A Anthropic, uma das principais empresas de inteligência artificial dos Estados Unidos e desenvolvedora do assistente Claude, adiou os planos para sua oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês). Segundo informações da agência Reuters reproduzidas pelo Olhar Digital, a companhia agora deve iniciar a campanha de lançamento — o chamado roadshow, em que os executivos apresentam a empresa a investidores institucionais — em meados de outubro, com a listagem em bolsa prevista para poucos dias antes das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para novembro.
O cronograma original previa a divulgação do prospecto de IPO no início de setembro. Agora, a expectativa é que o documento seja apresentado apenas no fim do mês, e pessoas familiarizadas com o assunto ouvidas pela Reuters ressalvam que o calendário ainda não é definitivo e pode sofrer novas alterações. A Anthropic não comentou as informações.
Uma avaliação de US$ 2 trilhões
O que torna o adiamento relevante para além do mercado de tecnologia é o tamanho da operação. A Anthropic pode chegar à bolsa com uma avaliação de aproximadamente US$ 2 trilhões — o equivalente a cerca de R$ 10,7 trilhões —, o que faria da oferta uma das maiores da história do mercado de capitais e um termômetro decisivo do apetite dos investidores pelo setor de inteligência artificial.
Para dimensionar o valor: uma capitalização dessa ordem colocaria a Anthropic, já na estreia, entre as empresas mais valiosas do mundo, ao lado de gigantes consolidadas há décadas em tecnologia, energia e finanças. E isso para uma companhia fundada há poucos anos por ex-pesquisadores da OpenAI, cujo produto principal — o Claude — chegou ao mercado apenas em 2023.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o número em si já é uma mensagem. "Dois trilhões de dólares para uma empresa que ainda queima caixa em escala industrial e cuja receita depende de um mercado que está sendo inventado enquanto cresce. O IPO da Anthropic não é só uma captação; é o mercado dizendo quanto acredita que a inteligência artificial vale como negócio, e não apenas como tecnologia. É a aposta mais cara já feita nessa pergunta", avalia.
Por que o calendário importa
A escolha de listar a empresa dias antes das eleições de meio de mandato não é detalhe menor. Aberturas de capital de grande porte dependem de uma janela de mercado favorável, e períodos eleitorais nos Estados Unidos costumam trazer volatilidade adicional aos índices, à medida que investidores tentam antecipar mudanças regulatórias e fiscais conforme o resultado das urnas.
Ao posicionar a listagem antes do pleito, a Anthropic e seus bancos coordenadores buscam, em tese, capturar o interesse dos investidores antes que a incerteza política contamine o humor do mercado. O risco, evidentemente, é o contrário: uma deterioração das condições no início de outubro poderia forçar novo adiamento — e cada adiamento sucessivo tende a alimentar especulações sobre a saúde da operação.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o adiamento de setembro para outubro deve ser lido com naturalidade. "IPO desse tamanho se ajusta ao mercado, não o contrário. Um mês de diferença no prospecto não muda a tese de investimento. O que os analistas vão olhar de verdade é o prospecto quando ele sair: quanto a empresa fatura, quanto gasta em computação e qual é o caminho para a lucratividade. Até lá, tudo é especulação sobre calendário", observa.
A corrida das gigantes de IA para a bolsa
A possível abertura de capital da Anthropic acontece em um momento de intensa movimentação entre as empresas do setor. A OpenAI, criadora do ChatGPT e principal concorrente direta da Anthropic, também é apontada como candidata a realizar uma oferta pública de ações, segundo o Olhar Digital. Se as duas companhias chegarem à bolsa em intervalo curto, o mercado terá, pela primeira vez, dois dos maiores laboratórios de inteligência artificial do mundo negociados publicamente e comparáveis lado a lado por investidores.
O mercado de capitais já absorveu recentemente outra operação de dimensão semelhante: a SpaceX, empresa aeroespacial de Elon Musk, estreou na bolsa com avaliação de aproximadamente US$ 1,77 trilhão, cerca de R$ 9,47 trilhões. A eventual avaliação de US$ 2 trilhões da Anthropic superaria esse patamar, transformando sua abertura de capital em um dos eventos mais relevantes do mercado de ações em anos.
A comparação entre os dois casos é instrutiva. A SpaceX chegou à bolsa com um negócio maduro, contratos governamentais de longo prazo e uma operação de lançamentos que já domina seu mercado. A Anthropic, por sua vez, disputa espaço em um setor no qual a liderança tecnológica muda a cada novo modelo lançado, e no qual os custos de infraestrutura — chips, data centers, energia — crescem em ritmo comparável ao da receita.
O que a Anthropic precisa provar aos investidores
Quando o prospecto for divulgado, algumas perguntas centrais estarão no radar dos analistas. A primeira é a estrutura de receita: qual parcela vem de assinaturas de consumidores finais, qual vem de contratos corporativos e qual depende de parcerias com grandes provedores de nuvem, que historicamente foram também investidores da companhia. A segunda é a dependência de infraestrutura de terceiros para treinar e operar seus modelos, um custo que define a margem do negócio.
A terceira pergunta é regulatória. A inteligência artificial é hoje um dos temas mais sensíveis para governos em todo o mundo, e a Anthropic construiu sua identidade pública justamente em torno da agenda de segurança e de desenvolvimento responsável da tecnologia. Como empresa listada, ela passará a responder também a acionistas que esperam crescimento — e o equilíbrio entre essas duas expectativas será acompanhado de perto.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, esse último ponto é o mais interessante. "A Anthropic sempre se apresentou como a empresa de IA que prefere ir devagar para ir com segurança. A bolsa não costuma recompensar quem vai devagar. Vai ser revelador ver como a companhia reconcilia o discurso de cautela com a pressão trimestral por resultado. Esse é o teste que nenhum prospecto responde de antemão", analisa.
O peso da infraestrutura no custo do negócio
Um ponto que diferencia as empresas de inteligência artificial das gerações anteriores de companhias de tecnologia é a intensidade de capital. Enquanto redes sociais e serviços de software escalavam com custo marginal próximo de zero, treinar e operar modelos de linguagem exige aquisição contínua de chips especializados, construção ou aluguel de data centers e consumo de energia em volumes que crescem com cada nova versão do produto. É por isso que os grandes laboratórios de IA mantiveram, até aqui, dependência de parcerias com provedores de nuvem que também atuam como investidores.
Para um investidor que avalia o IPO, essa estrutura levanta uma questão simples: a receita cresce mais rápido do que o custo de computação? O prospecto deverá responder a isso com números, e é essa relação — mais do que o valor absoluto da avaliação — que tende a definir se os US$ 2 trilhões se sustentam depois da estreia.
Impacto para o mercado brasileiro
Embora a listagem ocorra nos Estados Unidos, os efeitos de um IPO dessa magnitude chegam ao investidor brasileiro por caminhos diretos e indiretos. De forma direta, via BDRs e fundos internacionais que replicam índices de tecnologia. De forma indireta, pela sinalização que uma operação bem-sucedida — ou fracassada — envia sobre o valor de todo o ecossistema de inteligência artificial, incluindo as empresas brasileiras que constroem produtos sobre modelos como o Claude e o ChatGPT.
Há ainda o efeito sobre o custo da tecnologia. Empresas de IA capitalizadas tendem a investir mais em infraestrutura e em expansão internacional, o que historicamente se traduz em mais opções e preços mais competitivos para clientes corporativos fora dos Estados Unidos, inclusive no Brasil.
Jaime Fernando Reis Martins resume o que está em jogo: "Nos próximos 60 dias, o mercado vai decidir se a inteligência artificial é a nova infraestrutura da economia ou a bolha mais bem financiada da história. O IPO da Anthropic é o momento em que essa discussão sai dos debates de especialistas e vira preço de tela. Não é exagero dizer que é um dos eventos financeiros mais importantes da década".
O cronograma atualizado prevê o prospecto no fim de setembro, o início do roadshow em meados de outubro e a listagem antes das eleições de novembro. Todas as datas, segundo as fontes ouvidas pela Reuters, permanecem sujeitas a alteração.
Foto: Department for Science, Innovation and Technology (CC BY 2.0) via Wikimedia Commons.