Tecnologia

Do terremoto de 7,4 na Colômbia ao tornado que destruiu 90% de Rio Bonito do Iguaçu

Professor da UFPR diz que a detecção cresceu exponencialmente em 40 anos e que a IA é divisor de águas ao traduzir dados em alertas; Cell Broadcast opera desde 2024.

Do terremoto de 7,4 na Colômbia ao tornado que destruiu 90% de Rio Bonito do Iguaçu

Uma onda de eventos extremos deixou rastros de destruição na América do Sul nas últimas semanas — o terremoto de magnitude 7,4 na Colômbia, em agosto, derrubou prédios e vitimou centenas; no Brasil, a região Sul é a mais afetada por ciclones-bomba e tornados, além de estar na rota do super El Niño que se forma no segundo semestre. Com toda a força desses fenômenos, tragédias maiores poderiam ocorrer sem o avanço da tecnologia de previsão climática e sismográfica. Reportagem do Canaltech, com o professor Francisco Mendonça, do programa de pós-graduação em Geografia da UFPR, mapeia o que a ciência consegue antecipar — e o que ainda não. As informações são do Canaltech.

Na sismologia, a corrida é contra o tempo: a ciência ainda não prevê com antecedência quando um terremoto acontecerá nem sua magnitude, embora as áreas de risco — as bordas das placas tectônicas — estejam mapeadas desde o século 19. O maior avanço, segundo Mendonça, é a transição dos sismógrafos fixos, que avisam com minutos de antecedência, para sismógrafos móveis de alta precisão.

Minutos que salvam: o alerta sísmico

Ao primeiro sinal, as pessoas são orientadas a evacuar prédios e residências em poucos minutos pelo risco de desmoronamento — e esse tipo de alerta salvou milhares de vidas em terremotos como o da Colômbia e o da Venezuela, em junho. O princípio é simples: as ondas sísmicas primárias, mais rápidas e menos destrutivas, chegam antes das secundárias; sensores as detectam e disparam alerta que percorre a rede mais rápido que a onda destrutiva. Em Tóquio ou na Cidade do México, são dezenas de segundos; em áreas próximas ao epicentro, quase nada. O ganho está na densidade de sensores e na velocidade da comunicação.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a reportagem coloca o dedo na diferença entre saber e agir. "A tecnologia de detecção cresceu exponencialmente em 40 anos — satélite, sensor, IA, alerta no celular. O que não cresceu na mesma velocidade foi a resposta: o professor da UFPR diz que o Brasil tem cultura de remediação, e é verdade. Rio Bonito do Iguaçu ficou 90% destruída por um tornado em novembro de 2025, com seis mortos, apesar de satélite e estação meteorológica. O alerta chegou? Chegou. As pessoas sabiam para onde ir? Não. A tecnologia antecipa; a cultura decide se alguém se move. É o gargalo que nenhum sensor resolve", avalia.

Satélites: o olho em órbita

Os satélites têm papel fundamental na observação e no mapeamento de áreas de risco — abalos sísmicos, eventos climáticos, queimadas. A eficácia, explica Mendonça, vem da atuação conjunta de satélites, estações meteorológicas e medições de superfície, que permitem identificar a formação de tempestades severas com horas de antecedência. O tornado de Rio Bonito do Iguaçu, no interior do Paraná, foi detectado por essa rede; a magnitude da destruição mostrou o limite entre detectar e proteger.

Rio Bonito do Iguaçu: o caso paranaense

Em novembro de 2025, um tornado atingiu Rio Bonito do Iguaçu, cidade do interior do Paraná, e deixou 90% da área urbana destruída, com seis mortes. Foi o evento mais destrutivo do tipo no Brasil em décadas e o exemplo que o professor usa para ilustrar a relação entre detecção e resposta: a tempestade foi monitorada, o alerta emitido, e ainda assim a cidade não tinha abrigos, rotas de fuga ou protocolo de proteção contra vento extremo. O Sul do Brasil, na rota de ciclones extratropicais e tornados, é a região que mais precisa dessa mudança.

IA: correlacionar e traduzir

Para o professor, a inteligência artificial é divisor de águas por duas razões: a velocidade para correlacionar imensas variáveis — população, sismologia, meteorologia, topografia — e a capacidade de traduzir dados científicos complexos em alertas rápidos e acessíveis para a população comum. Modelos de previsão meteorológica baseados em IA, como os do Google DeepMind e do ECMWF, já superam modelos físicos tradicionais em prazo e resolução; a próxima fronteira é o alerta personalizado por localização e perfil.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o Cell Broadcast é a mudança mais concreta e menos celebrada. "Desde 2024, a Defesa Civil manda alerta para todo celular com sinal numa área — sem cadastro, por geolocalização, com som que acorda. É a tecnologia que o Japão e os EUA usam há anos e que o Brasil adotou depois do Rio Grande do Sul. Funcionou em vários eventos de 2025 e 2026. O que falta é o passo seguinte, que o professor aponta: dizer o que fazer e para onde ir. Alerta que diz 'tempestade severa' sem dizer 'saia da margem do rio, vá para a escola X' é metade da informação. A Defesa Civil de cada município precisa mapear os abrigos e colocar no alerta", observa.

Cell Broadcast: o alerta no celular

Desde 2024, a Defesa Civil emite alertas de desastres e enchentes diretamente nos celulares com sinal de operadora, com base na geolocalização — o Cell Broadcast, que não depende de cadastro nem de aplicativo. Complementa o SMS por cadastro no 40199 e os alertas por aplicativo. A mensagem chega com som e vibração diferenciados, mesmo em modo silencioso, e atinge todos os aparelhos numa área definida pela Defesa Civil estadual. É o canal que mais reduz o tempo entre a detecção e o aviso à população.

El Niño: a temporada que vem

O super El Niño em formação no segundo semestre de 2026 — classificado como excepcional pela Organização Meteorológica Mundial — traz ao Sul do Brasil mais chuva, tempestades severas e risco de tornados e ciclones; ao Norte e Nordeste, seca. A rede de detecção terá teste real entre outubro e março; a resposta, também. Estados e municípios já ativam Gabinetes de Crise, como a Defesa Civil paulista fez em julho.

Remediação x prevenção: a cultura

"Historicamente, o Brasil adotou uma cultura de remediação para os desastres" — reconstruir depois, em vez de preparar antes. O professor avalia que o país busca mais precaução e prevenção, o que exige mudança cultural profunda: além de avisar, orientar a população sobre o que fazer e para onde ir. Mapas de risco, rotas de fuga sinalizadas, abrigos definidos, simulados em escolas — a infraestrutura de resposta que a tecnologia de detecção pressupõe e que a maioria dos municípios não tem.

Cemaden: o centro brasileiro de monitoramento

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, criado em 2011 após a tragédia da região serrana do Rio, opera rede de pluviômetros, radares e sensores em quase mil municípios com áreas de risco mapeadas, e emite alertas às Defesas Civis estaduais e municipais. É a fonte dos avisos que chegam ao Cell Broadcast. Sua capacidade de previsão melhorou com modelos de IA e integração de dados de satélite; a lacuna, apontada pelo próprio Cemaden, está na ponta — municípios sem Defesa Civil estruturada para agir sobre o alerta recebido.

O que os municípios podem fazer

Mapear áreas de risco com a Defesa Civil estadual e o Cemaden; cadastrar a população dessas áreas; definir e sinalizar abrigos e rotas; treinar escolas e comunidades; integrar o alerta municipal ao Cell Broadcast com instruções locais; e manter a Defesa Civil municipal estruturada, com equipe e equipamento. É lista que cabe em qualquer orçamento e que evita a maior parte das mortes.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a reportagem deveria ser lida por prefeitos. "Satélite, sismógrafo, IA, alerta no celular — tudo isso existe e funciona. O que mata é o que acontece depois do alerta: gente que não sabe para onde ir, cidade sem abrigo, escola sem simulado. Rio Bonito do Iguaçu é o caso: 90% destruída com a tecnologia toda funcionando. A cultura de remediação é decisão política — reconstruir rende foto, prevenir não. Com o El Niño excepcional chegando, cada prefeito do Sul tem três meses para decidir se vai avisar ou se vai proteger. A tecnologia já avisou", analisa.

A reportagem do Canaltech sobre tecnologia de antecipação de eventos extremos foi publicada em 5 de setembro de 2026, com entrevista do professor Francisco Mendonça, da UFPR. O sistema Cell Broadcast da Defesa Civil opera no Brasil desde 2024.

Foto: Klebs1 (Public domain) via Wikimedia Commons.

TM
Escrito por

Thiago Baptista Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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