Tecnologia

Lições de uma imersão na China: provedores chineses saltaram

Diretor de inovação da Alura+FIAP lista quatro mecanismos aplicáveis a qualquer empresa: cenário em vez de piloto, roteamento, meta de penetração e contrato por resultado.

Lições de uma imersão na China: provedores chineses saltaram

Quando se fala em China, tende-se a travar em dois extremos igualmente inúteis: a admiração que ignora os custos e a rejeição que ignora os mecanismos. É o ponto de partida de Guilherme Pereira, diretor de inovação da Alura + FIAP Para Empresas, em coluna publicada pelo Olhar Digital após uma imersão executiva no país. A primeira mudança de rota que ele observou é sutil e decisiva: lá, a atenção saiu da capacidade dos modelos de IA e foi parar no custo por tarefa. Em apenas um ano, provedores chineses saltaram de menos de 2% para mais de 45% do tráfego semanal em um dos maiores roteadores de modelos do mundo — porque viabilidade financeira e capacidade de inteligência estão se descolando. As informações são do Olhar Digital.

Desenvolvedores pararam de escolher modelo por benchmark e passaram a otimizar por custo — por token e por capacidades específicas, como gerar bom código ou lidar com contexto longo. Com modelos abertos comparáveis rodando por cerca de um sétimo do preço de um equivalente ocidental de ponta, "deixou de ser uma questão de preferência e virou, na prática, uma questão de margem".

Licenciamento: o padrão que surpreende

Contra a narrativa popular, a maioria dos laboratórios chineses abre a base e a camada intermediária dos modelos, mas fecha o topo — exatamente o padrão de OpenAI e Anthropic. O caso da DeepSeek, com licença MIT integral, é exceção, não regra. A observação desmonta a ideia de que a China é o paraíso do código aberto: a estratégia é a mesma dos ocidentais — abrir o suficiente para capturar desenvolvedores, fechar o que gera receita.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o dado de 45% é o mais importante do ano em IA. "Quase metade do tráfego de um roteador global de modelos foi para provedor chinês em um ano — não porque o modelo é melhor, mas porque custa um sétimo. Isso muda o jogo: a corrida pela inteligência virou corrida pela margem. O desenvolvedor brasileiro que paga em dólar por token está fazendo a conta. A coluna diz o que os executivos das big techs não dizem: o modelo é commodity, e commodity se compra pelo preço. Quem entendeu isso primeiro foi a China, com o Estado fixando meta de penetração. Quem não entender vai pagar sete vezes mais pelo mesmo resultado", avalia.

Agentes: categoria própria e regulada

Em maio de 2026, a China publicou o primeiro marco regulatório dedicado especificamente a agentes de IA, tratando-os como infraestrutura digital. No mesmo período, os agentes chegaram a 20% do consumo de tokens de um roteador global numa única semana. A conclusão de Pereira: "Empresas que ainda planejam capacidade computacional pensando apenas em consumo humano estão erradas e podem ter sérios prejuízos." Há também um risco fora do contrato: escolher um modelo é escolher limites definidos por outra empresa, sob outra lei.

Mecanismo 1: cenário de aplicação, não piloto

"Piloto costuma ser uma demonstração em busca de um problema para resolver. Já o Cenário de Aplicação nasce com quatro componentes definidos antes de começar: o problema delimitado, o ambiente real onde ele acontece, os dados que já existem ali e o resultado esperado e mensurável." Empresários chineses relataram que os "projetos zumbis" — agentes que morrem antes da produção — não morrem por limitação técnica nem por orçamento: morrem porque o líder da área de negócio não participou pessoalmente. É a recomendação mais prática da viagem.

Mecanismo 2: roteamento

Usar o modelo caro só quando a tarefa exige e resolver o resto com recursos mais antigos — que ficam cerca de 80% mais baratos a cada geração de hardware. "Treinar é um gasto único. Já o servir é gasto todo dia, para sempre. E é neste momento que roteamento pode decidir o resultado financeiro." É a lógica que explica os 45%: o roteador escolhe o modelo mais barato que resolve, e o chinês resolve por um sétimo.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o mecanismo da meta de penetração é o mais chinês — e o mais copiável. "O Estado fixou 70% de agentes em setores-chave até 2027 e 90% até 2030. A pergunta das empresas mudou de 'qual IA comprar' para 'qual percentual dos nossos processos tem IA'. É gestão por indicador, não por tecnologia. Uma Prefeitura, um hospital ou uma indústria brasileira pode fazer o mesmo sem Pequim: definir que 30% dos processos terão agente até dezembro e medir. A coluna acerta ao dizer que a lição não é sobre a China — é sobre onde se ganha dinheiro. E dinheiro se ganha em processo que roda, não em modelo que impressiona", observa.

Mecanismo 3: meta de penetração

O programa estatal chinês fixou meta acima de 70% de penetração de agentes em setores-chave até 2027, e acima de 90% até 2030. A meta transforma a adoção de IA em indicador de gestão — mensurável, cobrável, comparável entre unidades. Para empresas, é o instrumento que tira a IA do departamento de inovação e a coloca na meta do diretor de operações.

Mecanismo 4: o impasse do contrato por resultado

"O cliente quer que o fornecedor responda pelo resultado, o fornecedor recua, e a definição do que seria melhoria quase nunca coincide. Cobrar por resultado esbarra em contrato e não em tecnologia." Ninguém resolveu — na China ou fora —, e Pereira aposta que quem resolver primeiro ganha o mercado. É o mesmo impasse que trava a adoção de IA em empresas brasileiras: o fornecedor vende licença; o cliente quer comprar resultado.

Shenzhen: o custo de tentar

O mercado de componentes de Huaqiangbei ocupa dez quarteirões, com toda a cadeia de suprimentos a menos de duas horas de carro. Criar uma variação de produto ali acrescenta cerca de 20% ao custo, em vez de 80% ou 100% — e quando lançar cinco custa quase o mesmo que lançar um, o mercado vira o teste. "O paralelo com software é direto: quando o custo de deploy cai, você para de debater em reunião e passa a decidir com feature flag. Não dá para replicar Shenzhen, mas dá para dominar o próprio custo de tentar."

Pequim: concorrentes na mesma mesa

O Instituto de IA de Pequim, fundado em 2018 por universidades, pelo Estado e por Baidu, Alibaba, Tencent, ByteDance e Xiaomi — concorrentes diretos na mesma governança —, já abriu mais de 200 modelos, acumulou mais de 1 bilhão de downloads e produziu a camada de portabilidade entre chips reconhecida como padrão pela União Internacional de Telecomunicações. "Escrever o padrão é a jogada mais barata e a mais negligenciada, e uma das poucas em que uma empresa brasileira pode ter influência real sem capital de fronteira."

O risco jurídico do modelo estrangeiro

A observação de que escolher um modelo é aceitar limites definidos por outra empresa, sob outra lei, aplica-se aos dois lados: usar um modelo chinês significa operar sob termos e restrições definidos em Pequim; usar um americano, sob os de Washington. Para empresas brasileiras, é variável de risco que não aparece no preço por token — mudanças regulatórias, sanções ou bloqueios podem interromper o serviço. O roteamento entre provedores é, também, mitigação desse risco: não depender de um único país.

O que o Brasil pode fazer

Pereira encerra com duas orientações: ir com hipóteses — "imersão sem pergunta definida vira turismo corporativo" — e transformar aprendizado em decisão. Para empresas brasileiras, os quatro mecanismos são aplicáveis sem capital chinês: definir cenário antes de piloto, rotear modelos por custo, fixar meta de penetração e enfrentar o contrato por resultado. A distância entre a viagem e o ganho tem um nome: decisão.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a coluna é o antídoto à conversa sobre IA no Brasil. "Aqui se discute qual modelo é mais inteligente, se a IA vai roubar emprego, se é ética. Na China, se discute custo por token, percentual de processo automatizado e quem assina o contrato por resultado. É a diferença entre debate e engenharia. Um sétimo do preço, 45% do tráfego, 70% de meta — são números de quem está construindo, não de quem está assistindo. O Brasil não precisa copiar a China; precisa parar de fazer piloto e começar a fazer cenário. A coluna dá a receita em quatro parágrafos. O resto é decidir", analisa.

A coluna de Guilherme Pereira, diretor de inovação da Alura + FIAP Para Empresas, sobre a imersão executiva na China foi publicada pelo Olhar Digital em 5 de setembro de 2026.

Foto: Leiem (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.

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Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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