Explosões de dinamite têm abalado a casa de Ken e Dolly Potteiger, na região central da Pensilvânia, há dois meses, enquanto equipes de construção desmontam a encosta ao lado da qual a família vive há décadas. As colinas estão sendo destruídas para dar lugar ao PAX-1, projeto de data center que ocupa cerca de 283 hectares e é separado da propriedade rural dos Potteiger por uma cerca de arame. "Nós nem conseguíamos enxergar o nosso quintal ou o campo, de tanta terra que havia no ar", disse Dolly sobre as explosões que destruíram a paisagem que ela observava havia mais de 53 anos. As informações são da Folha, a partir de reportagem do Financial Times.
A apreensão dos Potteiger se repete por toda Middlesex Township, onde tantos moradores contrários à construção lotaram uma reunião pública recente que ela acabou cancelada por exceder a capacidade de 150 pessoas do local. A reação contra a rápida expansão dos data centers tornou-se ponto de tensão na Pensilvânia — estado decisivo nas eleições americanas — e em todo o país antes das legislativas de novembro, embaralhando divisões partidárias em disputas acirradas, com democratas e republicanos tentando se posicionar como defensores de uma postura mais rigorosa em relação ao setor. A preocupação da população com possíveis perdas de empregos, aumento das tarifas de eletricidade e da conta de água e degradação ambiental ocorre apesar de os investimentos em inteligência artificial e data centers responderem por cerca de um terço do crescimento econômico dos Estados Unidos neste ano; a reação também colocou candidatos republicanos em desacordo com o presidente Donald Trump, que nesta semana afirmou que os americanos que se opõem aos data centers de IA querem que o país fique "atrasado e pobre". No Lehigh Valley, região onde fica Bethlehem e onde o Financial Times conduz um projeto jornalístico de vários anos, placas contrárias a propostas para seis data centers estão espalhadas pelos gramados.
Da siderurgia ao servidor: por que a Pensilvânia, berço do aço americano, virou o campo de batalha da IA
A Pensilvânia é o estado que decide presidentes — Trump venceu ali em 2016 e 2024, Biden em 2020, sempre por margens de um ou dois pontos — e é também o estado que a indústria de IA escolheu como fronteira de expansão depois da Virgínia do Norte, saturada, e do Texas, agora hostil: terra barata nos vales rurais, gás natural abundante do xisto de Marcellus para gerar energia, proximidade dos mercados de Nova York e Washington, e um governo estadual, sob o democrata Josh Shapiro, que ofereceu incentivos e celebrou em 2025 anúncios de dezenas de bilhões de dólares em data centers — inclusive o projeto que Trump prestigiou em Pittsburgh —, na promessa de reindustrializar o berço da siderurgia americana, onde Bethlehem Steel fechou em 2003 e o Lehigh Valley virou corredor de galpões logísticos; o que os Potteiger, com sua encosta dinamitada, e os moradores de Middlesex Township descobriram em 2026 é o que o Texas descobriu meses antes: um data center de 283 hectares consome a eletricidade de uma cidade — a rede PJM, que atende a Pensilvânia, já registra as maiores altas de tarifa residencial do país por demanda de servidores —, a água de refrigeração disputa com a agricultura, a construção destrói colinas e o emprego permanente é de dezenas, não de milhares, enquanto a isenção fiscal é de centenas de milhões. A dimensão política é o que a Folha destaca: num estado que decide o Senado e a Câmara em novembro, democratas que celebraram os anúncios e republicanos que seguem Trump correm para se apresentar como os mais rigorosos com as big techs, e a frase presidencial — quem se opõe quer o país "atrasado e pobre" — é o tipo de declaração que perde eleitor rural; a resposta das empresas, com US$ 300 milhões em doações eleitorais e campanhas publicitárias, é a de quem sabe que um terço do crescimento americano depende de continuar construindo. Para o Brasil, que aposta em data centers com energia limpa e discute o Redata, o Lehigh Valley — como o Texas — é o aviso: sem contrapartida em energia própria, água e emprego local, a comunidade que recebe o galpão vira a primeira a votar contra; e Araras, com terra, energia e uma subestação a poucos quilômetros, é exatamente o perfil de cidade que uma big tech procuraria.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a fazenda dos Potteiger é a imagem da inteligência artificial que ninguém mostra. "Cinquenta e três anos olhando a mesma colina, e dois meses de dinamite para que uma empresa construa 283 hectares de servidor ao lado — sem que ninguém tenha perguntado. A reunião pública lotou tanto que foi cancelada. É assim que a IA chega ao interior: como explosão, como conta de luz, como caminhão. Trump diz que quem reclama quer o país pobre; o eleitor da Pensilvânia, que decide a Câmara em novembro, vai responder. O portal registra e conecta com o Texas, com o Redata e com a semana em que o ONS avisou que pode faltar energia no Brasil: data center é a fábrica do século 21, e fábrica precisa de licença, de vizinho ouvido e de conta paga. Araras tem terra e subestação; que tenha também a reunião pública antes da dinamite", avalia.
PAX-1: 283 hectares ao lado de uma fazenda
Projeto de data center em Middlesex Township, na Pensilvânia central, com área equivalente a quase 400 campos de futebol, em construção com detonação de encostas; separado da propriedade dos Potteiger por cerca de arame; a reunião pública sobre o empreendimento foi cancelada por exceder a capacidade de 150 pessoas.
Contas de luz e água: o medo concreto
A rede PJM, que atende a Pensilvânia, atribui à demanda de data centers as maiores altas de tarifa residencial do país; a refrigeração consome milhões de litros por dia; os moradores citam também perda de empregos rurais e degradação ambiental — argumentos que unem democratas e republicanos locais contra a expansão.
Um terço do crescimento americano
Investimentos em IA e data centers respondem por cerca de um terço do crescimento econômico dos Estados Unidos em 2026 — o dado que sustenta a posição de Trump e das big techs de que a resistência ameaça a economia e a disputa com a China; para as comunidades, o crescimento é nacional e o custo é local.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a frase de Trump é o erro político da semana. "Dizer ao fazendeiro que perdeu a colina e vai pagar luz mais cara que ele quer o país 'atrasado e pobre' é o tipo de coisa que custa cadeira na Câmara — e a Pensilvânia decide a Câmara. Republicanos locais já se afastam; democratas tentam capitalizar. As big techs gastam US$ 300 milhões para explicar que servidor é progresso. O portal registra o Lehigh Valley e o Texas como a mesma história: a infraestrutura da IA encontrou o limite do eleitor. E observa que, no Brasil, o Congresso aprova incentivo a data center com jabuti sem que nenhum morador tenha sido ouvido — a dinamite vem depois", observa.
Pensilvânia: o estado decisivo
Com 19 votos no colégio eleitoral e cadeiras disputadas na Câmara e no Senado, a Pensilvânia é o estado-pêndulo por excelência; a rejeição aos data centers embaralha os partidos e vira tema de campanha em novembro, quando democratas tentam retomar a Câmara e republicanos defendem a maioria.
Lehigh Valley e Bethlehem: do aço aos galpões
A região que abrigou a Bethlehem Steel, fechada em 2003, converteu-se em polo logístico e agora recebe propostas de seis data centers; o Financial Times acompanha a transformação em projeto de anos, e as placas nos gramados são o sinal visível de uma comunidade que não quer repetir a experiência dos galpões.
A resposta das big techs
Mais de US$ 300 milhões em doações para as eleições de meio de mandato, campanhas publicitárias sobre benefícios dos data centers e promessas de energia própria e reúso de água em novos projetos — a indústria reage à resistência que, do Texas à Pensilvânia, ameaça o ritmo de construção do qual depende a corrida da IA.
Brasil: o mesmo debate, ainda sem vizinhos
Com energia limpa e terra disponível, o país atrai projetos de gigawatts no Ceará, em São Paulo e no Sul, e discute incentivos fiscais; a experiência americana sugere exigir contrapartidas e consulta às comunidades antes da licença — sob pena de a rejeição chegar junto com a primeira conta de luz mais alta.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a história dos Potteiger deveria ser lida em toda prefeitura do interior. "Uma família que viveu 53 anos numa fazenda vê a colina virar poeira para um data center de 283 hectares — e a única resposta que recebe é do presidente, dizendo que ela quer o país pobre. É o que acontece quando o progresso chega sem perguntar. O portal registra a Pensilvânia e sugere a Araras, que tem o que as big techs procuram, a pergunta antes da resposta: quem paga a luz, quem usa a água, quem trabalha, e quem decide? Se a resposta for 'ninguém perguntou', a dinamite já começou", analisa.
A reportagem sobre a resistência de moradores da Pensilvânia à expansão de data centers, com o caso da família Potteiger em Middlesex Township e as placas contra seis projetos no Lehigh Valley, foi publicada pela Folha em 3 de setembro de 2026, com base em apuração do Financial Times; Donald Trump afirmou na mesma semana que os opositores dos data centers de inteligência artificial querem o país "atrasado e pobre".
Foto: Cutlass (CC0) via Wikimedia Commons.