O Google prepara nova expansão do Scam Detection, o recurso que usa inteligência artificial para identificar possíveis golpes durante ligações telefônicas. Depois de estrear nos celulares Pixel e chegar à linha Galaxy S26, da Samsung, a ferramenta pode ser liberada em aparelhos da Xiaomi e da Jovi — a marca com que a vivo atua no Brasil. A informação vem de análise do código da versão beta do aplicativo Phone by Google feita pelo site Android Authority: a Xiaomi foi adicionada à lista interna de fabricantes compatíveis, e referências à vivo já haviam aparecido em agosto. As informações são do Canaltech.
Ainda não há confirmação de quais modelos serão contemplados. O Android Authority cita o Xiaomi 18 Fold como candidato, mas o aparelho foi anunciado inicialmente para a China — o que sugere que um topo de linha com lançamento internacional pode ser escolhido primeiro. E, como em toda análise de APK, o recurso pode ser alterado, adiado ou cancelado antes de chegar aos usuários.
Como funciona
O Scam Detection analisa a conversa durante a ligação usando inteligência artificial executada no próprio celular, sem conexão com a nuvem. A ferramenta procura padrões de fala associados a golpes — urgência artificial, pedido de transferência imediata, solicitação de código ou senha, ameaça de bloqueio de conta — e emite alerta em tempo real, com som e aviso na tela, quando identifica situação suspeita. Nos Pixel mais recentes, o processamento usa o Gemini Nano, a versão compacta do modelo de IA do Google projetada para rodar localmente.
O Google afirma que o áudio da ligação é processado de forma temporária e não é armazenado no aparelho nem enviado a seus servidores ou a terceiros. É a resposta da empresa à objeção óbvia — uma IA "ouvindo" chamadas — e o motivo de o recurso ser opcional, ativado pelo usuário nas configurações do app Telefone. A empresa também reconhece limitações: a ferramenta não identifica todas as tentativas de golpe, e os criminosos mudam de estratégia constantemente.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o detalhe do processamento local é o que torna a ideia aceitável. "Ninguém quer o Google gravando suas ligações. O que o Scam Detection faz é diferente: o modelo roda no chip do telefone, analisa o padrão de fala na hora e descarta. Nada sai do aparelho. É a mesma lógica do reconhecimento facial local. Se o Google cumprir o que promete — e é auditável, porque o tráfego de rede pode ser monitorado —, é a primeira defesa contra golpe por telefone que não depende de o usuário desconfiar sozinho", avalia.
Onde já funciona
Os primeiros aparelhos compatíveis foram os Pixel, com suporte que varia por modelo e país. Nos Estados Unidos, o recurso funciona do Pixel 6 em diante; em outros mercados, a partir do Pixel 9, e os Pixel 9a e 10a têm suporte apenas nos EUA. A lista de países para Pixel 9 ou superiores inclui Austrália, Canadá, França, Alemanha, Índia, Irlanda, Itália, Japão, México, Singapura, Espanha e Reino Unido. Na Samsung, o Google confirmou o recurso diretamente no aplicativo Telefone da fabricante para toda a linha Galaxy S26, inicialmente nos Estados Unidos.
O Brasil não aparece em nenhuma lista. A ausência tem explicação técnica e comercial: o modelo precisa ser treinado nos padrões de golpe em português brasileiro — vocabulário, sotaques, roteiros locais como o "falso sequestro" e o "golpe do Pix" — e a Pixel não é vendida oficialmente no país. A chegada às marcas Samsung, Xiaomi e Jovi, todas com forte presença nacional, é o que pode abrir caminho.
Xiaomi e Jovi: por que importam
A expansão para Xiaomi e Jovi tem peso especial para o mercado brasileiro. A Xiaomi está entre as marcas de Android mais vendidas no país, com lojas próprias e forte presença no varejo; a Jovi — nome adotado pela vivo no Brasil para evitar conflito com a operadora Vivo — chegou em 2024 e investe em fábrica e distribuição locais. Se o Scam Detection for liberado nas duas, e se o Brasil entrar na lista de países, milhões de aparelhos ganhariam a proteção sem custo adicional.
O Canaltech observa que o Phone by Google — o app de telefone padrão do Android em muitas marcas — é o veículo do recurso: as fabricantes que o adotam como discador recebem a funcionalidade por atualização do app, sem precisar reescrever seu próprio software. É o caso da Xiaomi em alguns mercados; a Samsung, que usa app próprio, precisou de integração específica.
O tamanho do problema no Brasil
Golpes por telefone e por mensagem estão entre as maiores causas de perdas financeiras de consumidores brasileiros. A Febraban e o Banco Central reportam bilhões de reais por ano em fraudes envolvendo engenharia social — a manipulação da vítima para que ela mesma faça a transferência ou entregue a senha —, com o Pix como meio preferido pelos criminosos por sua instantaneidade. O "falso funcionário do banco", que liga alegando transação suspeita e pede que a vítima "confirme" dados ou transfira o dinheiro para uma "conta segura", é um dos roteiros mais comuns — e exatamente o tipo de padrão que um detector de fala treinado para isso deveria reconhecer.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o Brasil deveria ser prioridade, não ausência. "O país tem o Pix, tem 200 milhões de smartphones Android e tem uma indústria de golpe telefônico profissionalizada. Se existe um mercado onde o Scam Detection salvaria dinheiro de gente real, é aqui. O Google treinou para inglês, espanhol do México, japonês — e não para o português do Brasil. Samsung, Xiaomi e Jovi vendem milhões de aparelhos aqui; elas têm poder para cobrar do Google que o modelo aprenda o roteiro do 'falso sequestro'. Deveriam usar", observa.
Limites e falsos positivos
A ferramenta não é infalível em nenhuma das duas direções. Pode deixar passar um golpe bem construído — o Google admite — e pode alertar em ligações legítimas que usem linguagem parecida, como um banco de verdade ligando sobre uma transação. O usuário permanece a última linha de defesa: o alerta serve para interromper o automatismo — "ele disse que é do banco, então é" — e criar o segundo de dúvida que a maioria das vítimas não tem. Especialistas em segurança recomendam, com ou sem o recurso, nunca fornecer códigos por telefone e desligar e ligar de volta para o número oficial da instituição.
O que analisar código de APK significa
As informações sobre Xiaomi e Jovi vêm de engenharia reversa do aplicativo beta, prática comum entre sites especializados: o código inclui referências a fabricantes, modelos e funções que ainda não estão ativas. É indício confiável de desenvolvimento, não de lançamento. O Google não comentou. A confirmação virá quando a empresa ou as fabricantes anunciarem oficialmente os modelos e mercados — o que, no caso da Samsung, aconteceu meses depois de as primeiras referências aparecerem no código.
Outras frentes de proteção
O Scam Detection integra um conjunto de recursos de segurança que o Google vem adicionando ao Android: o identificador de chamadas com alerta de spam, a proteção contra links maliciosos em mensagens, o bloqueio de instalação de apps fora da loja durante ligações — medida específica contra golpes em que o criminoso pede à vítima para instalar um app de "suporte" — e o alerta de compartilhamento de tela com desconhecidos. A Apple, por sua vez, adicionou ao iOS um filtro de chamadas de números desconhecidos com triagem por IA. A concorrência entre os dois sistemas em segurança contra fraude é, para o consumidor, boa notícia.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o recurso é o começo de uma mudança de responsabilidade. "Durante anos, a proteção contra golpe foi tarefa do usuário: desconfie, não clique, não passe senha. Agora o fabricante do sistema operacional começa a assumir parte da tarefa — a IA ouve e avisa. É o mesmo movimento que os bancos fizeram com o limite noturno do Pix e o alerta de transação atípica. Quanto mais camadas automáticas, menos depende da vítima estar atenta às 3 da manhã. O Scam Detection não vai acabar com o golpe; vai tornar o golpe mais difícil. E é assim que fraude se combate: por atrito", analisa.
O Google ainda não anunciou oficialmente a chegada do Scam Detection a aparelhos Xiaomi e Jovi, nem a inclusão do Brasil na lista de países atendidos. Usuários de Pixel e Galaxy S26 nos mercados compatíveis podem ativar o recurso nas configurações do aplicativo Telefone.
Foto: Frederic Remington (Public domain) via Wikimedia Commons.