desenvolvido com a Ford, sob o novo regulamento; o holandês segue o piloto mais agressivo do grid — e o mais punido —, e a relação com Hamilton é a mais tensa entre os campeões.
Regulamento de 2026: o que mudou
Novos motores híbridos com maior componente elétrico, combustível sustentável, carros menores e mais leves e aerodinâmica ativa nas retas — a maior mudança técnica desde 2014 — redistribuíram forças entre as equipes; Mercedes e Ferrari lideraram os primeiros meses, e Russell, da Mercedes, foi o mais rápido no terceiro treino de Monza.
Monza: o templo da velocidade
Inaugurado em 1922, o Autódromo Nacional de Monza é o circuito mais rápido do calendário, com médias acima de 260 km/h, e o mais tradicional — sede do GP da Itália em quase todas as temporadas desde 1950; a Ferrari trata a corrida como decisão, e a arquibancada vermelha é a mais barulhenta do ano.
Os contatos da rivalidade, um a um
Bahrein 2018: toque que tirou Verstappen; Silverstone 2021: acidente a 51G; Monza 2021: Red Bull sobre a Mercedes; Arábia Saudita 2021: freadas e punições; São Paulo 2022: toque na Interlagos que custou a corrida a Hamilton; Hungria 2024: colisão em disputa de posição; México 2025: quase-toque pelo terceiro lugar. Sábado, Monza 2026: quase-toque no treino livre.
O que esperar do domingo
Com Russell e Mercedes na frente nos treinos, Ferrari em casa e Red Bull em recuperação, o GP da Itália promete largada tensa na primeira chicane — exatamente onde Hamilton e Verstappen se encontraram no sábado. A direção de prova estará atenta.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o episódio prova que rivalidade não precisa de campeonato. "Hamilton tem 41 anos, Verstappen 28; um é heptacampeão, o outro tetra; nenhum lidera o Mundial de 2026. E ainda assim, numa curva de Monza, num treino livre de sábado, os dois preferiram a área de fuga a ceder. É o que separa campeão de piloto. A Fórmula 1 de 2026 tem regulamento novo, motor novo, equipes embaralhadas — e continua precisando desses dois para que alguém fale dela no sábado. Que o domingo tenha a largada que a primeira chicane promete", analisa.
O quase-contato entre Lewis Hamilton e Max Verstappen no terceiro treino livre do GP da Itália, em Monza, ocorreu em 5 de setembro de 2026 e foi noticiado pelo ge; os comissários decidiram não investigar o incidente.
Foto: pedrik (CC BY 2.0) via Wikimedia Commons.