quarta-feira, 21 de outubro de 2026
TGF
Tecnologia

O boom da IA chegou ao seu bolso: fabricantes desviam produção de memória para data centers

Levantamento da The Economist com dados da Amazon mostra alta em todas as categorias de eletrônicos desde setembro de 2025, exceto celulares.

Adriano Jose Reis Martins - O boom da IA chegou ao seu bolso fabricantes desviam produção de memória para data centers

No futuro próximo, diz Elon Musk, a inteligência artificial produzirá tal abundância de bens e serviços que levará à deflação — em dez anos, "qualquer pessoa poderá ter qualquer coisa que consiga imaginar". Por enquanto, as coisas caminham na direção oposta: as hyperscalers, grandes empresas de computação em nuvem, gastam somas enormes para estocar os recursos escassos usados em sistemas de IA, e isso está provocando inflação nos eletrônicos de consumo. Os data centers consomem quantidades gigantescas de HBM, memória de alta largura de banda, e de memória flash; os fabricantes migraram para esse mercado lucrativo, deslocando a produção da DRAM tradicional usada em celulares e laptops. As informações são da Folha de S.Paulo, que publicou análise da The Economist.

Duas das três grandes fabricantes de HBM são sul-coreanas — Samsung e SK Hynix. Desde setembro de 2025, os preços de fábrica no país subiram 445% para DRAM e 244% para memória flash, segundo índices de preços ao produtor, e o aumento está sendo repassado a dispositivos que usam esses componentes. Nos Estados Unidos, o índice de preços ao consumidor para "software e acessórios de computador" subiu 31% no período, contra 2,6% da inflação geral.

A conta da Amazon: laptops, consoles, pen drives

Para medir o efeito, a The Economist recorreu à Keepa, plataforma que acompanha preços na Amazon, e analisou os dez itens mais vendidos em seis categorias de eletrônicos no site americano. Os resultados mostram aumentos em todas desde setembro de 2025: laptops subiram 20%, consoles PlayStation 5 mais de 30%, pen drives quase 100%. Só os celulares contrariaram a tendência — e a revista explica: os mais vendidos na Amazon são iPhones antigos, que perdem valor, enquanto os consumidores compram os novos direto da Apple. A expectativa por GTA 6 pode estar inflando o preço do PlayStation.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a ironia é completa. "A IA que ia baratear tudo está encarecendo o computador de quem não usa IA. A Samsung e a SK Hynix ganham dez vezes mais vendendo HBM para a Nvidia e a Microsoft do que vendendo DRAM para a Dell — então pararam de fazer DRAM. Resultado: 445% de alta na fábrica, 20% no laptop, 100% no pen drive. É a economia de escassez clássica: a demanda de meia dúzia de empresas com bilhões engole a oferta de um componente que todo aparelho usa. O consumidor paga a conta do data center. E Musk fala em deflação em dez anos — pode ser, mas o notebook do estudante subiu agora", avalia.

HBM x DRAM: por que a troca

A HBM empilha chips de memória verticalmente, conectados por vias de silício, para entregar largura de banda dezenas de vezes maior que a DRAM convencional — necessária para alimentar GPUs que treinam e rodam modelos de IA. É mais cara, mais complexa e muito mais lucrativa por wafer; a Nvidia compra tudo o que Samsung, SK Hynix e Micron conseguem produzir. Com as mesmas linhas de fabricação disputadas, cada wafer destinado a HBM é um wafer a menos de DRAM para o mercado de consumo — e a oferta de DRAM encolhe enquanto a demanda por celulares e PCs se mantém.

445% e 244%: os índices coreanos

Os índices de preços ao produtor da Coreia do Sul — que concentra a maior parte da produção mundial de memória — registram alta de 445% na DRAM e de 244% na flash em doze meses, o maior salto da série histórica. O mercado de memória sempre foi cíclico: a construção de fábricas exige investimento alto e anos, e a oferta reage devagar. A alta atual, porém, parece sem precedentes, e analistas esperam que o boom da IA eleve ainda mais os preços antes que novas fábricas — previstas para 2027 e 2028 — entrem em operação.

Tarifas de Trump: a pressão extra

O governo americano considera tarifas sobre semicondutores, o que aumentaria a pressão sobre preços de eletrônicos importados da Ásia — praticamente todos. Para o consumidor americano, seria o segundo choque em um ano; para o mercado global, um encarecimento adicional numa cadeia já apertada. Tarifas sobre chips atingiriam também produtos montados no México e no Vietnã com componentes coreanos e taiwaneses.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o Brasil sente o efeito multiplicado. "O laptop que subiu 20% em dólar nos EUA subiu 20% em dólar aqui também — mais o câmbio, mais o imposto. O pen drive que dobrou lá dobrou aqui. O Brasil importa toda a memória que usa, inclusive a dos notebooks montados em Indaiatuba e Manaus. A inflação de eletrônicos de 2026 não é do governo nem do câmbio; é da Nvidia comprando HBM. E o brasileiro, que já paga o dobro por tecnologia, vai pagar o dobro do dobro. É a globalização em que a decisão da SK Hynix define o preço da loja de informática de Araras", observa.

PlayStation 5: 30% e o GTA 6

A alta de mais de 30% no console da Sony combina dois fatores: a memória mais cara e a expectativa por Grand Theft Auto 6, o lançamento mais aguardado da década, que eleva a demanda por PS5. A Sony já reajustou preços em vários mercados em 2025 e 2026 citando custos de componentes — algo raro no ciclo de vida de um console, que costuma barateá-lo com o tempo. É o primeiro console da história a ficar mais caro cinco anos depois do lançamento.

Celulares: a exceção enganosa

A queda de preço dos celulares na amostra da Amazon é artefato de composição — modelos antigos de iPhone perdendo valor — e não sinal de que smartphones escaparam. Os lançamentos de 2026 — iPhone 17, Galaxy S26 — vieram com preços iguais ou maiores e, em alguns casos, com menos memória na versão básica, estratégia de absorver o custo sem reajustar a etiqueta. O consumidor paga o mesmo por menos.

Musk e a deflação: a promessa

A tese de Musk — abundância por IA e robôs, dinheiro perdendo sentido — é a versão extrema do otimismo tecnológico e pressupõe que a capacidade produtiva cresça mais rápido que a demanda. No momento, ocorre o contrário: a demanda das hyperscalers por chips, energia e memória supera a oferta e encarece tudo o que compete pelos mesmos recursos. A deflação, se vier, virá depois do investimento — e o investimento é pago agora, pelo consumidor.

Micron e a terceira fabricante

A americana Micron, terceira produtora de memória, segue o mesmo caminho das coreanas — prioriza HBM para a Nvidia e reduz a oferta de DRAM convencional —, e seus resultados trimestrais mostram margens recordes com receita menor em consumo. É o sinal de que a realocação é decisão de indústria, não de uma empresa: enquanto a IA pagar mais por wafer, nenhuma das três voltará ao mercado de consumo por vontade própria.

Quando a oferta responde

Samsung, SK Hynix e Micron anunciaram fábricas novas de memória nos EUA, na Coreia e no Japão, com produção a partir de 2027 e 2028. Até lá, a escassez de DRAM tende a persistir, e o mercado de eletrônicos de consumo convive com preços altos. Quem precisa trocar de notebook ou console em 2026 enfrenta o pior momento do ciclo; quem pode esperar dois anos deve encontrar preços em queda — o padrão histórico da memória, que alterna escassez e excesso.

O que muda para o consumidor brasileiro

Notebooks, consoles, SSDs e pen drives mais caros no segundo semestre de 2026 e em 2027; smartphones com preços mantidos, mas menos memória; e a Black Friday com descontos menores em eletrônicos, porque a margem do varejo está comprimida pelo custo de componentes. A recomendação de quem acompanha o setor é comprar memória e armazenamento antes que o repasse complete — ou adiar a troca para 2028.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia expõe quem financia a revolução da IA. "Microsoft, Google, Amazon e Meta vão gastar centenas de bilhões em data centers este ano. Quem paga? Em parte, o acionista. Em parte, o estudante que precisa de laptop e o pai que quer dar um PlayStation. A memória que iria para eles foi para a Nvidia. É transferência de renda do consumidor para a hyperscaler, via preço, sem que ninguém tenha votado. A Economist mediu: 20%, 30%, 100%. Musk promete abundância; o mercado entrega escassez. Os dois podem estar certos — em prazos diferentes. O prazo do consumidor é agora", analisa.

A análise sobre o impacto do boom da inteligência artificial nos preços de eletrônicos é da The Economist, publicada pela Folha de S.Paulo em 5 de setembro de 2026, com dados da plataforma Keepa sobre a Amazon nos Estados Unidos.

Foto: FritzchensFritz (CC0) via Wikimedia Commons.

AM
Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Assina esta matéria no Portal Flavors, com apuração e curadoria próprias.

Develop by Cliki