A cidade de Nova York suspendeu o uso de inteligência artificial generativa por alunos de suas escolas públicas: a medida vale durante o próximo ano letivo, de 10 de setembro a junho de 2027, e proíbe o uso de "todo software que usa IA generativa para alunos". Os chatbots de companhia, que simulam pessoas reais, foram proibidos para alunos de todas as séries. As informações são do G1.
A cidade criará aulas de alfabetização em IA duas vezes por ano para todos os alunos dos últimos anos do ensino fundamental e programas-piloto para alguns estudantes usarem ferramentas de IA com supervisão de um educador. "A indústria de tecnologia quer que acreditemos que a educação infantil impulsionada por inteligência artificial não só é inevitável, como também necessária. Nós não vemos as coisas dessa forma", disse o prefeito Zohran Mamdani. "Todos os dias, quando os nossos filhos vêm para a escola, nós os ensinamos a fazer perguntas, a questionar pressupostos, a interrogar premissas, a perguntar 'por quê?'. Quando se trata de IA em nossas escolas, temos a obrigação de fazer o mesmo." Ainda segundo Mamdani, as escolas devem suspender o uso atual de cerca de 40 ferramentas educacionais nas salas de aula da cidade; a política afetará cerca de 600 mil alunos até a 8ª série, e os professores terão permissão para usar IA no planejamento de aulas e em tarefas como a organização de horários. "As crianças precisam de professores e de conexão humana para aprender e crescer. Elas precisam desenvolver habilidades ao lado de seus pares, construir relacionamentos com educadores e lidar com problemas complexos por conta própria", afirmou. Escolas públicas da cidade já haviam imposto uma proibição temporária do ChatGPT logo após seu lançamento, em 2022; a restrição foi posteriormente suspensa e substituída por um assistente de ensino personalizado baseado em IA.
O maior sistema escolar dos Estados Unidos diz não: por que Nova York freia a IA na sala de aula enquanto o Vale do Silício e a Casa Branca aceleram — e o que isso diz ao Brasil
A decisão de Mamdani — prefeito eleito em 2025 como socialista democrata, com plataforma de enfrentamento às big techs e ao custo de vida — coloca o maior sistema escolar público dos Estados Unidos, com 1,1 milhão de alunos, na contramão de duas correntes poderosas: a indústria de tecnologia, que assinou em 2025 um compromisso com a Casa Branca de Trump para levar IA a todas as escolas do país, com OpenAI, Google, Microsoft e Anthropic oferecendo versões educacionais gratuitas e o Departamento de Educação federal incentivando a adoção; e a própria burocracia nova-iorquina, que após o veto ao ChatGPT em 2022 recuou, contratou um assistente de ensino baseado em IA e permitiu que cerca de 40 ferramentas — de tutores adaptativos a corretores automáticos e chatbots de "companhia" que conversam com crianças como amigos — entrassem nas salas sem avaliação de impacto; o argumento do prefeito é pedagógico e político ao mesmo tempo: a evidência científica sobre ganhos de aprendizagem com IA generativa em crianças até 13 anos é escassa e contraditória — estudos do MIT e da Universidade da Pensilvânia em 2025 apontaram redução de esforço cognitivo e de retenção quando alunos usam chatbots para tarefas —, os riscos de dependência emocional de chatbots de companhia foram expostos por processos de famílias contra a Character.AI e a OpenAI após suicídios de adolescentes, e a pressão da indústria para "inevitabilizar" a IA na infância é, na leitura de Mamdani, uma estratégia comercial disfarçada de progresso. A medida é, porém, uma pausa e não um banimento: um ano letivo, alfabetização em IA duas vezes por ano — ensinar o que é, como funciona, como erra e como manipula —, pilotos supervisionados e liberdade para professores usarem as ferramentas no planejamento; é o modelo "aprender sobre antes de aprender com" que a Unesco recomenda desde 2023 e que poucos sistemas adotaram, e que agora terá o teste de escala mais relevante do mundo. Para o Brasil, onde o MEC publicou diretrizes sobre IA na educação, redes estaduais como a de São Paulo contrataram plataformas com IA para gerar aulas e corrigir redações — com resultados questionados e erros factuais documentados —, e onde a lei que restringe celulares nas escolas, de 2025, mostrou que a pausa tecnológica é possível e popular, a decisão de Nova York é o precedente que pais, professores e secretarias vão citar; e para Araras e o interior paulista, cujas escolas municipais e estaduais recebem as mesmas plataformas por contrato centralizado, a pergunta que Mamdani faz — quem decidiu, com que evidência, e o que acontece com a criança que aprende a perguntar a um chatbot em vez de a um professor — é a mesma, sem prefeito para respondê-la.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, Mamdani fez o que nenhum governo teve coragem de fazer. "Seiscentas mil crianças, quarenta ferramentas, um ano de pausa e uma frase: a indústria quer que acreditemos que é inevitável, e não é. Não é proibição — é 'antes de usar, aprenda o que é'. É o que a Unesco recomenda há três anos e o que São Paulo ignorou ao contratar plataforma de IA para gerar aula. O portal registra a decisão de Nova York como o experimento educacional mais importante do ano, e observa que o Brasil, que soube tirar o celular da sala, ainda não perguntou o que a IA está fazendo dentro dela. Araras recebe a plataforma pelo contrato do estado; quem avaliou?", avalia.
O que a medida proíbe e o que permite
Proíbe todo software de IA generativa para alunos até a 8ª série durante o ano letivo 2026–2027 e chatbots de companhia em todas as séries; retira cerca de 40 ferramentas das salas; permite IA a professores para planejamento e horários; cria alfabetização em IA duas vezes por ano e pilotos supervisionados para alguns estudantes.
Chatbots de companhia: o veto total
Aplicativos que simulam amigos, tutores ou personagens e mantêm conversas contínuas com crianças foram banidos para todas as idades; processos contra Character.AI e OpenAI por suicídios de adolescentes nos Estados Unidos e a evidência de dependência emocional motivaram a proibição sem exceção.
2022: o primeiro veto ao ChatGPT e o recuo
Semanas após o lançamento do ChatGPT, as escolas de Nova York o bloquearam; meses depois, suspenderam a restrição e adotaram um assistente de ensino baseado em IA — o ciclo de reação e adesão que a nova pausa tenta substituir por avaliação prévia.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a decisão é também um ato contra a Casa Branca e as big techs. "Trump assinou com a indústria um compromisso de levar IA a toda escola americana; OpenAI, Google e Microsoft dão versões grátis para prender o cliente desde os oito anos. Mamdani diz não em nome de 600 mil crianças, e vai ser atacado como retrógrado por quem tem ação para vender. O portal registra e lembra que a evidência de aprendizagem com chatbot em criança é fraca e a de perda de esforço cognitivo é crescente; pausar um ano para ensinar o que é IA não é atraso — é o que uma escola deveria fazer com qualquer tecnologia que chega prometendo ser inevitável", observa.
A evidência: o que se sabe sobre IA e aprendizagem infantil
Estudos de 2025 do MIT e da Universidade da Pensilvânia associaram o uso de chatbots em tarefas a menor esforço cognitivo e retenção; ganhos de aprendizagem com tutores de IA são documentados sobretudo em adultos e ensino médio; para crianças até 13 anos, a base científica é escassa — o argumento central da pausa.
Casa Branca e big techs: a pressão pela adoção
O compromisso de 2025 entre o governo Trump e empresas de tecnologia prevê IA em todas as escolas americanas, com produtos gratuitos e incentivos federais; Nova York é o primeiro grande sistema a resistir, e a reação da indústria — e de Washington — testará a autonomia das redes locais.
Alfabetização em IA: aprender sobre antes de aprender com
Duas vezes por ano, alunos dos últimos anos do fundamental terão aulas sobre o que é IA generativa, como funciona, como erra e como pode manipular; o modelo segue a recomendação da Unesco de 2023 e será, pela escala, o maior teste do mundo de educação crítica sobre a tecnologia.
O Brasil: MEC, São Paulo e a lei do celular
Diretrizes do MEC, plataformas de IA contratadas pela rede paulista para gerar aulas e corrigir redações — com erros documentados — e a lei de 2025 que restringiu celulares nas escolas formam o contexto brasileiro; a decisão de Nova York oferece o precedente para uma avaliação que ainda não foi feita.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a frase mais importante é a que fala de "por quê". "Mamdani diz que a escola ensina a criança a perguntar por quê, e que a cidade tem obrigação de fazer o mesmo com a IA. É o contrário do que a indústria pede: adote primeiro, avalie depois, se der tempo. O portal registra a pausa de Nova York e sugere que as secretarias de educação do Brasil, inclusive a que manda plataforma para Araras, façam a pergunta antes da próxima renovação de contrato: o que a evidência diz? Se a resposta for 'ainda não sabemos', a pausa é a resposta certa", analisa.
A suspensão do uso de inteligência artificial generativa por alunos das escolas públicas de Nova York durante o ano letivo 2026–2027, anunciada pelo prefeito Zohran Mamdani, foi noticiada pelo G1 em 2 de setembro de 2026; a medida proíbe chatbots de companhia em todas as séries, retira cerca de 40 ferramentas das salas de aula, alcança cerca de 600 mil estudantes até a 8ª série e prevê aulas de alfabetização em IA e programas-piloto supervisionados.
Foto: Fotografía oficial de la Presidencia de Colombia (Public domain) via Wikimedia Commons.