Mesmo desligados, alguns aparelhos continuam consumindo energia enquanto permanecem conectados à tomada, e isso faz com que muitas pessoas considerem o hábito de tirá-los da tomada à noite como estratégia para economizar. Mas será que fazer isso com a TV e o micro-ondas realmente reduz de forma significativa a conta de luz? Esse gasto, conhecido como consumo em standby, costuma ser pequeno em aparelhos modernos; ainda assim, repetido todos os dias, levanta dúvidas sobre o impacto real no fim do mês e ao longo do ano. As informações são do Canaltech, que fez as contas.
O site considerou uma TV e um micro-ondas entre os mais vendidos do Magalu em cada categoria — a Smart TV Samsung U8600F de 50 polegadas e o micro-ondas Electrolux Efficient ME23B de 23 litros — num cenário em que ambos ficam fora da tomada oito horas por noite, com dados oficiais do Programa Brasileiro de Etiquetagem, o PBE, do Inmetro. Segundo o PBE, a TV tem potência de 0,323 watt em modo de espera; o micro-ondas consome 0,02 kWh por dia em standby, tanto na versão de 127 V quanto na de 220 V. Oito horas por noite equivalem a 240 horas num mês de 30 dias e 2.920 horas num ano; para a TV, a potência multiplicada pelas horas e dividida por mil dá o consumo em kWh; para o micro-ondas, calculou-se um terço do consumo diário. Nessas condições, a TV consome cerca de 0,0775 kWh nas oito horas noturnas ao longo de 30 dias, e o micro-ondas, 0,20 kWh — 0,278 kWh combinados. Cruzando com tarifas de referência de capitais, retirar os dois equipamentos da tomada todas as noites economizaria entre R$ 0,23 e R$ 0,27 por mês, com o micro-ondas respondendo por cerca de 72% do consumo. Em 365 noites, são 0,943 kWh para a TV e 2,433 kWh para o micro-ondas — 3,376 kWh no total —, o que, mesmo em Fortaleza, com a maior tarifa entre as referências, dá economia de aproximadamente R$ 3,28 por ano; em Brasília, na outra ponta, R$ 2,80. Os resultados apontam que retirar os aparelhos da tomada reduz o consumo, mas a economia é muito pequena para os modelos analisados; isso não significa que o standby seja irrelevante em qualquer situação — modelos antigos podem ter números diferentes, e a soma de vários eletrônicos ligados continuamente aumenta o chamado consumo fantasma —, mas, para uma TV e um micro-ondas, o valor pode não justificar a falta de praticidade.
O mito do consumo fantasma: de onde vem e quanto pesa de verdade
A ideia de que aparelhos em espera "roubam" energia nasceu nos anos 1990, quando televisores de tubo, videocassetes e fontes lineares consumiam de 5 a 20 watts em standby e o conjunto de uma casa podia responder por 10% da conta — dado que a Agência Internacional de Energia divulgou e que virou regra de bolso, repetida em campanhas de economia até hoje; desde então, regulação de eficiência na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil — o PBE do Inmetro e o selo Procel — obrigou fabricantes a limitar o standby a menos de 1 watt na maioria dos produtos, e fontes chaveadas modernas consomem frações disso. O cálculo do Canaltech mostra o resultado: 0,323 watt numa TV de 50 polegadas de 2026 é cem vezes menos que a TV de tubo de 1995, e a economia anual de R$ 3 é o custo de um pão. O micro-ondas pesa mais porque mantém o relógio e o painel acesos — 0,02 kWh por dia, ou cerca de 0,8 watt contínuo —, ainda pequeno. Onde o consumo fantasma continua relevante é em outra lista: roteadores e modems ligados 24 horas (5 a 15 W), decodificadores de TV por assinatura antigos (10 a 20 W), consoles de videogame em modo de espera rápido (5 a 10 W), carregadores de notebook deixados na tomada, ar-condicionado com controle remoto ativo e aquecedores de água com timer — que somados chegam a 30 ou 50 watts contínuos, ou R$ 20 a R$ 35 por mês; e, sobretudo, no uso ativo dos grandes vilões: chuveiro elétrico, ar-condicionado, geladeira velha e ferro de passar, que respondem por mais de 70% da conta residencial brasileira. Desplugar a TV é gesto simbólico; trocar a geladeira de 15 anos ou reduzir cinco minutos de banho quente é economia real.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a conta do Canaltech deveria estar em toda campanha de economia de energia. "Três reais por ano. É isso que a família ganha desplugando TV e micro-ondas todas as noites durante doze meses — com o trabalho de reprogramar o relógio e perder o timer da TV. O consumo fantasma existiu, nos anos 1990, e a regulação matou; o que sobra é mito repetido por quem não fez a conta. Enquanto isso, o chuveiro elétrico de 5.500 watts responde por um terço da conta e ninguém fala. Com o ONS alertando para térmicas e bandeira vermelha no El Niño, economizar energia importa — mas importa onde o consumo está: banho, ar-condicionado, geladeira velha. O portal registra a matemática e recomenda: deixe a TV na tomada e feche o chuveiro um minuto antes", avalia.
Os números do PBE: o que o Inmetro mede
O Programa Brasileiro de Etiquetagem testa e publica o consumo de eletrodomésticos em uso e em espera, base da etiqueta de eficiência que vai de A a E; os valores usados pelo Canaltech — 0,323 W para a TV, 0,02 kWh/dia para o micro-ondas — são os oficiais, disponíveis no site do instituto para qualquer modelo à venda no país.
A conta, passo a passo
TV: 0,323 W × 240 h ÷ 1.000 = 0,0775 kWh por mês; micro-ondas: 0,02 kWh ÷ 3 × 30 = 0,20 kWh por mês; total 0,278 kWh, que a tarifas de R$ 0,83 a R$ 0,97 por kWh custa R$ 0,23 a R$ 0,27. No ano, 3,376 kWh — R$ 2,80 a R$ 3,28. O micro-ondas responde por 72% porque mantém painel e relógio permanentemente acesos.
Por que o micro-ondas pesa mais que a TV
A TV moderna entra em modo de espera profundo, mantendo apenas o receptor do controle remoto; o micro-ondas mantém display digital e circuito de controle ativos — cerca de 0,8 W contínuo —, o que o torna, entre os dois, o maior consumidor em standby, ainda que irrisório em valor.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o exercício revela o que a tarifa brasileira faz com hábitos. "A energia brasileira é cara — R$ 0,90 por kWh em Fortaleza é preço europeu com renda latino-americana — e por isso o consumidor caça centavos onde não há. Desplugar TV, apagar led do roteador, tirar carregador da tomada: gestos que somam R$ 5 por ano. A tarifa alta, a bandeira vermelha e o El Niño exigem outra coisa: geladeira nova com selo A, chuveiro com potência menor ou aquecimento solar, ar-condicionado inverter. Isso custa dinheiro que a família de Araras nem sempre tem — e é aí que política pública, com financiamento e troca de eletrodomésticos velhos, faria mais que qualquer campanha. O portal registra: a conta é de quem paga, mas a solução não está na tomada da TV", observa.
Onde o consumo fantasma ainda importa
Roteador, modem, decodificador de TV, console em espera, carregadores permanentes, ar-condicionado em standby, aquecedor com timer, impressora ligada — juntos podem consumir 30 a 50 W contínuos, ou R$ 20 a R$ 35 por mês; réguas com interruptor ou tomadas inteligentes resolvem sem reprogramar relógio.
Os verdadeiros vilões da conta
Chuveiro elétrico (30% a 35% da conta em casas sem aquecimento solar), geladeira (20% a 30%, mais em modelos antigos), ar-condicionado (variável, até 40% no verão), ferro, máquina de lavar e secadora; reduzir um minuto de banho por pessoa economiza mais em um mês do que desplugar TV e micro-ondas em dez anos.
Aparelhos antigos: a exceção
Televisores de tubo, aparelhos de som dos anos 1990, videocassetes e fontes de transformador consomem de 5 a 20 W em espera; se a casa ainda os tem, desplugar faz diferença — e trocá-los, mais ainda. O selo Procel identifica os eficientes.
Bandeira vermelha e El Niño: o contexto de 2026
Com o ONS alertando para despacho total de térmicas e uso da reserva a partir de setembro, a conta de luz deve subir no verão; a economia que importa é a de grandes cargas — e a de horário, evitando picos entre 18h e 21h, quando a energia é mais cara para o sistema.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a matéria é jornalismo de serviço do melhor tipo. "Pegou a dúvida de todo mundo, os dados oficiais do Inmetro, fez a conta e deu o número: R$ 3 por ano. Acabou a discussão. É o que o portal tenta fazer com Araras: substituir palpite por número. E o número diz que desplugar TV é ritual, não economia. Que o leitor use a energia dessa preocupação para trocar o chuveiro ou a geladeira — aí sim, a conta cai, e o ONS agradece", analisa.
O cálculo sobre o impacto de retirar TV e micro-ondas da tomada durante a noite na conta de luz, com dados do Programa Brasileiro de Etiquetagem do Inmetro e tarifas de capitais brasileiras, foi publicado pelo Canaltech em 5 de setembro de 2026; a economia estimada é de R$ 0,23 a R$ 0,27 por mês e de R$ 2,80 a R$ 3,28 por ano.
Foto: Inmetro oficial (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.