O Flamengo estendeu o vínculo de Erick Pulgar até 2029 para evitar sua saída ao exterior, encerrando um impasse que se arrastava desde julho. A multa rescisória do volante havia caído nesta janela para US$ 4 milhões — cerca de R$ 20 milhões —, o que atraiu clubes dos Estados Unidos e do Oriente Médio; dois dos Emirados Árabes, o Shabab Al-Ahli, do técnico brasileiro André Jardine, e o Al-Jazira, estiveram perto de levá-lo. Para competir, o diretor de futebol José Boto ofereceu um ano extra de contrato em vez do salário pedido: Pulgar ganha menos por mês, mas por mais tempo, até os 35 anos, e a multa sobe para US$ 10 milhões. O chileno recusou propostas financeiras superiores para priorizar a proximidade com a família e consolidar sua trajetória no clube. As informações são do ge.
Filipe Luís, hoje no Mônaco, também ligou para o volante, mas o clube francês, que aposta em jovens, não levou o interesse adiante. O Al-Jazira, após a renovação, usou o dinheiro reservado a Pulgar para contratar Anderson Talisca. Com 173 jogos e 9 títulos, o chileno é hoje líder de engajamento no marketing rubro-negro.
Por que o Flamengo não pagava o pedido
Além de operar em moeda muito mais valorizada que o real, os clubes árabes não têm grandes preocupações com impostos e oferecem salários que nem o clube mais rico do Brasil alcança. O Flamengo não chegou perto dos valores na mesa do chileno — daí a solução do 2029: tempo em vez de dinheiro. A contrapartida foi a multa de US$ 10 milhões, cerca de R$ 50 milhões, que protege o clube de nova investida barata. Pulgar abriu mão do maior contrato disparado da carreira; segundo o ge, pesaram a família, no Chile — mais perto do Rio do que de Dubai —, e a projeção que vem ganhando no clube.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a renovação é uma aula de negociação sem dinheiro. "O Flamengo não tinha como pagar o que os Emirados pagavam. Boto fez o que se faz quando não se tem caixa: ofereceu segurança. Um ano a mais, salário até os 35, multa alta — para um jogador de 31 anos que já foi 'bagre', isso vale mais que um cheque de dois anos no deserto. Pulgar escolheu ser história no Flamengo em vez de ser rico no Al-Jazira. Não é romantismo; é cálculo de carreira. E o Flamengo ganhou o volante que corre 12 km por jogo por menos do que qualquer reserva do meio", avalia.
O risco assumido contra o Cruzeiro
Na atual renovação, o salário voltou a ser impasse: o chileno seguia ganhando menos que reservas do meio-campo. Sem resposta do Flamengo à contraproposta e com as ofertas árabes na mesa, havia temor de que Pulgar não jogasse as duas partidas contra o Cruzeiro nas oitavas da Libertadores — jogos fisicamente pesados em que uma lesão colocaria tudo a perder, renovação e propostas. Ele aceitou esperar o clube e jogou. É o gesto que, segundo os bastidores, selou a confiança da diretoria.
De "bagre" ao Mundial: o início difícil
Pulgar está no Flamengo desde 2022 e teve começo marcado por poucas oportunidades e uma falha decisiva: perdeu a bola que originou o terceiro gol do Al-Hilal na derrota por 3 a 2 na semifinal do Mundial de Clubes de 2022, disputado no início de 2023. Sentiu as críticas e teve a dimensão do clube em que estava; o estafe precisou ajudá-lo a não se abater. Uma das pessoas a quem tem maior gratidão é o empresário Fabio Pinto, seu representante no Brasil, que o orientou a mudar a alimentação e a investir em treinos físicos complementares. Boto resumiu o percurso ao pedir paciência a reforços: "Pulgar chegou como bagre".
Sampaoli: o técnico que quase o mandou embora
A virada coincide com a chegada de Jorge Sampaoli, que ficou com a fama de ter bancado o volante — mas, inicialmente, o argentino não o tinha nos planos, colocou-o para treinar de zagueiro e pediu a contratação de Allan, do Atlético-MG. Insatisfeito, Pulgar esteve perto de sair e foi mantido pelo então vice-presidente de futebol. Em maio de 2023, Sampaoli quis três volantes contra o Racing, na Argentina, havia perdido Gerson por lesão e só restavam o chileno ou o garoto Igor Jesus para a trinca com Vidal e Thiago Maia. Pulgar jogou bem, deu a assistência no 1 a 1 e não saiu mais.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a história de Pulgar é a do futebol brasileiro que dá certo por acaso. "Ele ficou porque Gerson se machucou e Sampaoli não tinha outro. Ganhou o técnico na raça — voltou de lesão um dia antes da semifinal da Copa do Brasil e jogou com um treino. Depois convenceu Tite, Filipe Luís e Jardim. Quatro técnicos diferentes, quatro sistemas, e o chileno titular em todos. Isso não é sorte; é o jogador mais confiável do elenco. O Flamengo demorou três anos para pagar como titular quem era titular há três anos. A renovação corrige o atraso — com 2029 no lugar de dinheiro", observa.
A lesão e a semifinal com um treino
Em julho de 2023, Pulgar sofreu lesão no bíceps femoral da coxa direita no aquecimento contra o Athletico-PR, no sintético da Arena da Baixada, e ficou mais de um mês fora. Voltou um dia antes da semifinal da Copa do Brasil contra o Grêmio, no Maracanã, e, com um único treino, foi titular na vitória por 1 a 0. Sampaoli, ao deixar o Flamengo, tentou levá-lo ao Rennes, na França. A moral construída ali se manteve com todos os técnicos seguintes.
12 km por jogo: o padrão físico
Com média de 12 quilômetros percorridos por partida, Pulgar é o motor do meio-campo rubro-negro — o volante que cobre espaço, recupera bola e inicia a saída. É perfil raro no futebol brasileiro, que produz mais meias criativos do que volantes de volume, e explica por que técnicos de estilos tão diferentes o mantiveram. Aos 31 anos, o contrato até os 35 aposta que o condicionamento, cuidado desde a mudança de alimentação em 2023, sustente o padrão.
Filipe Luís e a primeira renovação
Filipe Luís, então técnico, foi essencial para convencer Pulgar a renovar no ano passado, no primeiro movimento de valorização. A multa baixa foi exigência do estafe porque o Flamengo não alcançou a pedida salarial que o equiparasse a outros nomes do setor — o que abriu a brecha desta janela. A nova renovação fecha a brecha: multa de US$ 10 milhões e vínculo longo.
Marketing: o líder de engajamento
Pulgar é hoje o jogador com maior engajamento nas ações de marketing do Flamengo — camisas, conteúdo, redes. Para um atleta que chegou desconhecido e foi vaiado, é medida de quanto a torcida o adotou. Para o clube, é argumento comercial que entra na conta da renovação: um ídolo em construção vale mais que um reforço caro sem vínculo com a arquibancada.
Boto e o modelo de gestão
José Boto, diretor de futebol português contratado pelo Flamengo em 2025, trouxe do Benfica e do Shakhtar o método de renovar cedo, com vínculos longos e multas altas, para não negociar sob pressão de janela. O caso Pulgar é o primeiro teste público do modelo num impasse real: sem caixa para cobrir o Golfo, usou prazo e multa como moeda. A renovação de Pulgar, somada às de outros titulares no primeiro semestre, consolida um elenco com contratos que protegem o clube até 2028-2029 — o oposto da rotina brasileira de perder jogador em fim de contrato.
O mercado árabe e o Brasil
Os clubes dos Emirados e da Arábia Saudita têm sido o principal destino de titulares do futebol brasileiro desde 2023, com salários que nenhum clube do país iguala. O caso Pulgar mostra a única defesa possível: contrato longo, multa alta e vínculo emocional. Talisca, que o Al-Jazira contratou com o dinheiro de Pulgar, é o contraexemplo — o jogador que foi. O Flamengo segurou o seu.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a renovação diz algo sobre o momento do futebol brasileiro. "Há três anos, ninguém recusava o Golfo. Pulgar recusou — e não é o primeiro em 2026. O Brasileirão com Libertadores, Mundial de Clubes e salário decente virou opção real para jogador de 31 anos que quer competir. O Flamengo não pagou o que os árabes pagam, mas ofereceu o que eles não têm: título, torcida, história. É o argumento que só clube grande pode usar. Se o Flamengo ganhar a Libertadores com Pulgar de volante, a renovação até 2029 vai parecer a mais barata da década", analisa.
Erick Pulgar assinou renovação com o Flamengo até dezembro de 2029, com multa rescisória de US$ 10 milhões. O volante está no clube desde 2022, com 173 jogos e 9 títulos.
Foto: Mario Carbajal (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.