Tecnologia

6G poderá funcionar como radar e detectar pessoas e objetos que nem estão conectados

Operadoras poderão vender capacidade computacional além de conectividade; aplicações vão de cidades inteligentes a veículos que "enxergam" riscos ocultos. Retorno do 5G ainda pesa na adoção.

6G poderá funcionar como radar e detectar pessoas e objetos que nem estão conectados

A chegada do 6G deve trazer mais do que velocidades maiores. Entre as tecnologias pesquisadas para a próxima geração de redes móveis está a possibilidade de a própria rede funcionar como uma espécie de radar, capaz de identificar objetos e pessoas ao redor — mesmo que não estejam conectados. A proposta integra uma mudança mais ampla: além de transmitir dados, a infraestrutura do 6G deve trabalhar de forma integrada com inteligência artificial, sensoriamento e processamento de informações. As primeiras redes comerciais são esperadas por volta de 2030, e o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), de Santa Rita do Sapucaí, em Minas Gerais, pesquisa a tecnologia desde 2020. As informações são do Canaltech.

Em entrevista durante o HackTown 2026, Henry Douglas Rodrigues, gerente executivo de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação do Inatel e do Centro de Competência Embrapii em Redes 5G e 6G (xGMobile), explicou que os novos casos de uso — e não a velocidade — são as principais diferenças esperadas em relação ao 5G.

ISAC: a rede que sente

A tecnologia chama-se sensoriamento integrado à comunicação — ISAC, na sigla em inglês. A ideia é aproveitar os próprios sinais da rede para obter informações sobre o ambiente: as ondas de rádio que transmitem dados também refletem em objetos e pessoas, e a análise dessas reflexões permite identificar presença, localização e movimento dentro da área de cobertura — sem que o alvo tenha celular ou qualquer dispositivo conectado. A infraestrutura de telecomunicações ganha função semelhante à de um sensor, com aplicações em cidades inteligentes, indústria e monitoramento de máquinas.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o ISAC é a novidade mais poderosa — e a mais delicada — do 6G. "Uma rede que detecta pessoas sem celular é radar urbano permanente. Serve para contar fluxo em praça, detectar queda de idoso em casa, alertar carro sobre pedestre atrás do muro — e serve para saber onde cada pessoa está, o tempo todo, sem que ela tenha aceitado nada. O 5G precisava do seu aparelho para te localizar; o 6G não vai precisar. A tecnologia é fascinante; a regulação vai precisar nascer junto com ela, ou vamos entregar às operadoras um poder de vigilância que nenhuma lei previu", avalia.

No trânsito: enxergar o que a câmera não vê

Uma das aplicações mais concretas é veicular. O sensoriamento pela rede pode ampliar a capacidade dos veículos de identificar riscos ao redor — inclusive em situações em que câmeras, radares e lidar embarcados não conseguem ver: o pedestre atrás do ônibus, a moto na curva cega, a criança que sai de trás do carro estacionado. A rede, com visão "de cima" e de vários ângulos, informaria ao veículo o que seus sensores não alcançam. É o complemento que a direção autônoma precisa para operar em cidades — e uma razão de as montadoras acompanharem a padronização do 6G.

IA na rede: operadora como provedora de computação

A segunda frente é a integração com inteligência artificial. A IA será usada no próprio funcionamento das redes — otimizando cobertura, tráfego e energia em tempo real — e a infraestrutura de telecomunicações passará a oferecer recursos para aplicações baseadas em IA, com parte do processamento acontecendo perto de onde os serviços são usados, na "borda" da rede. Isso muda o negócio das operadoras: além de conectividade, elas poderão vender capacidade computacional pela própria infraestrutura — concorrendo, em certa medida, com as nuvens de Amazon, Microsoft e Google no processamento de baixa latência.

Inatel: o Brasil na definição do padrão

As pesquisas brasileiras acontecem antes de o padrão do 6G estar definido — o que permite desenvolver e testar tecnologias enquanto as características da futura rede são discutidas nos fóruns internacionais. O projeto Brasil 6G, coordenado pelo Inatel, conta com uma plataforma de experimentação e comparação de tecnologias e inclui soluções para necessidades brasileiras, como ampliar a conectividade em áreas rurais e remotas — problema que o 5G não resolveu e que o 6G, com novas faixas de espectro e satélites integrados, promete atacar. O Centro de Competência Embrapii xGMobile financia a pesquisa com empresas.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, Santa Rita do Sapucaí é o ativo mais subestimado do Brasil em telecomunicações. "O Inatel forma engenheiro de telecom há 60 anos, tem laboratório de 5G e 6G, participa da padronização internacional e está numa cidade de 40 mil habitantes em Minas que virou 'Vale da Eletrônica'. Quando o 6G for definido, parte do que estará no padrão terá passado por lá. O Brasil não fabrica chip nem antena, mas pode estar na mesa onde se decide como a rede funciona — e o Inatel é a cadeira brasileira nessa mesa. Pesquisar desde 2020 para uma rede de 2030 é exatamente o horizonte certo", observa.

2030 é o horizonte — não a adoção

Transformar pesquisa em rede comercial depende de economia. Rodrigues lembra que as operadoras fizeram grandes investimentos na implantação do 5G e ainda buscam o retorno da geração atual — no Brasil, o leilão de 2021 custou bilhões e a cobertura ainda se expande. Por isso, embora 2030 seja o horizonte global para o início do 6G comercial, a existência da tecnologia não significa adoção imediata nem no mesmo ritmo em todos os mercados. É provável que o Brasil veja o 6G primeiro em aplicações industriais e em capitais, com expansão gradual ao longo da década seguinte.

O que o 5G prometeu e o que entregou

O 5G foi vendido com promessas de carro autônomo, cirurgia remota e indústria conectada; entregou, para a maioria dos usuários, internet mais rápida no celular. As aplicações transformadoras dependiam de redes "standalone", de espectro e de investimento que as operadoras adiaram. O 6G corre o risco de repetir o ciclo: tecnologia definida em laboratório, negócio que não fecha no campo. A diferença, segundo os pesquisadores, é que o ISAC e a IA na rede criam receitas novas — sensoriamento como serviço, computação de borda — que podem justificar o investimento além da conectividade.

Espectro: as faixas do 6G

Parte das capacidades do 6G — inclusive o sensoriamento — depende de novas faixas de frequência. Enquanto o 5G opera majoritariamente entre 3,5 GHz e as ondas milimétricas de 26 GHz, o 6G deve explorar faixas ainda mais altas, na casa de 100 GHz e acima, em que a resolução do sinal permite "enxergar" objetos pequenos, mas o alcance é curto e a penetração em paredes é baixa. A combinação com faixas baixas, para cobertura, e com satélites, para áreas remotas, é o que os padrões em discussão tentam equilibrar. Para o Brasil, com território continental e vazios de cobertura, a integração com satélite é a parte do padrão que mais interessa — e que o projeto Brasil 6G prioriza.

Privacidade: a discussão que precisa começar

Uma rede capaz de detectar pessoas não conectadas levanta questões que a LGPD e o marco regulatório de telecomunicações não previram: o sensoriamento de ambiente gera dado pessoal? Quem é o controlador — a operadora, o município, a empresa que contrata o serviço? Como se obtém consentimento de quem não tem dispositivo? A Anatel e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados terão de responder antes de 2030 — e a vantagem de o Brasil pesquisar o padrão é poder embutir as salvaguardas na tecnologia, e não apenas na lei.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o 6G é a chance de o Brasil não ser só consumidor. "Cada geração de rede móvel, o Brasil comprou pronta: equipamento europeu ou chinês, padrão definido fora, leilão de espectro e pronto. No 6G, o Inatel está na pesquisa desde o começo, com plataforma própria e foco em área rural — o problema que ninguém em Estocolmo ou Shenzhen vai resolver por nós. Se o país financiar isso até 2030, terá tecnologia com aplicação local e engenheiros que sabem por dentro como a rede funciona. É soberania tecnológica de verdade, feita em Santa Rita do Sapucaí, sem discurso", analisa.

O padrão técnico do 6G está em discussão nos organismos internacionais de telecomunicações, com definição prevista para o fim da década. O projeto Brasil 6G, coordenado pelo Inatel, mantém plataforma de experimentação aberta a parceiros acadêmicos e industriais.

Foto: Fronteira (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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