Há menos de um ano, o governador do Texas, Greg Abbott, dizia que o estado era o "epicentro do desenvolvimento da inteligência artificial". Agora, em plena campanha pela reeleição, ele defende amplas restrições aos data centers. Nos Estados Unidos, democratas tentam aproveitar a resistência local antes das eleições de novembro e, ao mesmo tempo, um número crescente de republicanos se afasta da política de incentivo à inteligência artificial do presidente Donald Trump: candidatos republicanos de ao menos cinco estados, entre eles Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, endureceram o discurso contra essas instalações, e alguns apresentaram propostas para limitar novos projetos. As informações são do G1.
O movimento abriu uma nova divisão dentro do Partido Republicano. Segundo Brad Dayspring, estrategista da consultoria Purple Strategies, o debate coloca de um lado a defesa do crescimento econômico e a disputa com a China pela liderança em inteligência artificial e, do outro, uma reação popular motivada pelo aumento do custo de vida. A mudança mais evidente ocorre no Texas: o estado conservador e rico em petróleo tenta há anos se transformar em polo nacional de tecnologia, e a oferta de terrenos e as regras favoráveis atraíram companhias como SpaceX e Oracle e empresários bilionários como Elon Musk — mas mesmo ali a opinião pública se voltou contra os data centers. Críticos afirmam que as instalações aumentam as contas de luz e água, reclamam da iluminação intensa que afeta o céu noturno e dizem que os projetos não geram empregos nem arrecadação suficientes para justificar os incentivos públicos; uma pesquisa do Texas Politics Project, divulgada em agosto, mostrou que apenas 30% dos entrevistados apoiariam a instalação de um data center em sua comunidade. As grandes empresas de tecnologia tentam reagir: segundo registros eleitorais e documentos de empresas e comitês, já investiram mais de US$ 300 milhões nas eleições de meio de mandato e lançaram ampla campanha publicitária para explicar aos consumidores os possíveis benefícios. Com o aumento da resistência, Abbott passou a defender novas regras para o setor, quer acabar com incentivos fiscais à construção e restringir projetos em comunidades rurais.
A revolta contra o data center: por que a infraestrutura da IA virou o tema que une esquerda e direita nos Estados Unidos — e o que isso ensina ao Brasil
A corrida da inteligência artificial exige data centers de escala inédita — instalações de centenas de milhares de GPUs que consomem de 100 megawatts a mais de um gigawatt cada, o equivalente a cidades inteiras, e milhões de litros de água por dia para refrigeração —, e os Estados Unidos, com o projeto Stargate de US$ 500 bilhões e os planos de Microsoft, Google, Amazon e Meta, constroem dezenas deles em estados com terra barata, energia disponível e incentivo fiscal: Texas, Virgínia, Arizona, Geórgia, Ohio, Pensilvânia; o que os moradores descobriram em dois anos é o custo — a demanda elétrica dos data centers pressionou a tarifa residencial em até 20% em regiões da PJM, a rede do leste, e no Texas, cuja rede isolada, a ERCOT, já falhou no inverno de 2021, cada gigawatt novo é risco de apagão e alta de conta; a água, em estados secos, virou disputa entre fazendeiros e servidores; a luz noturna e o ruído dos ventiladores mudam a vida rural; e os empregos, prometidos aos milhares, são centenas depois da construção — enquanto a isenção fiscal chega a bilhões. O resultado é uma coalizão improvável: democratas ambientalistas e republicanos rurais, moradores da Pensilvânia que a Folha mostrou se unindo contra a expansão e o governador do Texas, que era o maior entusiasta, mudando de lado na campanha; a pesquisa de 30% de apoio no estado mais pró-negócios do país é o número que assustou Abbott e que faz de "data center" um tema de eleição de meio de mandato — em que os republicanos, atrelados à agenda de IA de Trump e aos US$ 300 milhões das big techs, precisam decidir entre o doador e o eleitor. Para o Brasil, que discute o Redata — incentivo a data centers com os "jabutis" que o Congresso incluiu — e onde Magalu, Scala e as americanas anunciam projetos de gigawatts no Ceará, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, a lição texana é precisa: energia e água são o custo real, emprego é o menor dos benefícios, e a comunidade que recebe a instalação precisa ser parte da conta — sob pena de o "epicentro da IA" virar, em um ano, o epicentro da revolta.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a virada do Texas é o alerta mais importante da semana para quem discute data centers no Brasil. "O estado mais pró-negócios dos Estados Unidos, com o governador que se dizia epicentro da IA, descobriu que data center é conta de luz mais cara, água disputada, céu iluminado e trezentos empregos por bilhões de isenção — e 70% dos texanos não querem um perto de casa. Abbott mudou de lado porque o eleitor mudou. O Brasil está aprovando o Redata com jabuti, prometendo gigawatts no Ceará e em São Paulo, e ninguém perguntou ao morador de Araras se quer pagar bandeira vermelha para refrigerar servidor de multinacional com isenção fiscal. O portal registra a pesquisa de 30% e a divisão republicana — e sugere que o Congresso brasileiro leia o que aconteceu no Texas em um ano antes de sancionar a lei", avalia.
Abbott: de "epicentro" a restrição
O governador republicano, em campanha pela reeleição, passou de defensor dos incentivos a proponente de novas regras: fim das isenções fiscais para construção, restrições a projetos em áreas rurais e exigências sobre energia e água; a mudança acompanha a pesquisa de agosto e a pressão de eleitores rurais que formam sua base.
Contas de luz e água: o custo que o eleitor vê
Data centers de IA consomem energia equivalente a cidades e água para refrigeração; a demanda elevou tarifas residenciais em regiões dos Estados Unidos e ameaça a rede texana, que já entrou em colapso em 2021; em áreas secas, a água dos servidores compete com a agricultura — argumentos que unem republicanos rurais e democratas ambientalistas.
A pesquisa: 30% de apoio no Texas
O Texas Politics Project, da Universidade do Texas, mediu em agosto que apenas três em cada dez texanos aceitariam um data center em sua comunidade — número baixo para um estado que celebra indústria e petróleo, e que explica a inflexão de Abbott e de candidatos republicanos em Michigan, Wisconsin e Pensilvânia.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, os US$ 300 milhões das big techs são o dado político central. "Trezentos milhões de dólares nas eleições de meio de mandato, mais campanha publicitária para convencer o consumidor de que data center é bom — é o lobby mais caro da história recente, e está perdendo para a conta de luz. Quando a Meta e a Amazon precisam de comercial de TV para justificar servidor, o argumento acabou. O portal registra a divisão republicana — Trump quer IA a qualquer custo, o eleitor rural quer água e luz barata — e observa que o Brasil, com energia limpa e barata, é o destino natural dos data centers que o Texas rejeita. A pergunta é quem paga a conta aqui", observa.
Trump e a agenda de IA: a divisão republicana
O governo federal prioriza a liderança em inteligência artificial sobre a China, com incentivos, desregulação e apoio ao Stargate; candidatos republicanos estaduais, pressionados por eleitores, afastam-se da linha — a primeira divergência interna relevante sobre política econômica no segundo mandato.
Pensilvânia, Michigan, Wisconsin: os outros estados
Moradores da Pensilvânia se organizam contra a expansão de data centers, como a Folha mostrou; em Michigan e Wisconsin, candidatos republicanos propõem limites; são estados decisivos nas eleições de novembro, o que transforma o tema em variável eleitoral nacional.
As big techs reagem: dinheiro e propaganda
Mais de US$ 300 milhões em doações e comitês para as eleições de meio de mandato e campanha publicitária nacional sobre os benefícios dos data centers — empregos na construção, arrecadação, "soberania tecnológica"; o esforço enfrenta a evidência local de contas mais altas e poucos empregos permanentes.
Brasil: Redata, gigawatts e a lição do Texas
O país discute incentivos fiscais a data centers, com projetos de gigawatts anunciados no Ceará, em São Paulo e no Sul, e a promessa de energia limpa e barata; a experiência texana sugere exigir contrapartidas — energia própria, reúso de água, emprego local, participação da comunidade — antes que o custo apareça na conta de luz do vizinho.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a notícia mostra a IA encontrando seu limite físico e político. "A inteligência artificial é abstrata até virar um galpão de um gigawatt ao lado da fazenda, com luz acesa a noite inteira e a conta de energia subindo. Aí vira política, e o Texas mostrou que nem republicano de petróleo aguenta. O portal registra a virada de Abbott como o momento em que a infraestrutura da IA passou a ser cobrada — e lembra que o ONS acabou de avisar que o Brasil pode precisar de todas as térmicas neste verão. Data center de multinacional com isenção, nesse cenário, é assunto de eleição aqui também", analisa.
A reportagem sobre a mudança de posição de republicanos do Texas e de outros estados contra os data centers das grandes empresas de tecnologia, com o governador Greg Abbott defendendo restrições e a pesquisa do Texas Politics Project apontando apenas 30% de apoio, foi publicada pelo G1 em 3 de setembro de 2026; as big techs investiram mais de US$ 300 milhões nas eleições de meio de mandato de novembro.
Foto: The White House from Washington, DC (Public domain) via Wikimedia Commons.