A Meta desativou remotamente as câmeras de 0,1% dos óculos inteligentes vendidos, informou a empresa em primeira mão ao Tecnoblog. A medida foi tomada após a identificação de aparelhos adulterados, nos quais os usuários tentaram desativar o LED que indica quando a câmera está fotografando ou gravando vídeo. "Estimamos que menos de 0,1% das unidades vendidas tiveram a câmera adulterada para tentar desativar a luz de LED, e desligamos essas câmeras", afirmou a Meta, sem informar como identifica as modificações. As informações são do Tecnoblog.
O percentual representa aproximadamente 7 mil aparelhos, considerando as cerca de 7 milhões de unidades vendidas pela EssilorLuxottica até o fim de 2025. Na semana anterior, a Meta havia implementado um recurso nativo que desliga a câmera caso o LED seja coberto. O LED é um dos principais mecanismos criados para avisar pessoas próximas de que a câmera está gravando; ainda assim, alguns usuários tentam burlá-lo, e nas redes sociais multiplicaram-se vídeos de pessoas usando os óculos para abordar desconhecidos, fazer pegadinhas ou registrar situações constrangedoras sem consentimento — grande parte dos vídeos em primeira pessoa que circulam é feita com óculos da Meta. No Brasil, a empresa vende as linhas Ray-Ban Meta e Oakley Meta, que combinam câmera, alto-falantes, microfones e inteligência artificial, a partir de R$ 3.299; o Oakley Meta HSTN chegou por R$ 3.459, e a terceira geração dos Meta Glasses já foi homologada, sem data de lançamento. Reguladores tentam lidar com a tecnologia: o Instituto de Defesa de Consumidores acionou o Ministério Público Federal para pedir investigação sobre os riscos, e na Noruega autoridades avaliam restringir ou proibir óculos com câmeras — "Precisamos impedir que esse equipamento seja usado para monitorar outras pessoas em locais públicos", afirmou a ministra da digitalização Karianne Tung.
O LED como contrato social — e por que ele é frágil
Quando lançou os óculos com câmera em parceria com a Ray-Ban, em 2021, a Meta apostou numa luz branca na armação como a garantia de que ninguém seria filmado sem saber — resposta ao fracasso do Google Glass, rejeitado uma década antes justamente pelo medo de gravação oculta; o LED é pequeno, fica na haste e é invisível a poucos metros ou sob luz do sol, e a própria empresa reconheceu, desde o início, que autoridades de proteção de dados na Irlanda e na Itália questionavam sua eficácia. A adulteração — cobrir com fita, pintar, cortar o circuito — era previsível, e a Meta respondeu em duas camadas: software que desliga a câmera se o sensor detectar o LED obstruído e, agora, desligamento remoto de aparelhos identificados como modificados. A decisão mostra que a empresa consegue, à distância, inspecionar e desativar componentes de um produto que o consumidor comprou — poder que resolve o abuso e abre outra discussão, sobre quem controla o dispositivo.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia é boa e inquietante ao mesmo tempo. "Boa porque 7 mil pessoas que compraram óculos de 3 mil reais para filmar desconhecidos sem aviso ficaram sem câmera — a Meta fez o que devia. Inquietante porque a Meta pode, de Menlo Park, olhar dentro de um óculos em São Paulo, decidir que foi adulterado e desligar a câmera, sem dizer como detecta nem que recurso o dono tem. E porque os outros 6,99 milhões continuam filmando com uma luzinha que ninguém vê na rua. O Idec pediu investigação, a Noruega fala em proibir: o debate real não é o 0,1% que burlou o LED, é se o LED basta. Quem já foi filmado sem saber numa mesa de bar sabe que não", avalia.
7 milhões de unidades: o sucesso que criou o problema
Os Ray-Ban Meta tornaram-se o primeiro dispositivo vestível de massa com câmera: a EssilorLuxottica vendeu cerca de 7 milhões até o fim de 2025, triplicou a produção e projeta dezenas de milhões até 2027; a integração com a IA da Meta — que descreve o que o usuário vê, traduz e responde — transformou os óculos em produto de uso diário, e a linha Oakley e os modelos com display ampliaram o público. A escala é o que torna a questão da privacidade urgente.
Vídeos em primeira pessoa: a cultura da gravação oculta
Abordagens a estranhos na rua, pegadinhas, "experimentos sociais", registros de brigas e de situações íntimas — o formato em primeira pessoa, sem que o filmado perceba, cresceu no TikTok e no Instagram com os óculos da Meta; plataformas removem parte do conteúdo, mas a gravação em si, em espaço público, é legal em muitos países e o consentimento raramente é pedido. É o uso que motivou o Idec e a ministra norueguesa.
Desligamento remoto: como a Meta faz e o que o dono pode fazer
A empresa não explicou o método — provavelmente combinação de sensores que detectam o LED obstruído ou desconectado e diagnósticos enviados pelo aplicativo —; o usuário identificado perde a câmera, mas mantém áudio e IA. Não há informação sobre recurso ou reversão, e especialistas em direito do consumidor questionam a desativação sem contraditório.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o Brasil tem instrumentos e não os usa. "A LGPD trata imagem como dado pessoal; o Código Civil protege a imagem; o Idec já acionou o MPF. O que falta é a ANPD dizer se óculos com câmera e LED de dois milímetros atendem ao princípio da transparência — a Itália e a Irlanda perguntaram isso em 2021 e a resposta foi a luzinha. A Noruega vai além e discute proibir em espaço público. O portal não defende proibição; defende regra: aviso visível, som de gravação como nas câmeras japonesas, e o direito de quem foi filmado de pedir a exclusão. A Meta acabou de provar que consegue controlar o aparelho remotamente; então consegue fazer o LED maior", observa.
Idec e o MPF: o pedido de investigação
O Instituto de Defesa de Consumidores pediu ao Ministério Público Federal que apure os riscos dos óculos inteligentes à privacidade de terceiros, a adequação das informações ao consumidor e a conformidade com a LGPD; o MPF pode instaurar inquérito civil e acionar a ANPD e a Senacon. A Meta diz que os produtos cumprem a legislação.
Noruega e a Europa: rumo à restrição
A ministra Karianne Tung defende impedir o uso para "monitorar outras pessoas em locais públicos", e o governo estuda desde restrições de uso a proibição; autoridades de proteção de dados da União Europeia discutem orientações comuns, e o AI Act já restringe reconhecimento facial em tempo real — função que os óculos da Meta não têm oficialmente, mas que pesquisadores demonstraram ser possível com software externo.
Google Glass: a lição de 2013
O Google lançou seus óculos com câmera em 2013 e os retirou do mercado de consumo em 2015, após bares, cinemas e restaurantes proibirem o uso e o termo "glasshole" pegar; a Meta aprendeu com o design — os Ray-Ban parecem óculos comuns — e com o LED, mas herdou o mesmo dilema: quanto mais discreto o aparelho, maior a chance de gravação oculta.
Reconhecimento facial: o risco seguinte
Em 2024, estudantes de Harvard mostraram que os óculos da Meta, combinados a um serviço de busca de rostos, identificavam desconhecidos na rua com nome e endereço em segundos; a Meta não oferece a função e diz proibi-la, mas a demonstração é o cenário que reguladores temem — e o argumento norueguês para a proibição.
O que o consumidor brasileiro deve saber
Os óculos gravam vídeo e foto, transmitem para o celular e podem enviar imagens à IA da Meta; o LED acende durante a gravação e, se coberto, a câmera desliga; adulterar o LED pode resultar em desligamento remoto. Filmar pessoas identificáveis sem consentimento e publicar pode gerar responsabilidade civil no Brasil.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a Meta resolveu o problema errado. "Quem cobre o LED é 0,1%; quem filma com o LED aceso e ninguém vê é 99,9%. Desligar 7 mil câmeras é gesto de relações públicas — necessário, mas pequeno. A pergunta que o Idec fez ao MPF e que a Noruega fez ao próprio governo é outra: uma sociedade quer 7 milhões de câmeras na cara das pessoas, ligadas a uma IA, controladas por uma empresa que pode desligá-las quando quiser? A resposta vai definir as regras dos vestíveis pelos próximos dez anos. O portal registra que a discussão começou — e que a Meta, ao desligar câmeras à distância, provou que tem o botão", analisa.
A desativação remota das câmeras de cerca de 0,1% dos óculos inteligentes da Meta, por adulteração do LED indicador de gravação, foi informada pela empresa ao Tecnoblog em 3 de setembro de 2026. O Idec acionou o Ministério Público Federal, e a Noruega estuda restringir os dispositivos.
Foto: Tzim78 (CC BY 4.0) via Wikimedia Commons.