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Wikipédia perdeu cerca de 100 milhões de visitas mensais após os resumos de IA do Google

Pesquisa preliminar compara tráfego da Wikipédia em inglês antes e depois das AI Overviews; Google contesta metodologia. Pew mostra que cliques caem de 15% para 8% quando o resumo aparece.

Wikipédia perdeu cerca de 100 milhões de visitas mensais após os resumos de IA do Google

A Wikipédia em inglês passou a receber cerca de 100 milhões de visitas mensais a menos depois que o Google lançou as AI Overviews — os resumos gerados por inteligência artificial que aparecem no topo dos resultados de busca —, segundo estudo de pesquisadores da Universidade de Washington. O trabalho, ainda preliminar e sem revisão por pares, comparou o tráfego da versão em inglês da enciclopédia após maio de 2024, quando o recurso estreou nos Estados Unidos, com o de outros idiomas: em relação à versão em alemão, a queda foi de 5,45%; em relação à francesa, de 4,82%. A estimativa é de 100,27 milhões de visitas mensais perdidas. O Google contesta a metodologia. As informações são do Tecnoblog, com base em reportagem do UOL Tilt.

As AI Overviews são textos que o Google gera com IA a partir de informações da web: a ferramenta consulta sites, sintetiza uma resposta e a exibe acima dos links, com referências às fontes. No Brasil, o recurso chegou em agosto de 2024, como "Visão geral criada por IA". Para o usuário, é conveniência — a resposta sem clique; para os sites que alimentam o resumo, é perda de audiência.

O que o estudo mediu

A comparação entre idiomas é o método: como as AI Overviews estrearam primeiro em inglês e nos Estados Unidos, a Wikipédia em inglês serviria de "grupo tratado" e as versões em alemão e francês, ainda sem o recurso, de "grupo de controle". A diferença de trajetória — a queda relativa de 5% — seria o efeito dos resumos. Os autores reconhecem limitações: apenas cerca de 40% do tráfego da Wikipédia em inglês vem dos EUA, e os dados de acesso reúnem todos os buscadores, não só o Google. A pesquisadora Hema Yoganarasimhan pondera que os concorrentes têm fatia muito pequena do tráfego total.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o número exato importa menos que a direção. "Se foram 100 milhões ou 60 milhões de visitas, o Google vai discutir; que a Wikipédia perde audiência para o resumo de IA, ninguém discute mais — a própria fundação disse que caiu 8% no ano. O ponto é o círculo: o Google treina e alimenta o resumo com a Wikipédia, o resumo substitui a visita à Wikipédia, e a Wikipédia, sem visita, perde editor voluntário e doação. A enciclopédia que a IA usa como fonte é a que a IA está esvaziando", avalia.

A resposta do Google

Procurado pelo UOL Tilt, o Google apontou que o estudo não considera seu buscador separadamente e alegou inconsistências nos dados. A empresa sustenta, desde o lançamento das AI Overviews, que o recurso "gera tráfego de qualidade" para os sites citados e que os cliques a partir do resumo são mais engajados. Editores e pesquisadores discordam, e os números independentes disponíveis apontam na direção oposta.

Pew: de 15% para 8% de cliques

O Pew Research Center analisou o histórico de navegação de 900 adultos americanos que concordaram em compartilhá-lo. Quando o Google não exibiu resumo de IA, 15% das visitas à busca resultaram em clique em algum link; quando o resumo apareceu, o índice caiu para 8%. As visitas encerradas sem nenhum clique subiram de 16% para 26% na presença do resumo. Em outras palavras: com AI Overview, quase metade dos cliques desaparece e um quarto das buscas termina ali mesmo. É o "zero-click" que editores de todo o mundo temem — e que o estudo da Wikipédia quantifica para o maior site de referência da web.

ChatGPT: o outro concorrente

Não é só o Google. Pesquisadores do MIT e de outras instituições identificaram que alguns artigos da Wikipédia perderam mais tráfego que outros — e a explicação pode estar no ChatGPT: quando a resposta do chatbot da OpenAI é parecida com o artigo correspondente, o impacto é maior. A implicação vai além da audiência: menos visitas significam menos contribuições voluntárias para essas páginas, o que degrada o conteúdo que a própria IA usa. A Wikimedia Foundation reportou queda de 8% no tráfego humano na comparação anual, em dados de outubro de 2025, atribuída à popularização da IA generativa.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a Wikipédia é o canário da mina. "A Wikipédia não vende nada, não tem anúncio, não depende de clique para faturar. Ainda assim está perdendo — e o que perde é o editor, que só edita o que as pessoas leem. Se o site mais resiliente da web sente o resumo de IA, imagine o jornal regional, o blog especializado, o site de receita. A estimativa dos autores é de US$ 37 milhões por ano de perda para uma publicação do tamanho da Wikipédia. Multiplique isso pela web inteira e o modelo de conteúdo aberto financiado por audiência acabou", observa.

Robôs de treinamento: o custo escondido

A fundação responsável pela Wikipédia acrescenta outro dado: o acesso por robôs usados para treinar modelos de IA representa 65% do tipo mais caro de tráfego — aquele que exige extrair informações que não estão em cache, mas armazenadas em data centers. Ou seja, a Wikipédia paga mais caro para servir as empresas de IA que a copiam do que para servir leitores humanos, e recebe menos visitas humanas em troca. É a assimetria que a fundação vem denunciando e que motiva pedidos de remuneração ou de acordos de licenciamento com as big techs.

Como as AI Overviews escolhem fontes

O resumo de IA do Google é gerado a partir de páginas que o buscador considera relevantes para a consulta — em geral as mesmas que apareceriam nos primeiros resultados. A Wikipédia, por sua autoridade e pela estrutura de seus artigos, está entre as fontes mais usadas: perguntas factuais — datas, biografias, definições, dados geográficos — são respondidas com base na enciclopédia, com um link discreto de referência que a maioria dos usuários não clica. É o cenário perfeito para a substituição: a resposta é boa o bastante para dispensar a visita, e a fonte fica invisível. Para consultas mais complexas, o resumo mistura várias fontes, o que dilui ainda mais a atribuição.

O que a Wikimedia propõe

A Wikimedia Foundation, que mantém a enciclopédia, defende que empresas de IA que usam a Wikipédia em escala paguem por acesso estruturado — o serviço Wikimedia Enterprise, criado para isso — e que os produtos de IA atribuam claramente a fonte e direcionem tráfego. A fundação também discute limitar o acesso de robôs que sobrecarregam seus servidores sem contrapartida. O dilema é ideológico: a Wikipédia nasceu para ser livre e reutilizável, e restringir o acesso contraria sua missão; mas ser livre para quem a esvazia é insustentável. É a mesma tensão que atravessa toda a web aberta diante da IA generativa.

Cade investiga no Brasil

Os impactos das AI Overviews levaram a investigações em vários países. No Brasil, em abril de 2026, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica abriu apuração para verificar se o uso de conteúdo jornalístico nos resumos afeta o tráfego e o faturamento das empresas do setor — provocação de associações de veículos de imprensa. Na União Europeia, editores apresentaram queixa antitruste semelhante. O argumento é o mesmo: o Google usa o conteúdo dos sites para produzir uma resposta que dispensa a visita ao site, apropriando-se do valor sem remunerar quem o produziu.

O que a web aberta perde

O modelo que sustentou a web por 25 anos — o site produz conteúdo, o buscador o indexa e envia visitantes, o site monetiza a visita — está sendo substituído por outro em que o buscador responde diretamente e o site vira fornecedor invisível. Para a Wikipédia, o risco é a erosão da comunidade de editores; para o jornalismo, é a perda de receita; para o usuário, é a dependência de uma resposta única, gerada por um modelo que erra e que não mostra suas fontes com clareza. O estudo de Washington é mais uma evidência de que a transição está em curso — e de que ninguém definiu ainda como o conteúdo será pago.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a solução passa por dinheiro. "O Google fatura centenas de bilhões com busca; a Wikipédia vive de doação. Se o resumo de IA usa a Wikipédia e tira 100 milhões de visitas dela por mês, o mínimo é que o Google financie a enciclopédia que o alimenta — como já faz, de forma tímida, com a Wikimedia Enterprise. Para o jornalismo, a resposta é a mesma: licenciamento pago, como a OpenAI fez com alguns grupos de mídia. Sem isso, a IA vai resumir uma web cada vez mais pobre, e o resumo vai piorar junto. O Cade investigar é bom; o Google pagar é melhor", analisa.

O estudo da Universidade de Washington sobre o impacto das AI Overviews na Wikipédia está em fase preliminar, sem publicação em periódico revisado por pares. A investigação do Cade sobre os resumos de IA do Google no Brasil segue em andamento.

Foto: Hans Holbein the Younger (Public domain) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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