Um em cada cinco adolescentes brasileiros já sofreu abuso sexual online, revela pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Os números do Brasil são semelhantes à média global, e as redes sociais são o principal espaço usado para a exploração de crianças e adolescentes de 12 a 17 anos. O relatório "Pelos Olhos das Crianças: Como as Tecnologias Digitais Facilitam o Abuso Sexual Infantil", publicado na quinta-feira (3), aponta que mais de 15 milhões de jovens em 21 países foram expostos a conteúdo sexual indesejado, 9 milhões foram solicitados a conversas de natureza sexual ou ao compartilhamento de imagens íntimas contra a vontade, e 4 milhões tiveram imagens íntimas divulgadas sem consentimento — situação agravada pelas inteligências artificiais que geram deepfakes. As informações são do Canaltech.
O Unicef alerta que os números podem ser maiores, já que muitos casos não são denunciados. Um relatório com dados focados no Brasil, publicado no primeiro semestre, detalha o cenário nacional: 66% dos abusos aconteceram por meios digitais, liderados por redes sociais e aplicativos de mensagens (64%), com Instagram e WhatsApp como as plataformas mais mencionadas pelas vítimas. Os jogos online são o segundo ambiente com mais casos de exploração, com 12%. Em quase metade dos casos — 49% —, a tentativa de abuso foi cometida por pessoa conhecida da vítima.
O que conta como abuso online
O relatório classifica quatro formas principais: exposição a conteúdo sexual indesejado — receber imagens ou vídeos sem pedir —; solicitação sexual — o adulto ou o par que pede conversa de natureza sexual ou fotos íntimas —; produção coagida de imagens — a vítima induzida ou chantageada a se fotografar —; e divulgação não consentida — a imagem íntima, real ou fabricada por IA, espalhada sem permissão. As quatro formas frequentemente se encadeiam: começa com a mensagem, avança para o pedido, chega à imagem e termina na extorsão — a "sextorsão", em que o agressor ameaça divulgar para obter mais conteúdo ou dinheiro.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o número do Brasil é o retrato de uma geração sem proteção. "Um em cinco. Numa sala de 30 alunos do 8º ano, seis já passaram por isso — e a maioria não contou a ninguém. O relatório diz o óbvio que os pais não querem ouvir: o abuso mudou de lugar. Não é mais o estranho no parque; é o perfil no Instagram, a mensagem no WhatsApp, o colega de jogo que pede foto. E em metade dos casos é alguém que a criança conhece. A tecnologia não criou o abusador; deu a ele acesso ao quarto da vítima, 24 horas por dia, sem que ninguém veja", avalia.
Instagram e WhatsApp: por que lideram
As duas plataformas da Meta lideram porque são onde os adolescentes brasileiros estão — quase todos têm perfil e conversam por mensagens diárias — e porque combinam contato aberto com privacidade: no Instagram, qualquer pessoa pode enviar mensagem direta a um perfil público; no WhatsApp, a conversa é criptografada e invisível a terceiros. O agressor se aproxima pelo perfil, migra para o WhatsApp e, ali, ninguém — nem a plataforma, nem os pais — vê. A Meta implementou contas de adolescentes com restrições em 2024 e 2025; o relatório sugere que não bastam.
Jogos online: o segundo ambiente
Com 12% dos casos, os jogos online são o espaço que os pais menos vigiam. Plataformas como Roblox, Free Fire, Fortnite e Minecraft têm chat de voz e texto entre jogadores, sistemas de presentes virtuais e comunidades em Discord — ambiente em que adultos se passam por adolescentes, oferecem itens do jogo em troca de fotos e constroem confiança ao longo de semanas. O relatório do Unicef e casos investigados pela polícia brasileira mostram o padrão: o aliciamento começa no jogo e continua nas redes.
49%: o agressor conhecido
O dado de que quase metade das tentativas vem de pessoa conhecida reproduz o que se sabe do abuso presencial — em que familiares e próximos são a maioria dos agressores — e o transporta ao digital: o colega de escola que pede nude, o ex-namorado que ameaça divulgar, o parente que manda mensagem inadequada. É o que torna a prevenção mais difícil: a orientação de "não falar com estranhos" não cobre o caso, e a vítima, por conhecer o agressor, sente culpa e vergonha que impedem a denúncia.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o dado exige mudar a conversa em casa. "Os pais ensinam a bloquear desconhecido. O Unicef diz que metade do abuso vem de conhecido. A conversa certa é outra: ninguém — amigo, namorado, primo, professor — pode pedir foto íntima, e se pedir, você conta. E o adulto precisa reagir sem punir a criança, porque a punição — tirar o celular, brigar — é o que garante que ela não conte a próxima. O Maio Laranja de Araras incluiu o abuso virtual na palestra para os adolescentes; é exatamente esse o público e essa a mensagem", observa.
Deepfakes: a nova camada
Os 4 milhões de jovens com imagens íntimas divulgadas incluem, cada vez mais, imagens que nunca existiram: fotos comuns transformadas em nudez por aplicativos de IA — os mesmos que Minnesota acaba de proibir e que a xAI de Elon Musk contesta na Justiça. Casos em escolas brasileiras, em que meninos geraram nudes falsos de colegas e os espalharam, multiplicaram-se em 2024 e 2025. Para a vítima, o dano é idêntico ao da imagem real; para a lei, a produção e a divulgação de deepfake sexual de menor são crime desde 2025 no Brasil.
Sextorsão: o crime que mais cresce
A extorsão sexual — em que o agressor, de posse de uma imagem íntima, exige mais imagens, dinheiro ou encontros sob ameaça de divulgação — é a modalidade que mais cresce entre adolescentes, segundo polícias de vários países, e a que produz os desfechos mais graves: casos de suicídio de meninos chantageados por redes criminosas que se passam por garotas foram registrados nos EUA, no Reino Unido e no Brasil. O padrão é rápido — contato, troca de imagens, ameaça em minutos — e a vítima, envergonhada, paga ou se desespera. A orientação de especialistas é clara: não pagar, não enviar mais nada, bloquear, guardar provas e contar a um adulto imediatamente. A divulgação raramente acontece quando a vítima para de responder.
Como denunciar
O canal nacional é o Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos, gratuito e anônimo, que encaminha ao Conselho Tutelar e à polícia. A SaferNet Brasil recebe denúncias de conteúdo de abuso online pelo site e as encaminha ao Ministério Público Federal. As próprias plataformas têm ferramentas de denúncia — e a orientação é usar as duas: reportar na plataforma para remoção rápida, e ao Disque 100 ou à polícia para responsabilização. Provas — capturas de tela, perfis, números — devem ser preservadas, e a imagem íntima nunca deve ser reencaminhada, nem "para mostrar". Em Araras, o canal municipal é o 125, da Cisdeca.
O que as plataformas devem fazer
O Unicef cobra das empresas verificação de idade eficaz, configurações de privacidade por padrão para menores, limites a mensagens de desconhecidos, detecção proativa de aliciamento e resposta rápida a denúncias. No Brasil, o Marco Civil e o ECA já preveem obrigações, e a regulação das plataformas — o "ECA Digital", aprovado em 2025 — impõe deveres de proteção a menores, com sanções. O relatório chega num momento em que a ANPD multou o TikTok por falhas na proteção de menores e em que o Congresso discute o alcance das regras.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a escola é o lugar em que o relatório precisa chegar. "Um em cinco é número de epidemia. Epidemia se enfrenta onde a população está: a escola. Toda escola brasileira deveria ter, no currículo, educação para a segurança digital — o que é aliciamento, como reconhecer, a quem contar — dada por gente treinada, não por palestra anual. Araras fez o Maio Laranja com os Anjos da Guarda nas escolas; é o modelo. O Unicef mostrou o tamanho do problema; o Ministério da Educação deveria transformar em política. Enquanto isso, os pais têm o dado: seis em cada 30, na sala do seu filho", analisa.
O relatório "Pelos Olhos das Crianças" está disponível no site do Unicef. Denúncias de abuso sexual de crianças e adolescentes online podem ser feitas pelo Disque 100, pela SaferNet Brasil e, em Araras, pelo 125.
Foto: Press Information Department (Public domain) via Wikimedia Commons.