A Confederação Brasileira de Futebol vendeu os direitos de transmissão da Copa do Brasil para Globo, Amazon e ESPN. O contrato é válido por quatro anos, de 2027 a 2030, e a entidade confirmou a informação às empresas envolvidas no negócio nesta quinta-feira, 10 de setembro. As informações são da coluna Outro Canal, da Folha de S.Paulo.
Em valores, a CBF atingiu um recorde de arrecadação para o torneio de mata-mata nacional. Somando todas as vendas, o contrato representa pouco mais de R$ 1 bilhão por ano, o que resulta em mais de R$ 4 bilhões no ciclo completo. A comparação que dimensiona o salto é com a principal competição do continente: a Libertadores vendeu seus pacotes por R$ 900 milhões por ano. Ou seja, a Copa do Brasil passou a valer, em receita anual de transmissão, mais do que o torneio que reúne os melhores clubes da América do Sul. É a primeira vez que a competição nacional de mata-mata supera esse patamar, e o resultado consolida uma trajetória de valorização que vinha sendo construída desde a reformulação do formato e a ampliação da premiação distribuída aos clubes participantes.
Por que um torneio de mata-mata vale tanto
A Copa do Brasil tem uma característica que a distingue do Campeonato Brasileiro e que explica boa parte do interesse das emissoras. Como é disputada em confrontos eliminatórios, cada partida carrega risco de eliminação e, portanto, densidade dramática que os pontos corridos só alcançam nas rodadas finais. A audiência de um jogo isolado tende a ser superior à média de uma rodada de campeonato, e o formato concentra a atenção em poucas datas, o que é comercialmente mais eficiente para quem vende publicidade. Some-se a isso o fato de o torneio reunir clubes de todos os estados nas fases iniciais, garantindo apelo regional, e de terminar com grandes públicos nas fases decisivas. A soma dessas variáveis produz um produto de calendário curto e alta intensidade, cuja valorização acompanhou a profissionalização da gestão de direitos no futebol brasileiro na última década.
Três compradores e um modelo fragmentado
A divisão entre Globo, Amazon e ESPN confirma o modelo que se consolidou no mercado brasileiro de transmissões esportivas. Em vez de vender a exclusividade a um único grupo, a entidade fatia os direitos em pacotes distintos, por janela de exibição ou por plataforma, e negocia cada um separadamente. O resultado é uma receita maior para o detentor dos direitos e uma experiência mais fragmentada para o torcedor.
A televisão aberta como base do negócio
A presença da Globo no arranjo preserva a exibição em canal aberto, condição historicamente determinante para o valor de um torneio de futebol no Brasil. É a televisão aberta que garante alcance nacional, sustenta a construção de narrativa em torno da competição e mantém o torneio relevante para o público que não assina serviços pagos.
O avanço das plataformas de streaming
A entrada da Amazon no negócio confirma a estratégia das plataformas globais de usar o esporte ao vivo como âncora de assinaturas. O futebol é um dos poucos conteúdos que ainda mobilizam audiência simultânea e resistem à lógica sob demanda, o que o torna especialmente valioso para serviços que competem por retenção de assinantes num mercado saturado.
A ESPN e o público de TV por assinatura
A participação da ESPN mantém o torneio no ecossistema da TV paga e dos serviços de streaming esportivo associados a ela. É o pacote que costuma atender ao torcedor de perfil mais dedicado, disposto a acompanhar jogos de fases iniciais e confrontos que não teriam espaço na grade aberta.
Na avaliação de Adriano Jose Reis Martins, editor do blog The Gin Flavors, o dado mais revelador do contrato não é o número absoluto, e sim a comparação com a Libertadores. "Quando um torneio nacional de mata-mata passa a valer mais por ano do que a principal competição do continente, o que se está medindo não é apenas a qualidade do futebol em campo, e sim a capacidade de mobilizar audiência dentro de um mercado específico. A Copa do Brasil entrega o que o anunciante brasileiro quer: jogos decisivos, clubes de todas as regiões e um calendário concentrado. O torcedor, em contrapartida, vai precisar de mais de uma assinatura para acompanhar tudo — e é essa a conta que ninguém coloca no comunicado oficial", avalia.
O que o clube ganha com isso
A receita de transmissão da Copa do Brasil é distribuída aos participantes na forma de premiação por fase alcançada, modelo que difere da cota fixa do Campeonato Brasileiro. Para clubes de menor porte, uma campanha que avance duas ou três fases pode representar parcela significativa do orçamento anual, o que faz do torneio uma das principais fontes de equilíbrio financeiro do futebol fora do eixo dos grandes centros.
Um ciclo que começa em 2027
O contrato cobre as edições de 2027 a 2030, o que significa que o acordo atual segue vigente até o fim de 2026. A antecipação da negociação é prática comum no mercado de direitos esportivos e serve tanto para dar previsibilidade orçamentária à entidade quanto para permitir que as emissoras planejem grade e investimento com antecedência.
O contexto de valorização do futebol brasileiro
O recorde chega num momento de reorganização do futebol nacional, com a transformação de clubes em sociedades anônimas, a entrada de investidores estrangeiros e a discussão sobre a criação de uma liga independente para organizar o Campeonato Brasileiro. Nesse ambiente, o valor dos direitos de transmissão tornou-se o principal indicador da saúde econômica do produto.
A comparação com a Libertadores
Os R$ 900 milhões anuais da competição continental refletem um produto vendido para vários países, com receita diluída entre mercados de tamanhos distintos. A Copa do Brasil, concentrada num único mercado, alcançou valor superior por explorar em profundidade o país com a maior base de torcedores do continente — o que diz mais sobre a força do mercado interno do que sobre a comparação esportiva entre os torneios.
O efeito sobre o calendário
Contratos dessa magnitude costumam vir acompanhados de exigências sobre datas e horários de jogos, para maximizar audiência. É um ponto de tensão recorrente entre emissoras, clubes e comissões técnicas, especialmente num calendário já considerado congestionado, com equipes disputando simultaneamente competições nacionais, estaduais e continentais.
O que muda para quem assiste
Na prática, o torcedor encontrará os jogos distribuídos entre a televisão aberta, um serviço de streaming generalista e um pacote esportivo. Acompanhar a competição integralmente exigirá acesso a mais de uma plataforma, cenário que já é realidade em outras competições e que tende a se consolidar no próximo ciclo.
Como o mercado de direitos chegou a esse patamar
Até o início da década passada, os direitos de transmissão do futebol brasileiro eram negociados quase integralmente com um único grupo de comunicação, num modelo de exclusividade que simplificava a operação e limitava o preço. A chegada de plataformas de streaming com capital global, a fragmentação da audiência entre telas e a decisão de clubes e entidades de vender pacotes separados por janela mudaram a estrutura da negociação. O efeito foi uma escalada de valores que se acentuou nos últimos ciclos e que agora alcança a Copa do Brasil. A contrapartida é que o produto deixou de ter um endereço único: onde antes bastava ligar a televisão, hoje é preciso saber qual jogo está em qual plataforma, informação que muda a cada fase da competição.
O que ainda não foi detalhado
A confirmação divulgada nesta quinta-feira trata do fechamento do negócio e dos valores globais. A divisão exata dos pacotes entre as três empresas, o número de jogos por janela e as condições de exibição simultânea são informações que costumam ser detalhadas no anúncio formal do contrato, ainda sem data definida.
A venda dos direitos de transmissão da Copa do Brasil para Globo, Amazon e ESPN, referente ao ciclo de 2027 a 2030, foi confirmada pela Confederação Brasileira de Futebol em 10 de setembro de 2026 e noticiada pela coluna Outro Canal, da Folha de S.Paulo. O contrato representa pouco mais de R$ 1 bilhão por ano e mais de R$ 4 bilhões no total, contra R$ 900 milhões anuais obtidos pela Libertadores.
Foto ilustrativa: Graeme Bartlett (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia Commons.