Em meio à maior crise da temporada — quatro derrotas seguidas, eliminação na Copa do Brasil para o Vasco e reaproximação da zona de rebaixamento —, o Vitória lida também com a dura realidade financeira: sofreu transfer ban por uma dívida de 70 mil euros, cerca de R$ 417 mil, na compra do atacante Fabri ao Levante, da Espanha, em 2025. Na sexta-feira, o presidente Fábio Mota convocou coletiva para explicar a eliminação, garantiu que elenco e o técnico Jair Ventura seguem prestigiados e abriu os números: a dívida total é de R$ 335.635.180, a maior parte tributária e trabalhista. "Esse é o balanço de junho de 2026, que só o Vitória divulgou, único clube do Nordeste que divulgou o balanço até junho. A dívida do Vitória não é dívida que eu fiz não, pelo contrário, eu reduzi", disse. As informações são do ge.
"O Vitória deve hoje R$ 335 milhões. Quando eu assumi eram mais de R$ 600 milhões. Por causa de quatro derrotas falam que a dívida é de meio bilhão de reais, mas o torcedor sabe quem está sentado aqui. Vamos dar um voto de confiança", pediu o dirigente.
A composição da dívida
Segundo o balanço apresentado por Mota, a dívida se divide em: tributária, R$ 141,1 milhões; trabalhista, R$ 81,6 milhões; Vitória S.A., R$ 39,6 milhões; cível, R$ 20,6 milhões; financeira, R$ 20,6 milhões; CNRD — a Câmara Nacional de Resolução de Disputas da CBF —, R$ 16,2 milhões; fornecedores, R$ 15,9 milhões. Tributos e trabalhistas somam dois terços do total: é o passivo histórico de clubes que, por décadas, não recolheram INSS, FGTS e impostos e hoje pagam em parcelamentos como o Profut. O restante — fornecedores, CNRD, cível — é o que aperta o caixa no curto prazo.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o transfer ban é o sintoma, não a doença. "Setenta mil euros — R$ 417 mil — travam as contratações de um clube com orçamento de R$ 291 milhões. Não é falta de dinheiro; é falta de gestão de prioridade. O Vitória deixou de pagar o Levante para pagar outra coisa, e a Fifa não negocia. Mota tem razão quando diz que reduziu a dívida de R$ 600 milhões para R$ 335 — é mérito real. Mas 'ou paga quem está aqui, ou quem está fora' é confissão de que o caixa não cobre os dois. Clube que escolhe quem pagar está em crise, por definição", avalia.
Salários em dia, empresários não
Mota garantiu que os salários do elenco estão em dia, mas admitiu débito com empresários e jogadores que não estão mais no clube. A justificativa envolve o Grêmio, que ainda não pagou integralmente pela compra do zagueiro Wagner Leonardo, em 2025. "A dívida no CNRD é de R$ 16 milhões, mas não tem nenhum processo de minha gestão aqui. É tudo parcelado que a gente paga por mês. O que é da minha gestão é a dívida de fornecedores, que são empresários e jogadores que estão fora daqui e a gente deixou de pagar porque eu nunca recebi do Grêmio. Nunca escondi de ninguém isso aqui", disse — e completou com a frase que resume a escolha: "Ou você paga quem está aqui, ou quem está fora."
Transfer ban: como funciona
O transfer ban é a sanção da Fifa que impede o clube de registrar novos jogadores até quitar dívida reconhecida em decisão do órgão — em geral, valores de transferência internacional não pagos. É automático, sem negociação, e só é levantado com o pagamento integral ou acordo homologado. Para o Vitória, significa não poder inscrever reforços na próxima janela enquanto a dívida com o Levante não for quitada — o que, dado o valor, deve ocorrer em breve, mas expõe a fragilidade do fluxo de caixa.
Déficit de R$ 25 milhões em 2025
O Vitória teve déficit de R$ 25 milhões no orçamento de 2025, quando esperava terminar com lucro de R$ 26 milhões — diferença de R$ 51 milhões entre a projeção e a realidade, resultado de receitas que não vieram, como a venda de jogadores, e de gastos acima do previsto com elenco. Para 2026, o orçamento aprovado tem valor bruto de R$ 291,2 milhões, o maior da história do clube; o líquido, R$ 252,4 milhões, é levemente inferior aos R$ 252,9 milhões de 2025. A projeção é de lucro líquido de R$ 17 milhões — meta que a crise esportiva pode comprometer.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o balanço é a parte mais honesta da coletiva. "Mota abriu os números — item por item, R$ 141 milhões de tributos, R$ 81 milhões trabalhistas. Poucos presidentes fazem isso em crise. O que os números mostram é um clube que herdou passivo de décadas, reduziu, mas opera sem folga: qualquer receita que atrasa — o Grêmio pagando Wagner Leonardo — vira fornecedor sem pagar e transfer ban. O déficit de R$ 25 milhões contra lucro previsto de R$ 26 é o problema real: o Vitória orça otimista e entrega pessimista. Enquanto isso não mudar, cada temporada ruim vira crise financeira", observa.
O Grêmio e Wagner Leonardo
O zagueiro Wagner Leonardo foi vendido ao Grêmio em 2025 por valor parcelado, e o clube gaúcho, segundo Mota, ainda não pagou a totalidade — o que, na versão do presidente, causou a inadimplência com fornecedores. É prática comum no futebol brasileiro: vendas parceladas em que o comprador atrasa e o vendedor, dependente da receita, repassa o atraso à própria cadeia de pagamentos. O Grêmio não comentou.
Jair Ventura e o elenco
Com quatro derrotas seguidas e a eliminação na Copa do Brasil, a pressão sobre o técnico Jair Ventura cresceu — e Mota, na coletiva, garantiu que ele e o elenco seguem prestigiados. É o discurso de quem não tem caixa para trocar de treinador: multa rescisória, novo salário e reforços custam, e o transfer ban impede os últimos. O Vitória precisa reagir com o que tem, e o presidente sabe.
Rebaixamento: o custo que não cabe
A reaproximação da zona de rebaixamento é o risco que transforma crise em colapso: a queda para a Série B reduz receitas de TV e patrocínio pela metade, e um clube com R$ 335 milhões de dívida e orçamento de R$ 291 milhões não sobrevive a isso sem reestruturação. A Série A é a única garantia de que o parcelamento tributário e trabalhista continua sendo pago — o que explica por que a diretoria trata o momento esportivo como questão financeira.
Profut e o parcelamento tributário
A Lei do Profut, de 2015, permitiu aos clubes parcelar dívidas tributárias e com o FGTS em até 240 meses, com desconto de multas e juros, em troca de contrapartidas de governança — publicação de balanços, limite de gastos com folha, responsabilização de dirigentes. Boa parte dos R$ 141 milhões tributários do Vitória está nesse regime, o que explica a frase de Mota: "é tudo parcelado que a gente paga por mês". O parcelamento é o que mantém o clube operando, e a inadimplência com o Profut resulta em exclusão do programa e cobrança integral — o cenário que nenhum clube pode enfrentar.
Vitória S.A.: os R$ 39 milhões
A rubrica "Vitória S.A." — R$ 39,6 milhões — refere-se à estrutura societária criada para o futebol do clube, com passivos próprios, e reflete o modelo híbrido adotado por várias agremiações antes da Lei da SAF: uma sociedade que administra o departamento de futebol sob controle da associação. A dívida ali é, em geral, de contratos de jogadores e comissões, e o valor mostra que a segregação não isolou o clube dos débitos do futebol.
Transparência: "único do Nordeste"
Mota destacou que o Vitória foi o único clube nordestino a publicar o balanço até junho de 2026 — prática exigida pela Lei do Profut e pouco cumprida. A publicação é mérito de governança e, ao mesmo tempo, arma na crise: os números abertos permitem à torcida e à imprensa cobrar com base em dados, não em boatos. A frase "falam que a dívida é de meio bilhão" é a defesa contra o boato usando o balanço.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a coletiva expõe o modelo do futebol brasileiro. "Um clube de Série A com dívida maior que o orçamento, transfer ban por R$ 417 mil, quatro derrotas e presidente pedindo voto de confiança. Não é só o Vitória — é a maioria. A diferença é que Mota mostrou os números, o que permite ver o buraco: R$ 141 milhões de imposto que gestões passadas não pagaram e que esta paga parcelado enquanto tenta montar time. Enquanto o clube não vender bem, não receber do Grêmio e não ficar na Série A, a conta não fecha. O Vitória é o retrato do futebol que sobrevive de parcelamento", analisa.
O presidente do Vitória, Fábio Mota, apresentou o balanço financeiro do clube em coletiva na sexta-feira, 4 de setembro de 2026. A dívida total declarada é de R$ 335.635.180, referente a junho de 2026.
Foto: NotJamestack (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.