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Banco Central estuda ligar o Pix ao TIPS, o sistema de pagamentos instantâneos da zona do euro

Relatório de Gestão do Pix 2023-2025 confirma que o BC avalia interligações com outras jurisdições; acordo com o TIPS ainda não foi confirmado.

Banco Central estuda ligar o Pix ao TIPS, o sistema de pagamentos instantâneos da zona do euro

O Banco Central do Brasil considera interligar o Pix a sistemas financeiros de outros países, e a internacionalização oficial do sistema pode começar pelo TIPS, a plataforma de pagamentos instantâneos da Europa; negociações já teriam sido iniciadas com o Banco Central Europeu. A informação é da Folha, reproduzida pelo Tecnoblog: as tratativas estão em fase inicial, e a expectativa é que ainda em setembro sejam concluídas análises jurídicas, técnicas, operacionais e de segurança para permitir que Pix e TIPS sejam interligados em algum momento.

O benefício seria permitir que pessoas físicas e jurídicas façam remessas do Brasil para a Europa — e vice-versa — com menos burocracia e muito mais rapidez, com transferências concluídas em segundos; é de se presumir que o visitante de uma região na outra também possa pagar compras lendo um QR Code via Pix que, durante o procedimento, se comunica com o TIPS e converte reais em euros instantaneamente. Isso não significa ausência de custos, embora eventuais taxas tendam a ser mais acessíveis que as atuais. Não há informações oficiais sobre prazos — o Banco Central ainda não confirmou a integração —, mas parece haver planos para análises mais aprofundadas entre outubro de 2026 e março de 2027, uma fase preliminar de implementação de abril de 2027 a junho de 2028, quando começaria o piloto. O Relatório de Gestão do Pix 2023-2025, publicado em agosto de 2026, registra que "o BC avalia a interligação do Pix com sistemas de pagamentos instantâneos de outras jurisdições. Estão em discussão tanto interligações bilaterais como a participação em hubs multilaterais".

O que é o TIPS e por que ele é o parceiro natural

O TARGET Instant Payment Settlement, operado pelo Eurosistema desde 2018, é a infraestrutura pela qual bancos da zona do euro liquidam transferências instantâneas em dinheiro de banco central, 24 horas por dia, em menos de dez segundos — o equivalente europeu do Sistema de Pagamentos Instantâneos que sustenta o Pix; desde 2025, com o regulamento europeu que obrigou todos os bancos da zona do euro a oferecer transferências instantâneas sem custo adicional, o TIPS tornou-se o padrão do continente, e o BCE passou a estudar conexões com sistemas de outras regiões — a Suécia e a Dinamarca já liquidam suas moedas nele, e há projetos com a Índia e países do Golfo. Para o Brasil, ligar o Pix ao TIPS significa acessar de uma vez os 20 países do euro, com liquidação em moeda de banco central dos dois lados e conversão cambial embutida; para a Europa, significa alcançar o sistema de pagamentos instantâneos mais usado do mundo, com mais de 170 milhões de usuários e bilhões de transações mensais.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o Pix internacional é o passo lógico — e o mais difícil. "Dentro do Brasil, o Pix venceu porque o BC mandou: todo banco entra, todo mundo usa, de graça. Fora, o BC não manda em ninguém; precisa de acordo com outro banco central, compatibilidade técnica, regra de câmbio, prevenção à lavagem e quem paga a conta da conversão. O TIPS é o parceiro certo — infraestrutura pública, 20 países, padrão ISO igual ao do Pix — e o cronograma é realista: dois anos de estudo e piloto em 2028. O que vai decidir é a tarifa: se a remessa de 500 euros custar o que custa hoje num banco — 5% a 8% entre spread e taxa —, ninguém vai notar diferença. Se custar 1%, o Pix vira a Western Union do brasileiro na Europa", avalia.

Remessas Brasil-Europa: o mercado que o Pix mira

Brasileiros na Europa — mais de um milhão, entre Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, França e Reino Unido — enviam bilhões de reais por ano ao país, e empresas brasileiras pagam fornecedores e recebem de clientes europeus; hoje, as operações passam por bancos correspondentes, Swift, casas de câmbio e fintechs como Wise e Remessa Online, com prazos de horas a dias e custos que somam spread cambial, IOF e tarifas. Uma ponte Pix-TIPS eliminaria intermediários e reduziria o tempo a segundos.

Como funcionaria o pagamento com QR Code

Um turista brasileiro em Lisboa leria o QR Code do restaurante com o aplicativo do banco; o Pix se comunicaria com o TIPS, um provedor de câmbio converteria reais em euros à taxa do momento, e o restaurante receberia em euros na hora — o mesmo modelo que a Índia opera com Singapura e que o BC estuda. A conversão e a tarifa seriam exibidas antes da confirmação, como já ocorre em pagamentos internacionais com cartão.

O cronograma preliminar: 2026, 2027, 2028

Setembro de 2026: conclusão das análises jurídicas, técnicas, operacionais e de segurança; outubro de 2026 a março de 2027: estudos aprofundados; abril de 2027 a junho de 2028: implementação preliminar; junho de 2028: piloto. O BC não confirmou as datas, e a Folha as apresenta como planos em discussão — mas o Relatório de Gestão do Pix indica que a interligação é diretriz oficial.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, há uma dimensão geopolítica no anúncio. "O Pix é o maior ativo de soberania financeira que o Brasil criou — e os Estados Unidos já o citaram como barreira comercial na investigação de 2025 contra o país. Ligar o Pix ao euro, e não ao dólar, é escolha: o BC vai primeiro à Europa, que tem infraestrutura pública compatível, e não aos Estados Unidos, onde o pagamento instantâneo é fragmentado e privado. Enquanto Washington reclama do Pix, Frankfurt negocia com ele. Em 2028, um brasileiro pode pagar o café em Paris com Pix antes de conseguir fazer isso em Miami. É integração Sul-Norte que passa ao largo do dólar, e o mercado vai ler assim", observa.

Índia, Singapura e o modelo que já funciona

O UPI indiano e o PayNow de Singapura estão interligados desde 2023, permitindo remessas instantâneas entre os dois países com conversão automática; a Índia expandiu o modelo para Emirados Árabes, Sri Lanka e França, e o BCE estuda ligações semelhantes. O projeto Nexus, do Banco de Compensações Internacionais, propõe um hub multilateral — a "participação em hubs" citada pelo relatório do BC.

Câmbio, IOF e prevenção à lavagem: os obstáculos

Toda remessa internacional envolve conversão de moeda — quem faz, a que taxa e com que margem —, incidência de IOF no Brasil e verificação de origem dos recursos; integrar Pix e TIPS exige definir provedores de câmbio, limites por operação, regras de identificação e compartilhamento de dados entre autoridades. São as análises "jurídicas e de segurança" que o BC quer concluir em setembro.

Pix em 2026: o sistema que cresce sem parar

Lançado em novembro de 2020, o Pix superou cartões de débito e crédito em volume, ultrapassou 6 bilhões de transações mensais e ganhou funções — Pix Automático, por aproximação, parcelado — em ritmo anual; a internacionalização é o próximo capítulo do plano do BC, ao lado do Drex, a moeda digital, e do Open Finance.

O que muda para quem envia dinheiro hoje

Nada por enquanto: o piloto é para 2028, e as regras de tarifa e câmbio não foram definidas; quem envia ou recebe da Europa segue com bancos, fintechs e casas de câmbio. A notícia vale como sinal de direção — e como pressão sobre intermediários para reduzir custos antes que o Pix chegue.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o cronograma longo é sinal de seriedade. "Dois anos de estudo e piloto em 2028 não é lentidão — é o tempo de fazer direito algo que nenhum outro país fez nessa escala: ligar dois sistemas públicos de pagamento instantâneo de continentes diferentes, com câmbio e antilavagem embutidos. O BC sabe que, se o Pix internacional falhar uma vez, a confiança que construiu em seis anos vai junto. Que a análise de setembro saia, que a tarifa seja pública e que, em 2028, o brasileiro em Lisboa pague o pastel de nata com o mesmo toque que paga o pão em Araras", analisa.

O estudo do Banco Central para interligar o Pix ao sistema europeu TIPS foi revelado pela Folha e noticiado pelo Tecnoblog em 3 de setembro de 2026; o Relatório de Gestão do Pix 2023-2025, publicado em agosto de 2026, confirma que a interligação com sistemas de outras jurisdições está em avaliação.

Foto: Claudio Oliveira Lim… (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia Commons.

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Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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