Uma das lentes mais raras já produzidas pela Leica está de volta. A empresa resgatou de seus arquivos militares a Leica Summicron-M 66 f/2, edição especial inspirada numa óptica desenvolvida durante a Guerra Fria para missões de reconhecimento e fotografia discreta — espionagem. A nova versão terá apenas 660 unidades e chega ao mercado por US$ 10.900, cerca de R$ 55.800, disponível mundialmente desde 3 de setembro pela Leica e por revendedores autorizados. As informações são do Canaltech.
A lente é releitura moderna da Elcan 66mm f/2, criada pela Ernst Leitz Canada no fim dos anos 1960 após encomenda da Marinha dos Estados Unidos. A produção original teria sido de aproximadamente 200 exemplares — o que a transformou numa das peças mais raras do sistema M da Leica.
Walter Mandler e os 66 mm
O desenvolvimento da Elcan ficou a cargo do designer óptico Walter Mandler, que recebeu a missão de criar uma lente compacta, mas capaz de entregar resolução excepcional para reconhecimento. A distância focal incomum de 66 mm — nem os 50 mm padrão nem os 75 ou 90 mm dos teleobjetivos curtos — não foi escolhida por acaso: segundo relato atribuído a Mandler, buscava equilibrar resolução, contraste e tamanho reduzido, permitindo uso discreto. Mandler, alemão radicado no Canadá, é autor de algumas das lentes mais celebradas da Leica, como a Noctilux 50 f/1 e a Summilux 35 f/1.4 — e a Elcan é sua obra mais secreta.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a lente é um documento histórico com rosca. "A Leica não está vendendo uma lente; está vendendo a Guerra Fria em 660 exemplares. A Elcan original foi feita para oficial da Marinha fotografar porto soviético às escondidas, com instrução de destruir o equipamento se fosse preso. Mandler desenhou 66 mm porque 65 era pouco e 67 era grande — esse nível de obsessão é o que a Leica vende há um século. Por US$ 10.900, o comprador leva a mesma focal, o mesmo anel invertido e uma história que nenhuma Sony tem. É colecionismo puro, e a Leica é a única marca que consegue fazê-lo com lente nova", avalia.
A KE-7A: a câmera militar
A Elcan foi usada com a Leica KE-7A, versão militar da Leica M4 fabricada no Canadá com vedação reforçada, lubrificantes para temperaturas extremas e acabamento fosco. Além da Marinha americana, relatos históricos indicam que equipamentos semelhantes foram usados por parceiros ocidentais durante a Guerra Fria. A combinação KE-7A e Elcan 66 é hoje um dos conjuntos mais disputados por colecionadores — exemplares completos ultrapassam dezenas de milhares de dólares em leilão.
"Destrua em caso de captura"
Um dos detalhes mais curiosos da Elcan original é o nível de sigilo: os conjuntos de câmera e lente eram acompanhados por instruções sobre como destruir o equipamento caso o fotógrafo fosse capturado. A medida mostra que não se tratava de versão militar de uma câmera comercial, mas de material de operações em que a possibilidade de captura e exposição das informações era considerada. É o que transforma a lente, para o colecionador, em artefato de inteligência, e não apenas em peça de óptica.
O que a nova versão preserva
Para a Summicron-M 66 f/2, a Leica manteve elementos que remetem ao projeto histórico e atualizou a construção óptica aos padrões atuais. Entre os detalhes: anel de abertura que gira na direção oposta à das lentes M convencionais — herança militar —, escala de distância inspirada nos equipamentos da época e gravações baseadas na Elcan original. Há ainda um pequeno "60" gravado na lateral, indicando que a distância focal real da unidade foi medida com precisão em 66,0 mm — prática de calibração individual que a Leica reserva a edições especiais.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o relançamento revela como a Leica sobrevive. "A Leica vende câmera de US$ 9 mil num mundo de celular com três lentes. Sobrevive porque vende o que o celular não tem: história, mecânica e escassez. Uma lente de espionagem de 1968, refeita em 660 unidades, com o anel girando ao contrário 'porque era assim' — isso é produto de luxo, e luxo é narrativa. O fotógrafo profissional não vai comprar; o colecionador, o advogado, o executivo que quer a Leica que ninguém tem, vai. E vai esgotar. A Leica entendeu, antes das outras, que câmera virou relógio", observa.
660: o número e o mercado
A tiragem de 660 unidades — dez vezes a original, e referência aos 66 mm — segue o modelo de edições limitadas que a Leica usa para relançar lentes históricas: a Summilux 35 "Steel Rim", a Noctilux 50 f/1.2, a Summaron 28 f/5.6. Todas esgotaram e valorizaram no mercado secundário. A US$ 10.900, a Summicron 66 é das mais caras da série — e a expectativa é de venda rápida entre colecionadores da Ásia e dos EUA.
Ernst Leitz Canada: a fábrica de Midland
A Leitz abriu a fábrica de Midland, em Ontário, em 1952, para produzir fora da Alemanha do pós-guerra e atender contratos militares norte-americanos. Sob Mandler, Midland desenhou lentes civis célebres e a linha Elcan — acrônimo de Ernst Leitz Canada — para forças armadas. A fábrica foi vendida nos anos 1990 e hoje pertence à Raytheon, ainda produzindo óptica militar. O relançamento da 66 é, também, homenagem a esse capítulo canadense da marca alemã.
Reconhecimento fotográfico na Guerra Fria
Antes dos satélites de alta resolução, a inteligência ocidental dependia de fotografia feita por adidos militares, diplomatas e agentes em visitas a portos, bases e fábricas do bloco soviético — com câmeras discretas e lentes que entregassem detalhe suficiente para identificar navios, radares e equipamentos. A Marinha americana, encarregada de monitorar a frota soviética, encomendou à Leitz uma lente que coubesse numa câmera M sem chamar atenção e resolvesse o suficiente para ampliação: a Elcan 66. Os cerca de 200 exemplares foram distribuídos a unidades de inteligência naval e, segundo relatos, a aliados da Otan.
Por que o anel gira ao contrário
Nas lentes M convencionais, o anel de abertura fecha girando num sentido; na Elcan, no oposto — provavelmente por especificação militar de padronização com outros equipamentos ópticos das forças armadas americanas, cujos binóculos e miras seguiam convenção própria. A Leica manteve o detalhe na Summicron 66 por fidelidade histórica, o que obriga o fotógrafo acostumado ao sistema M a reaprender o gesto. É o tipo de "defeito" que, em edição de colecionador, vira virtude.
Sistema M: 70 anos de compatibilidade
A nova lente usa a baioneta M, introduzida em 1954 e mantida até hoje — o que significa que funciona nas Leica M digitais atuais, como a M11, e nas analógicas de 70 anos atrás. A compatibilidade é parte do valor: uma Summicron 66 comprada em 2026 pode ser usada numa M3 de 1954 ou numa M11 de 2022. Nenhum outro sistema fotográfico mantém tal continuidade.
Fotografia discreta: o uso civil
Fora do contexto militar, a focal de 66 mm é um "50 longo" — ligeiramente mais fechada que a lente padrão, útil para retrato ambiental e fotografia de rua a distância um pouco maior, sem o comprimento de um 90. Fotógrafos de rua da Leica valorizam exatamente a discrição que Mandler buscava: lente compacta que não chama atenção. A ironia é que a lente feita para espionar hoje serve para fotografar sem incomodar.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o produto é uma aula de marketing de herança. "US$ 10.900 por uma lente de 66 mm é irracional pela ótica e perfeitamente racional pela história. A Leica não inventou nada — desenterrou um projeto de 1968, contou a história do 'destrua se capturado' e colocou 660 no mercado. A Ferrari faz o mesmo com carro, a Rolex com relógio. O Brasil tem marcas com história — e quase nenhuma sabe contá-la. A Leica cobra R$ 55 mil por uma lente porque sabe. Isso é o produto: a história, com vidro em volta", analisa.
A Leica Summicron-M 66 f/2 está disponível desde 3 de setembro de 2026, em edição limitada de 660 unidades, por US$ 10.900. A lente é inspirada na Elcan 66mm f/2 desenvolvida pela Ernst Leitz Canada no fim dos anos 1960.
Foto: Miloš Jurišić (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia Commons.