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Anel francês faz o que o Galaxy Ring não faz

Apresentados na IFA 2026, os anéis monitoram frequência cardíaca, temperatura da pele, sono e tendências de glicose; preços não foram revelados, e o Ring 2 partia de US$ 349.

Anel francês faz o que o Galaxy Ring não faz

A francesa Circular levou à IFA 2026 os novos Ring 3 Slim e Ring 3 Pro, anéis inteligentes que chegam com dois recursos pouco comuns na categoria: pagamentos por aproximação e alertas por vibração. A proposta é oferecer funções típicas de smartwatches num dispositivo menor e mais discreto — e garantir o que concorrentes como o Galaxy Ring, da Samsung, não oferecem. O Ring 3 Slim tem 5,9 mm de largura, 2,35 mm de espessura e pesa entre 1,9 e 3 gramas, conforme o tamanho, com estrutura externa de titânio e interior de epóxi; a bateria dura até 10 dias. As informações são do Canaltech.

O anel monitora recursos básicos de saúde — frequência cardíaca, temperatura da pele, atividade diária, estágios do sono — e acompanha tendências de glicose. A Circular não revelou preços nem disponibilidade; como referência, o Ring 2 partia de US$ 349, cerca de R$ 1.786, e a empresa indica que a nova geração pode custar menos.

Pagar com o anel

O principal diferencial é o pagamento: o Ring 3 Slim terá suporte a Visa e Mastercard por aproximação, permitindo compras sem tirar cartão ou celular do bolso. É função que relógios têm há anos e que anéis, por limitação de espaço para antena NFC e chip seguro, não tinham — o Galaxy Ring e o Oura não pagam. A Circular resolveu a engenharia num dispositivo de 3 gramas, o que, se funcionar de forma confiável, muda a categoria: o anel vira meio de pagamento que se usa dormindo e no banho.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o anel é o wearable que faltava. "Relógio é grande, pulseira é visível, anel é invisível. O problema do anel sempre foi fazer pouco: mede sono e passo, e só. A Circular colocou pagamento e vibração — as duas funções que fazem alguém tirar o relógio. Pagar o café encostando a mão e ser acordado sem som pelo anel é o tipo de conveniência que vicia. O Galaxy Ring, com todo o peso da Samsung, não faz nenhuma das duas. Uma startup francesa fez. Se o preço vier abaixo de US$ 349, é o produto de IFA que vai virar categoria", avalia.

Vibração como ferramenta de saúde

Diferentemente do smartwatch, que vibra para chamadas e notificações, a Circular aposta nos alertas como ferramenta de saúde e rotina: o anel funciona como alarme silencioso — acorda o usuário sem som, sem acordar quem dorme ao lado —, cria lembretes para medicamentos e emite alerta físico se identificar possíveis problemas nos dados monitorados, como frequência cardíaca anormal. É uso de vibração que outros anéis, sem motor, não conseguem oferecer.

Ring 3 Pro: ECG com aval da FDA

Para monitoramento mais completo, o Ring 3 Pro tem construção totalmente em titânio, é maior e mais pesado que o Slim, e acomoda bateria de até 12 dias. Além dos recursos do modelo compacto, traz eletrocardiograma aprovado pela FDA, agência americana, capaz de identificar sinais de fibrilação atrial — a arritmia mais comum e causa de AVC —, e sensores voltados ao acompanhamento de tendências de pressão arterial. ECG com aprovação regulatória num anel é marco: até aqui, era exclusividade de relógios de Apple, Samsung e Withings.

Tendências de glicose: o que é e o que não é

O "acompanhamento de tendências de glicose" não é medição de glicemia — nenhum wearable não invasivo mede açúcar no sangue com precisão clínica, apesar de anos de tentativas. Trata-se de estimativa baseada em correlações de frequência cardíaca, temperatura e atividade, útil como indicador de padrão, não como substituto de glicosímetro. A Circular usa a expressão com cautela; o consumidor deve ler com a mesma.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o Pro é o produto médico disfarçado de joia. "ECG aprovado pela FDA para fibrilação atrial, num anel de titânio que dura 12 dias. Isso é dispositivo de monitoramento cardíaco contínuo — o que cardiologista prescreve com Holter de 24 horas, o paciente usa o ano inteiro sem perceber. A pressão arterial 'em tendência' é o próximo passo, e a Circular está na frente do Oura nisso. O Brasil, com 30 milhões de hipertensos e SUS sem como acompanhar, deveria olhar anéis como esse como política pública em cinco anos. Hoje é gadget de IFA; em 2030 é prescrição", observa.

Como cabe NFC de pagamento num anel

O pagamento por aproximação exige antena NFC, elemento seguro certificado pelas bandeiras e energia para a transação — componentes que, num relógio, ocupam espaço que o anel não tem. A Circular não detalhou a engenharia, mas a solução provável envolve antena enrolada no próprio aro de titânio e chip seguro miniaturizado, com a transação autorizada por gesto ou pelo app. A certificação de Visa e Mastercard é o passo mais lento: cada bandeira homologa o dispositivo, e depois cada banco emissor precisa habilitar — o que explica por que "suporte a Visa e Mastercard" não significa funcionar em todo lugar no lançamento.

Fibrilação atrial: por que o ECG importa

A fibrilação atrial afeta cerca de 2% da população adulta — mais de 5% acima dos 65 anos — e é responsável por um em cada cinco AVCs, muitas vezes sem sintoma antes do evento. O ECG de derivação única em wearables, aprovado pela FDA para o Apple Watch em 2018, detecta o ritmo irregular e orienta o usuário a procurar médico; estudos com centenas de milhares de participantes mostraram que a detecção precoce reduz eventos graves. Num anel usado 24 horas, inclusive à noite, quando a arritmia costuma aparecer, a cobertura é maior que a de um relógio tirado para dormir.

Sono e prontidão: o padrão Oura

O Oura criou a categoria com a métrica de "prontidão" — um índice diário que combina sono, variabilidade da frequência cardíaca, temperatura e atividade para dizer se o corpo está recuperado —, adotada depois por Samsung e Circular. O Ring 3 usa os mesmos sensores e promete análise semelhante, sem assinatura; a diferença está no algoritmo, área em que o Oura tem anos de dados e a Circular, menos. Para o usuário comum, a precisão de ambos é suficiente; para atletas, o Oura ainda é referência.

Galaxy Ring e Oura: a concorrência

O Galaxy Ring, lançado pela Samsung em 2024, trouxe a marca ao segmento com integração ao Galaxy Watch e ao app Health, mas sem pagamento, sem vibração e sem ECG; o Oura, líder do mercado, tem os melhores algoritmos de sono e prontidão, cobra assinatura mensal e também não paga nem vibra. A Circular, fundada em 2018 em Paris, é a terceira via: menos escala, mais funções. A aposta é que pagamento e vibração sejam suficientes para atrair quem já tem relógio e quer trocar.

Bateria: 10 e 12 dias

Dez dias no Slim e 12 no Pro são autonomias competitivas — o Oura Ring 4 dura até 8; o Galaxy Ring, até 7 — especialmente com motor de vibração e NFC, que consomem energia. O carregamento é por base própria; a Circular não detalhou tempo de recarga. Para o usuário, significa carregar uma vez a cada dez dias, num dispositivo que não se tira do dedo.

Tamanhos e ajuste

Anéis inteligentes exigem tamanho exato — não há ajuste como em pulseira —, e fabricantes enviam kit de medição antes da compra. A Circular oferece a faixa habitual de tamanhos, com o peso variando de 1,9 a 3 gramas conforme o aro. O epóxi interno abriga os sensores e a bateria; o titânio externo dá resistência a riscos e água. A espessura de 2,35 mm é das menores da categoria.

Preço e chegada

Sem preço anunciado, a referência é o Ring 2, a US$ 349; a Circular sinaliza valor inferior para a nova geração, o que colocaria o Slim abaixo de US$ 300 — faixa do Galaxy Ring e do Oura sem assinatura. No Brasil, anéis inteligentes chegam por importação, com preços acima de R$ 2 mil; a Circular não tem distribuição oficial no país.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o anel francês é o produto que a Apple ainda não fez. "A Apple tem o relógio e os fones; não tem o anel. A Samsung fez o Galaxy Ring e ficou aquém. O Oura tem o algoritmo e cobra mensalidade. A Circular chega com pagamento, vibração e ECG — o pacote que qualquer um dos três poderia ter feito e não fez. O smart ring é a categoria de 2027, e o Ring 3 mostrou o que ela precisa ter. Se a Circular sobreviver ao lançamento, será comprada por alguém grande. Se não, terá desenhado o produto que o grande vai lançar", analisa.

Os Circular Ring 3 Slim e Ring 3 Pro foram apresentados na IFA 2026, em Berlim, em 4 de setembro. Preços e disponibilidade não foram divulgados; o Circular Ring 2 tinha preço inicial de US$ 349.

Foto: Adolph Kohn (CC BY 4.0) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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