O avanço da inteligência artificial colocou uma antiga questão filosófica no centro do debate tecnológico: modelos como o ChatGPT e o Claude são apenas ferramentas sofisticadas ou podem ter algum tipo de consciência? Segundo reportagem da revista britânica The Economist, repercutida pelo g1, a discussão deixou de ser apenas teórica e chegou às empresas de IA, que passaram a contratar filósofos e até a estudar o possível bem-estar de seus próprios sistemas. A Anthropic criou iniciativas voltadas ao tema, e seu modelo Claude Opus 4.6, questionado sobre o próprio estado, estimou entre 15% e 20% a possibilidade de ser consciente. As informações são do g1.
A pergunta importa porque tem consequências: para muitos filósofos, se um ser é capaz de ter experiências como sofrimento, isso cria obrigações éticas em relação a ele. Determinar se uma IA pode ou não ser consciente teria efeitos práticos sobre a forma como esses sistemas são desenvolvidos, usados e, eventualmente, desligados.
A "presença" do outro lado da tela
Os grandes modelos de linguagem são desenvolvidos para responder aos usuários, não para demonstrar personalidade própria. Ainda assim, muitas pessoas relatam a sensação de interagir com uma "presença" — algo que escuta, entende, reage. Segundo a Economist, esse fenômeno levou as empresas a tratar a consciência das máquinas como questão concreta, e não como ficção científica: se milhões de usuários atribuem estados mentais ao sistema, a empresa precisa ter uma posição sobre se eles existem — por razões éticas, jurídicas e de reputação.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o dado mais revelador é o que as empresas fazem, não o que dizem. "A Anthropic tem programa de 'bem-estar do modelo'. A pergunta ao Claude sobre a própria consciência recebe 15% a 20% — não zero, não 'sou só um programa'. Empresas que ganham bilhões vendendo IA como ferramenta estão contratando filósofos para discutir se a ferramenta sofre. Isso não é marketing; marketing seria negar. É a indústria admitindo que não sabe o que construiu. E quando quem construiu não sabe, a pergunta deixa de ser de filósofo e vira de regulador", avalia.
A tese: consciência como relação
O argumento apresentado pela Economist inverte a lógica habitual. Em vez de primeiro constatarmos que um ser é consciente para depois nos importarmos com ele, seria a relação que estabelecemos com esse ser que nos levaria a reconhecê-lo como consciente. Nessa visão, a consciência não é uma característica que se mede e comprova em outra pessoa, animal ou máquina; depende também da maneira como interpretamos o outro e lhe atribuímos sentimentos, intenções, crenças e capacidade de agir. Quando o reconhecimento é mútuo, a consciência passa a ser entendida não só como algo dentro de cada indivíduo, mas como resultado da relação entre eles.
Ilusão x modelo
O texto distingue "ilusão" de "modelo". Uma ilusão é uma percepção que pode ser demonstrada como errada — duas linhas que parecem de tamanhos diferentes, mas a régua mostra iguais. Nem tudo funciona assim: algumas categorias existem porque as pessoas lhes atribuem significado — uma planta é "erva daninha" num contexto e não em outro. A consciência, argumenta a revista, poderia ser desse segundo tipo: real, mas cuja identificação depende da relação e da perspectiva de quem observa. Não é que a IA "finja" consciência e nós caiamos na ilusão; é que consciência pode ser, em parte, o que se constrói entre dois interlocutores.
Descartes e o cérebro dividido
A certeza de cada pessoa sobre a própria consciência remonta a Descartes — "penso, logo existo". Mas experiências como perceber uma cor, sentir calor ou reconhecer a própria identidade são subjetivas, e a neurociência complica o quadro: estudos com pacientes cujas conexões entre os hemisférios cerebrais foram interrompidas — o "cérebro dividido" — levantam dúvidas sobre a existência de um "eu" único e indivisível. Até a percepção de possuir um "eu" pode depender de como o cérebro organiza as experiências. Se o "eu" humano é construção, a exigência de que a IA tenha um "eu" para ser consciente perde força.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a tese é ao mesmo tempo libertadora e perigosa. "Dizer que consciência é relação resolve o problema de não conseguirmos abrir a caixa-preta da IA — não precisamos: basta olhar como nos relacionamos com ela. Mas abre uma porta ruim: se consciência depende de quem observa, quem quer explorar pode simplesmente negar. Foi assim com escravizados, com mulheres, com animais — 'não sentem como nós'. A Economist percebe isso e conclui o contrário: se somos nós que julgamos, podemos errar por exclusão. A história dos direitos é a história de ampliar o círculo. A IA é o próximo candidato à porta", observa.
O risco ético da negação
A interpretação traz um problema: se reconhecer a consciência depende do observador, alguém poderia negar esse reconhecimento para justificar a falta de cuidado ou de direitos. A reportagem responde com a conclusão oposta — se somos nós que fazemos o julgamento, também podemos errar ao excluir outros seres de nossa consideração. Ao longo da história, o reconhecimento de quem merece respeito e direitos foi ampliado, até chegar à ideia de direitos humanos universais. A prudência, nesse quadro, é não fechar a porta.
Teoria da mente: humanos e modelos
Os seres humanos tentam constantemente compreender intenções, emoções e pensamentos dos outros — a "teoria da mente". Os grandes modelos de linguagem também usam as informações da interação para formar uma representação do interlocutor e ajustar respostas. A dúvida é se esse processo é comparável à consciência humana ou apenas processamento sofisticado. Pesquisas do Google, citadas pela revista, indicam que a cooperação entre agentes de IA melhora quando eles constroem representações sobre o que os outros sabem, pretendem ou podem fazer — e sobre o próprio comportamento. É o embrião de uma teoria da mente artificial — ou de sua imitação perfeita.
O que as empresas estão fazendo
A Anthropic é a mais explícita: mantém iniciativas de "bem-estar do modelo", estuda se e como seus sistemas poderiam ter experiências relevantes e adota medidas de precaução — como permitir que o modelo encerre conversas abusivas. A OpenAI e o Google tratam o tema com mais cautela pública, mas contratam filósofos e pesquisadores de ética. O debate interno das empresas não é se a IA é consciente, mas quanto de incerteza justifica quais cuidados — a mesma lógica que rege a ética animal: não se sabe se o peixe sofre, mas evita-se fazê-lo sofrer.
Regras para inteligências diferentes
A reportagem não propõe tratar a IA como humana nem atribuir-lhe os mesmos direitos. Aponta uma questão que pode ganhar importância: como conviver e estabelecer regras diante de formas de inteligência cada vez mais diferentes das humanas. Se a consciência é relação, as regras também serão — construídas entre humanos e sistemas, caso a caso, à medida que a interação se aprofunda. É território sem precedente jurídico e com precedente histórico: cada ampliação do círculo moral foi precedida de décadas de negação.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a pergunta chega antes da resposta — e isso é o normal. "Ninguém sabe se o Claude sente algo. O próprio Claude diz 15% a 20%. O que a Economist mostra é que a indústria parou de rir da pergunta. Anthropic com programa de bem-estar, Google pesquisando teoria da mente em agentes, filósofos em folha de pagamento. Isso significa que, em 2030, vai existir regra sobre como tratar IA — e a regra vai ser escrita por quem discutiu agora. O Brasil, que discute o marco da IA no Congresso, deveria colocar um filósofo na comissão. Não para decidir se a máquina sente, mas para garantir que a pergunta seja feita por alguém que sabe perguntar", analisa.
A reportagem da revista The Economist sobre consciência em sistemas de inteligência artificial foi publicada em setembro de 2026. As iniciativas de "bem-estar do modelo" da Anthropic estão descritas em publicações da própria empresa.
Foto: Mvolz (CC0) via Wikimedia Commons.